17/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Paulinho Faria se despede e deixa o carisma de 26 anos no Garantido. Veja o vídeo da despedida

Publicado em 22 de fevereiro, 2021

Paulinho Faria se despede

Paulinho Faria se despede e deixa lembranças como esta (foto), quando apresentamos o Peladão, em Manaus. Ele conseguia organizar aquela balburdia de mais de mil times e segurava a peteca nas muitas horas de desfile, só na base do carisma

Quem foi Paulinho Faria? Difícil dizer em palavras, neste momento em que ele nos deixa. Mas ele foi o cara que, na noite de despedida do Bumbódromo, constrangeu a torcida do Caprichoso a ajudá-lo, apresentando o Garantido. Como? Pedindo que fizesse a tradicional contagem, mantida pelo atual apresentador, Israel Paulain. “Nunca pedi nada a vocês, mas agora, para eu nunca esquecer, façam comigo a contagem”. Foi explosivo. Inesquecível (o vídeo está no fim desta matéria). Coisas de Paulinho Faria.

 

Rivalidade até na marcha

Paulinho era extremamente competitivo. Já estava na rádio Alvorada quando cheguei. Levava debaixo do braço os discos que tocava em seu programa vespertino. Só ele tinha certas músicas. O programa era diferenciado e cativava a audiência.

Acirrar rivalidades era uma marca dele. Lotava o Tupy Catanhede fustigando a torcida do Amazonas e incentivando o seu Sul América, do qual se tornou presidente. Até no Desfile de 7 de Setembro criou rivalidade – entre Colégio Batista, onde éramos colegas de aula, e N.S. do Carmo. Liderava a banda marcial, tocando uma caixinha impecável.

 

Grande no Garantido, grande no Festival

Entre os bumbás, se tornou tão grande no Garantido que foi grande para o Festival de Parintins.

O Caprichoso deitava e rolava com o único carro de som da cidade, de Zé Maria Pinheiro. Ele não teve dúvidas: convenceu a família e montou um som na famosa picape amarela de A Jotapê. Passava o ano fazendo propaganda da loja. E, nos meses próximos ao Festival, levava a rivalidade Garantido-Caprichoso ao extremo. Ele e Zé Maria passeavam pela cidade tocando as toadas e soltando farpas, um contra o outro. O resultado é que não havia como a cidade inteira não se envolver. O Festival avançou empurrado pelos dois.

Zé Maria havia deixado o rádio e atuava apenas no som e apresentando, com Raimundo Pimentel e Rubem dos Santos, o Caprichoso. Paulinho não teve dúvidas: foi apresentar o Garantido. Zé Maria levou Armando Carvalho, um craque, para apresentar o Caprichoso. Paulinho e Armando valorizaram e impulsionaram o item. Armando veio para Manaus e hoje mora em Santarém (PA). E Paulinho se tornou absoluto, formando grande parte da atual torcida vermelha e branca.

 

A doença

Paulinho foi vítima da bactéria associada ao coronavírus e que ceifou a vida de Zezinho Corrêa. Mas estava reagindo bem. Até que veio um problema de pneumotórax, ar entre as camadas da pleura. Uma cirurgia foi necessária para buscar a volta do funcionamento pleno dos pulmões. Os médicos deixaram o procedimento otimistas. Mas ele não resistiu e faleceu nesta segunda (22/02).

Perdi o cara que me ensinou a ouvir a Rádio Clube, de Belém, para receber as novidades esportivas de José Lessa. E depois me revelaria que pensava me levar para a vaga de plantão esportivo, que era dele, na Rádio Alvorada. Rubem dos Santos, meu irmão, me levaria depois. Paulinho se tornou narrador esportivo, dos bons, claro, como em tudo que fazia. E já foi logo dizendo: “Teu lugar é narrando. Espera só um pouquinho”.

Duas semanas depois, quando narrei um tempo de um jogo do Campeonato Interlandino (eram cinco minutos para cada tempo), estreando, ele não teve dúvidas: “Para a TV ainda está lento”. Sabia mexer com os brios. No domingo seguinte, quando o ritmo melhorou (uma semana grudado nos narradores do Sul-Sudeste, fazendo trava-língua e narrando no banheiro), também não me faltou: “Agora sim. Já está melhor do que eu”. Não estava. Mas era o jeito dele de incentivar.

Perdi um irmão. Se mais pudesse, mais diria sobre Paulinho Faria. Disse uma parte em vida, quando soube que andava deprimido. E ele ligou, agradecido, frágil e grande, como sempre.

Tive a honra de enfrentá-lo na Arena. Muitos duvidaram da nossa competitividade. Paulinho, no entanto, não precisava que ninguém facilitasse nada. Ele era o melhor. Menos ainda facilitaria para quem estivesse do outro lado. O Garantido era a vida dele.

Foi, no seu tempo, o cara do bumbá: escolhia dos itens às toadas e envolveu os irmãos, Zezinho, Antônio e Graça, da confecção de fantasias à administração do vermelho e branco.

Foi-se uma parte significativa da história parintinense. Não deu tempo de a gente escrever o livro, Paulinho. Mas esse texto, carregado de saudades, quase vira um.

Vá em paz, querido amigo, irmão. Que Deus o receba de braços abertos. Dê um abraço em seu amigo Rubem dos Santos, por mim. E nada de convencer São Pedro de que o Garantido é melhor – embora todos saibamos que você vai tentar.

Ana Paula, esposa, Bel, filha, lutaram muito por você. E hão de retirar dessa luta o consolo em sua partida. Zezinho, Antônio e Graça também lutaram, como puderam. A torcida do Garantido perde seu ícone.

Descanse em paz.

VEJA O VÍDEO DA NOITE DE DESPEDIDA DE PAULINHO DA APRESENTAÇÃO DO GARANTIDO.

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