
O vice-governador do Amazonas, Tadeu de Souza, e o prefeito de Manaus, David Almeida. Foto: Ricardo Machado / Secretaria-geral da Vice-governadoria
A política é, por natureza, um campo de alianças provisórias e rupturas inevitáveis. Ainda assim, há momentos em que determinados rompimentos transcendem o cálculo eleitoral e ganham contornos simbólicos. É o caso da crise aberta entre o prefeito de Manaus, David Almeida, e o vice-governador do Amazonas, Tadeu de Souza.
Ambos têm origem comum. São frutos do Morro da Liberdade, um dos bairros mais tradicionais da capital amazonense. Compartilharam não apenas a origem simples, mas também redes de convivência e trajetórias que, em muitos momentos, se entrelaçaram. Ao lado deles, formou-se um grupo que inclui ainda o vice-prefeito Renato Jr. e o secretário municipal de Finanças e Tecnologia da Informação (Semef), Clécio Freire.
Entre esses nomes, Tadeu virou procurador do Estado e Clécio auditor do Tribunal de Contas. Eles sempre foram identificados como os quadros mais técnicos. David, por sua vez, trilhou um caminho eminentemente político, que o levou à presidência da Assembleia Legislativa, ao Governo do Estado, ainda que por apenas cinco meses, e, agora, à Prefeitura de Manaus, onde foi reeleito.
A construção desse grupo não se deu ao acaso. Foi fruto de decisões estratégicas que, ao longo do tempo, consolidaram um arranjo político robusto. David teve papel central ao aproximar Tadeu e Clécio de sua órbita e ao impulsionar a ascensão de Renato Jr., que ganhou protagonismo na gestão municipal, com um perfil marcado pela execução de obras e soluções práticas.
Esse mesmo grupo parecia chegar fortalecido ao ciclo eleitoral de 2026. Havia, inclusive, um desenho plausível: David Almeida disputando o Governo do Estado, com apoio simultâneo da máquina municipal, sob comando de Renato Jr., e da estrutura estadual, que poderia ser conduzida por Tadeu de Souza, em caso de eventual saída do governador Wilson Lima.
O cenário, contudo, desmoronou.
O que antes era divergência de bastidores tornou-se confronto público. As declarações recentes elevam o tom do conflito a um patamar difícil de recompor. Ao classificar Tadeu como “fracassado moral”, David Almeida parece romper qualquer possibilidade de convivência política imediata. A resposta de Tadeu, ao afirmar que o prefeito “sai de casa todo dia para brigar com alguém”, apenas confirmou a profundidade da crise.
Esse embate ocorre em um momento crítico do calendário eleitoral. A menos de dez dias do prazo final de desincompatibilização, decisões que deveriam ser estratégicas passam a ser contaminadas por ressentimentos pessoais e disputas de narrativa.
Enquanto isso, o governador Wilson Lima mantém a batida dos últimos meses. Segue em ritmo de campanha, com sinais claros de articulação política, mas reafirma publicamente que permanecerá no cargo até o fim do mandato. A assessoria botou para rodar carro de som, até com jingle, aquela musiquinha típica de campanha. Essa dualidade mantém o ambiente em suspensão e amplia a imprevisibilidade.
David Almeida, por sua vez, anuncia que deixará o cargo no dia 31. Trata-se de uma decisão de alto risco, uma vez que a renúncia é irreversível. Não há espaço para recuo. A escolha exige convicção ou, ao menos, uma leitura precisa do cenário. O prefeito chegou a dizer, ao anunciar a saída, que está “dobrando a aposta”.
O prazo final, 4 de abril, impõe um limite objetivo à disputa Tadeu-David, que ganhou contornos emocionais. E é justamente nesse ponto que a política revela sua face mais complexa: a incapacidade de separar divergência de ruptura.
A frase de Thomas Jefferson, um dos principais Founding Fathers, os fundadores dos Estados Unidos, oferece uma medida do contraste: “Nunca considerei uma diferença de opinião em política, em religião ou filosofia, como causa para me afastar de um amigo.”
No Amazonas, ao que tudo indica, a política não apenas afasta. Ela rompe alianças, reconfigura trajetórias e, em casos como este, redesenha o tabuleiro eleitoral.
O que era força coletiva transforma-se em fragmentação. E, na política, fragmentação nunca é neutra.
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