19/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Cacau da Amazônia: riqueza ignorada e oportunidade histórica

Publicado em 27 de março, 2026

Cacau da Amazônia

O potencial do Cacau da Amazônia é gigantesco e pode criar uma riqueza morena para os caboclos

Poucas cadeias produtivas simbolizam de forma tão clara a incapacidade histórica do Brasil — e, em especial, da Amazônia — de transformar riqueza natural em desenvolvimento quanto a do cacau.

A região que se estende de Itacoatiara, no Amazonas, a Santarém, no Pará, a chamada “Grande Mundurucânia”, na definição do historiador Arthur César Ferreira Reis, reúne condições naturais excepcionais para a produção de cacau. Nas várzeas dos rios de água branca, como Solimões/Amazonas, Purus, Juruá, Madeira e seus inúmeros afluentes, que vão além dessa área, o cacaueiro encontra ambiente ideal.

“Todo rio de água branca produz muito cacau”, resume o presidente do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas (Idam), Valdenor Pontes Cardoso, um dos maiores entusiastas do tema.

A história recente da cacauicultura brasileira, no entanto, revela um paradoxo.

A Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) nasceu em um contexto de crise profunda no sul da Bahia. A região produzia cerca de 400 mil toneladas por ano, mas acumulava uma dívida gigantesca com o Banco do Brasil, considerada impagável. Diante do cenário, a direção da instituição financeira decidiu investigar.

O diagnóstico surpreendeu: não havia má-fé, tampouco calote deliberado. Havia, sobretudo, falta de conhecimento técnico.

Foi essa constatação que levou à criação da Ceplac, concebida como um órgão de assistência técnica e pesquisa, capaz de orientar produtores, elevar produtividade e estruturar uma cadeia mais eficiente.

Décadas depois, no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, uma nova crise atingiu a cacauicultura: a praga da vassoura-de-bruxa devastou plantações inteiras, reduzindo drasticamente a produção nacional.

Mais uma vez, a resposta veio do conhecimento acumulado e, em grande medida, da Amazônia.

A Ceplac já mantinha atuação na região, com base em Belém, e havia desenvolvido um banco genético a partir de coletas realizadas em diversos pontos da floresta, incluindo Amazonas e Rondônia. Foi desse acervo que saíram as cepas mais resistentes, além das técnicas que ajudaram a conter a praga.

O levantamento do genoma amazônico foi decisivo para a recuperação da lavoura no sul da Bahia. Ainda assim, estima-se que apenas cerca de 25% do cacau nativo da Amazônia tenha sido efetivamente estudado.

Hoje, o cenário produtivo mudou. O sul da Bahia produz em torno de 100 mil toneladas por ano. O Pará alcançou patamar semelhante, em alguns momentos até superior. E o Amazonas, apesar de todo o potencial, segue como coadjuvante.

Parte dessa limitação decorre do esvaziamento institucional. A Ceplac, que já contou com cerca de 30 agrônomos atuando no Amazonas, hoje dispõe de apenas um profissional, retirado da aposentadoria, exercendo funções essencialmente burocráticas.

Ainda assim, iniciativas relevantes começam a surgir.

A Na’kau, Chocolate Amazônico, sediada em Manaus, trabalha com cacau de várzea oriundo de comunidades extrativistas do rio Madeira e de Municípios como Urucurituba, Borba e Nova Olinda do Norte. Empresas como Amazon Cacau e Meridian Cacau figuram entre as maiores do Estado no setor. A produção de base se espalha por Municípios como Coari, Manicoré, Apuí e Urucurituba, com apoio do Idam.

Há também experiências como a Cacau Nativo do Purus, envolvendo extrativistas de Boca do Acre e Pauini, e iniciativas emergentes como a Warabu Chocolates, ainda em incubação, mas já produzindo chocolates finos de alto padrão.

O que existe, portanto, é uma base. O que falta é escala, integração e decisão política.

O cacau amazônico possui características únicas, entre elas a maior resistência ao calor, fator decisivo para o transporte e armazenamento do chocolate em escala global. Essa qualidade faz com que amêndoas da região sejam utilizadas por indústrias de países como Suíça e Bélgica, referências mundiais no setor.

A contradição é evidente: a Amazônia participa da produção dos melhores chocolates do mundo, mas permanece invisível na etapa de maior valor agregado.

A pergunta, inevitável, persiste: por quê?

Por que não transformar essa vantagem natural em uma política estruturada de industrialização? Por que não atrair fábricas internacionais ou fomentar marcas regionais capazes de competir em nichos premium? Por que manter a lógica de exportação de matéria-prima, quando o processamento local poderia multiplicar renda, emprego e arrecadação?

O potencial é inequívoco. A base técnica existe. O mercado demanda.

Falta decisão.

Investir na cacauicultura amazônica não é apenas uma escolha econômica. É uma estratégia de desenvolvimento sustentável, capaz de gerar renda para populações ribeirinhas e extrativistas, reduzir pressões sobre a floresta e inserir a região em cadeias globais de valor de forma mais justa.

Quando você toma, portanto, um chocolate dos melhores do mundo, seja belga ou suíço, saiba que ali tem um pedaço da Amazônia, seja pela biopirataria, genoma ou exportação regular. Tome com orgulho. É produto do sangue, suor e lágrimas do caboclo.

O Amazonas não pode continuar sendo apenas fornecedor. Tem todas as condições de ser protagonista. E o cacau é um dos caminhos mais claros para isso.

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