A escalada de tensões envolvendo o Irã recoloca o petróleo no centro do tabuleiro geopolítico global. No entanto, enquanto os olhos do mundo permanecem voltados para os combustíveis fósseis, uma transformação estrutural avança em ritmo acelerado: a substituição progressiva dessas fontes por tecnologias baseadas em eletrificação.
Nesse contexto, os veículos elétricos deixaram de ser tendência e passaram a representar uma nova fronteira industrial. O reflexo já pode ser observado em mercados locais, como em Manaus, onde montadoras desse segmento apresentam desempenho superior às tradicionais.
O elemento central dessa transição não é o veículo em si, mas sua base tecnológica: as baterias e os sistemas magnéticos de alta eficiência, dependentes de minerais conhecidos como terras raras.
Entre esses elementos, destacam-se neodímio e praseodímio, fundamentais para a produção de ímãs permanentes de alto desempenho, além de disprósio e térbio, que garantem estabilidade em condições extremas de temperatura. Esses componentes são indispensáveis não apenas para a mobilidade elétrica, mas também para turbinas eólicas, robótica, drones e equipamentos de climatização de alta eficiência, além de aplicações críticas nas áreas de defesa, energia nuclear, semicondutores e indústria aeroespacial.
A relevância estratégica desses minerais é evidenciada pela recente aquisição do Grupo Serra Verde, responsável pela mina Pela Ema, em Goiás, por uma empresa norte-americana com apoio do governo dos Estados Unidos. Trata-se da única operação fora da China capaz de produzir, em escala, os quatro elementos considerados críticos.
A China, que detém cerca de 90% da produção global de terras raras, construiu ao longo de décadas uma posição dominante nesse setor. A movimentação norte-americana busca reduzir essa dependência, reorganizando cadeias produtivas e garantindo acesso a insumos estratégicos.
Nesse rearranjo, o Brasil ocupa posição paradoxal. Detentor de vastas reservas minerais, incluindo a mina do Pitinga, no Amazonas, o País permanece restrito ao papel de fornecedor de matéria-prima, sem avançar na industrialização e no domínio tecnológico associado a esses recursos.
O resultado é a repetição de um padrão histórico: exportação de insumos básicos e importação de produtos de alto valor agregado. A riqueza gerada ao longo da cadeia produtiva — empregos qualificados, inovação, desenvolvimento industrial — concentra-se fora do território nacional.
A ausência de uma política consistente de investimento em ciência, tecnologia e inovação agrava esse quadro. Cortes orçamentários, descontinuidade de programas e falta de planejamento estratégico comprometem a capacidade do País de participar de forma competitiva na economia do futuro.
As terras raras representam, na prática, o novo eixo de poder global. Funcionam como insumo essencial para a transição energética e para o avanço tecnológico em setores-chave.
Persistir na condição de mero exportador desses recursos equivale a abdicar de protagonismo em um momento decisivo da história econômica contemporânea.
O Brasil dispõe dos ativos necessários para alterar essa trajetória. O que falta é decisão política, visão de longo prazo e compromisso com o desenvolvimento científico e tecnológico.
Sem isso, continuará a assistir, da periferia, à consolidação de uma nova ordem global baseada exatamente nos recursos que possui em abundância. Em outras palavras, o “Deitado eternamente em berço esplêndido”, com profundo significado histórico e poético no Hino Nacional, acaba sendo traduzido por indolência ou inaptidão para o desenvolvimento.
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