07/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Apoio de Renato Junior a Braga traz lições de grande política

Publicado em 07 de agosto, 2026

O apoio de Renato Jr a Braga

Prefeito Renato Jr. embarcou na canoa de Eduardo Braga com apoio explícito e de todo o grupo político. Charge feita por IA

O apoio de Renato Junior a Eduardo Braga caiu como uma bomba na política amazonense. O prefeito de Manaus entrou de cabeça na campanha pela reeleição do senador. Os dois, porém, estão em palanques diferentes na disputa pelo Governo do Amazonas. Renato Junior apoia David Almeida. Braga integra a aliança de Omar Aziz.

Em condições normais de vento e temperatura política, o prefeito seria a “noiva” cortejada longamente pelo senador. Não foi o que aconteceu. A solução veio rápida, pública e incisiva. Renato não anunciou apenas um voto. Prometeu ir às ruas e aos bairros para defender Braga.

O gesto também não foi solitário. Abdala Fraxe, Sabá Reis, David Reis e vereadores da base referendaram a decisão. O grupo municipal fechou posição.

É aí que aparece a primeira lição. Braga aprendeu a travar a “guerra com a espada embainhada’, lição de Sun Tzu.

Na grande política, nem toda vitória nasce do confronto. Algumas são construídas com presença, resultados, pontes abertas e adversários que não viram inimigos.

 

O aviso de 2018

A eleição deste ano revelará o peso desse método. Também mostrará a diferença entre trabalhar o mandato inteiro e despertar apenas na reta final.

Braga recebeu um aviso severo em 2018. Foi reeleito na segunda vaga, com 607.286 votos. Luiz Castro teve 581.553. A diferença foi de apenas 25.733 votos. Plínio Valério conquistou a primeira vaga, com folgados 834.809 votos.

Luiz Castro tinha estrutura política e eleitoral muito menor. Mesmo assim, chegou a ameaçar a sobrevivência do mandato de Braga durante a apuração.

Braga entendeu o recado. Arregaçou as mangas e passou os anos seguintes percorrendo municípios, negociando projetos e destinando recursos. É difícil encontrar prefeito do interior que não tenha recebido sua visita ou discutido emendas com o senador. Essa capilaridade não surge em três meses. Ela é construída devagar. Prefeito procura Brasília quando precisa de recursos, projetos e portas abertas nos ministérios.

Em Brasília, Braga suplantou líderes históricos do MDB e se tornou líder e senador mais relevante da bancada. A relatoria da Reforma Tributária está aí, como para colocar uma cereja nesse bolo. E a preservação dos incentivos fiscais da Zona Franca é a prova do olho aberto para o Amazonas.

 

Manaus como prova

O apoio de Renato Junior acrescentou a capital à blindagem política construída por Braga. E veio sem a exigência de adesão a Omar Aziz. O prefeito manteve David Almeida como candidato ao Governo. Braga, por sua vez, preservou o próprio palanque. Os interesses convergiram na disputa pelo Senado.

Essa separação revela maturidade. Política não precisa ser pacote fechado, no qual eleitor e lideranças recebem uma chapa pronta.

Renato justificou a escolha pela capacidade de articulação de Braga em Brasília. Também destacou os resultados obtidos para Manaus. Segundo o senador, sua atuação viabilizou R$ 2,7 bilhões para a capital. O valor reúne emendas, recursos federais e projetos.

É uma quantia equivalente a quase um quarto do orçamento de R$ 12 bilhões de Manaus em 2026. Há obras de contenção de encostas, pavimentação, habitação e outros investimentos. O número explica parte da rapidez do acordo.

Na política, discurso abre a conversa. Entrega concreta costuma fechar o apoio.

 

O contraste com Plínio

Plínio Valério, o outro senador com mandato em disputa, adotou caminho diferente. Passou os primeiros seis anos sem construir capilaridade comparável no interior.

Nos dois anos finais, como quem desperta de um sonho encantado, encontrou no bolsonarismo raiz sua principal bandeira e plataforma.

Investiu pesado nessa identidade. Convenceu uma parcela expressiva do eleitorado. Entre seguidores mais entusiasmados, virou “o melhor senador do Brasil”.

O problema das bolhas políticas é confundir aplauso com maioria. Militância barulhenta ajuda, mas não substitui alianças, presença municipal e entrega.

Plínio também rompeu a ponte com Arthur Virgílio. O ex-prefeito comandava a estrutura tucana que sustentou sua ascensão eleitoral em 2018.

Em 2022, Plínio assumiu o PSDB amazonense, após a destituição de Arthur, que deixou o partido. O episódio reduziu o campo de alianças do senador.

Com Omar Aziz, apoiador importante em 2018, a relação institucional sobreviveu aos afastamentos políticos. Senadores sabem que Brasília exige diálogo até entre adversários.

Braga fez o movimento inverso. Em vez de diminuir a mesa, ampliou o número de cadeiras ao redor dela.

 

A fotografia das pesquisas

As pesquisas ajudam a medir o efeito dessas escolhas. Elas não encerram a eleição, mas mostram o terreno onde cada candidatura começa a caminhar.

Levantamentos da Action e da Projeta, divulgados em julho, colocaram Braga na liderança. Alberto Neto e Wilson Lima apareceram na disputa pela segunda vaga. Na pesquisa Action, Braga teve 28%. Alberto Neto marcou 19%, Wilson Lima, 15%, e Plínio, 11%. Na Projeta, Braga alcançou 25,3% e manteve a dianteira estadual. Plínio voltou a aparecer atrás dos três concorrentes.

São fotografias do momento, não escritura das urnas. Campanha eleitoral muda cenários, produz erros e derruba favoritos.

Braga sabe disso porque quase viveu o revés em 2018. Plínio também deveria saber, pois venceu quando os levantamentos não o apontavam como favorito.

O que emergirá das urnas dependerá do suor derramado até a votação. Dependerá também da capacidade de sair da própria bolha.

Confiar apenas na fidelidade quase religiosa do bolsonarismo raiz pode ser confortável. Eleição majoritária, porém, exige convencer quem ainda não está convertido.

O apoio de Renato Junior oferece uma lição que vai além de Braga. Mandato não é intervalo entre duas campanhas. É quando o político acumula razões para ser lembrado na eleição seguinte. Quem planta presença colhe resistência ao assédio eleitoral.

Outra lição está na liberdade das alianças. Renato pode votar em Braga para o Senado e apoiar David Almeida para o Governo. Isso não é incoerência automática. Pode ser a escolha de quem separa projetos, cargos e resultados.

A grande política nasce quando o diálogo vence a obrigação de destruir adversários. Mas ela perde grandeza quando articulação vira acomodação ou culto pessoal.

Por isso, a sociedade não pode terceirizar completamente suas escolhas a prefeitos, partidos, igrejas, influenciadores ou lideranças nacionais.

Max Weber escreveu que “a política é como a perfuração lenta de tábuas duras. Exige tanto paixão como perspectiva”.

Braga parece ter entendido o valor da persistência. Plínio aposta na força da convicção. Aos eleitores cabe medir trabalho, resultado, alianças e responsabilidade.

A democracia não se vigia apenas no dia do voto. A cidadania alerta fiscaliza mandatos, confronta promessas e impede que a devoção substitua o julgamento.

Assuntos relacionados:

Eduardo Braga, Renato Junior, Senado 2026, Eleições 2026, Manaus, Plínio Valério, editorial

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