O Brasil tem o hábito de tratar seus visionários como excêntricos, até que o tempo se encarregue de lhes dar razão. Assis Chateaubriand, o Chatô, foi um desses personagens. Descrito com maestria no livro de Fernando Morais, Chatô era dono de uma capacidade rara de antever necessidades estruturais. Forçou a criação de um dos mais importantes acervos de arte do mundo, com o Masp. Implantou a televisão, com a TV Tupi. E, num gesto que à época parecia despropositado, decidiu que o País precisava formar pilotos e saiu criando aeroclubes em diversas regiões.
Em Manaus, essa iniciativa ganhou forma em 1940, com a fundação do Aeroclube do Amazonas, em parceria com o então governador Álvaro Maia. Ao longo de décadas, a instituição formou mais de 2 mil pilotos e inúmeros paraquedistas, consolidando-se como peça relevante da história da aviação brasileira e, sobretudo, da integração regional amazônica.
O problema é que o tempo — o mesmo que consagra — também impõe mudanças.
O Aeroclube de Manaus está hoje inserido em uma área densamente urbanizada, cercada por vias de intenso fluxo, como as avenidas Torquato Tapajós, Constantino Nery, Djalma Batista e Recife, além do Bairro União. O crescimento da cidade engoliu o espaço que, um dia, era periférico e adequado à atividade aérea. O que antes era solução tornou-se risco.
Os episódios recentes deixam essa realidade evidente. No dia 21, uma falha de motor provocou a queda de uma aeronave, resultando na morte de um piloto e de um aluno em formação. Poucos dias depois, outra aeronave saiu da pista durante uma chuva e parou em área de mata. Desta vez, sem vítimas fatais, mas com o alerta reforçado.
Não se trata de fatalismo, mas de probabilidade. Em uma área urbana densa, qualquer incidente aéreo amplia exponencialmente o potencial de danos. O risco não está restrito a pilotos e alunos. Alcança moradores, comerciantes e milhares de motoristas que circulam diariamente por um dos eixos mais movimentados da cidade.
Há, ainda, um conjunto de questões estruturais que agravam o cenário. A área ocupada pelo aeroclube é reivindicada pela União e pela Infraero, sob a alegação de se tratar de propriedade federal. Paralelamente, a concessão do aeroporto internacional Eduardo Gomes elevou substancialmente os custos operacionais, inviabilizando o uso por parte de pequenas empresas de aviação regional.
Nesse contexto, o aeroclube passou a cumprir uma função que vai além da formação de pilotos. Tornou-se ponto de apoio para a aviação que conecta Manaus aos municípios mais isolados do Amazonas, onde a alternativa, muitas vezes, é o transporte fluvial, em viagens que podem durar dias ou até semanas.
O dilema, portanto, não é simples. O Aeroclube do Amazonas reúne dimensões históricas, sociais, econômicas e logísticas. Extinguí-lo seria um erro. Mantê-lo onde está, nas condições atuais, é uma imprudência.
A solução é evidente, embora politicamente exigente: transferi-lo.
A mudança para uma área mais adequada, com menor densidade urbana e melhores condições operacionais, precisa ser tratada como prioridade. Isso deve vir acompanhado de planejamento integrado entre os entes públicos e de um modelo que preserve sua função estratégica para a aviação regional.
Não menos importante é a necessidade de uma fiscalização rigorosa, permanente e técnica. Não há espaço para improviso, flexibilizações indevidas ou concessões informais em uma atividade que, por natureza, envolve risco elevado.
Manaus não pode naturalizar acidentes. Não pode conviver com a ideia de que tragédias são parte do cotidiano. A cidade cresceu e suas estruturas precisam acompanhar essa transformação.
Preservar o legado do Aeroclube do Amazonas é um dever. Mas proteger vidas é uma obrigação que se sobrepõe até mesmo à memória.
Entre a nostalgia, a necessidade e a responsabilidade, a escolha é óbvia e já deveria ter sido feita.
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