14/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Paulinho Faria, o menino de ouro do Garantido, do Sul América, de Parintins

Publicado em 11 de junho, 2020

Paulinho Faria

Paulinho Faria (esquerda) e eu, apresentando o Peladão, na avenida Eduardo Ribeiro, em Manaus (1982?). Umberto Calderaro era fã de carteirinha dele

Paulinho Faria, que este ano completa 61 anos, é o eterno “menino de ouro” do Bumbá Garantido, como foi batizado pelo radialista Edu Costa. Mas não é so do vermelho e branco. Também é do futebol, como torcedor e ex-presidente do Sul América, e de Parintins, de uma forma geral, depois de ter animado gerações da Ilha Tupinambarana. É um personagem icônico, neste momento em que a festa vive a incerteza provocada pela pandemia de coronavírus.

O Festival de Parintins pode ser dividido entre antes e depois de Paulinho Faria. A família, que torcia, incentivava e ajudava, mas mantinha certa distância, se viu no centro do boi quando o menino, que aos 13 anos começou no rádio, virou apresentador do Garantido, em 1975. A irmã, Graça, cuidava dos itens individuais. Antônio e Omir trabalhavam na estrutura cultural. Zezinho foi presidente. O pai, o empresário João Pedro Faria, o JP, financiava, cedia armazéns, liderava os filhos. A mãe, Maria Ângela Faria, é a eterna “Madrinha do Garantido”.

Foram 26 anos à frente do item, com 24 vitórias. Na única derrota, ele perdeu de 10 a 0, as três noites, o que, por si só, desqualifica o resultado. No empate, em 1987, eu estava apresentando do outro lado e não tive dúvidas em declarar, na ocasião: “É o máximo que se pode conseguir contra ele”.

 

Voz marcante e sucessos

Paulinho, nos últimos anos, não precisava nem falar. Bastava levantar o microfone e a torcida entrava em transe. Os rivais também o chamavam de “grilo”, por ser muito magro e dono de voz aguda e penetrante. Os levantadores tinham dificuldade em acompanhá-lo quando, sem harmonia, só na percussão, feita por treme-terras e caixinhas, “tirava” a toada num tom muito alto.

Foi assim, inteiramente no gogó, que Paulinho criou sucessos imortais. É o caso de “Quando eu chegar pra brincar”, de Braulino, que, anos depois, seria o autor de “Tic-Tic-Tac”, maior sucesso internacional dos bumbás, com o Grupo Carrapicho.

O radialista-apresentador impulsionou o Festival de Parintins à base de rivalidades. Primeiro, contra Armando Carvalho, talentoso apresentador do Caprichoso. Depois contra Zé Maria Pinheiro. O rival tinha um serviço de som e ele criou um para a empresa do pai, a famosa picape amarela, pretexto para usá-lo no Garantido. Zé Maria, para completar, torcia pelo clube de futebol Amazonas, adversário histórico do “azulão”. Então, de janeiro a janeiro, fosse no futebol ou no festival, os dois saiam pelas ruas se digladiando.

 

Boi do Povão x Boi da Sociedade

Zé Maria, vendo muitas meninas bonitas da cidade optando pelo Caprichoso, resolveu mexer com o rival dizendo que era “O boi da sociedade”. Paulinho não teve dúvida: “O Garantido é o Boi do Povão”. A história existe até hoje. Muito novato na área vê ligação com o momento atual, mas Garantido e Caprichoso recebem, rigorosamente, o mesmo valor de patrocínio para as apresentações.

Paulinho Faria começou a se despedir em 1994. Estava numa festa, comemorando a conquista da Copa do Mundo pelo Brasil, quando um foguete estourou muito perto de seu ouvido. Depois, em outro evento, com Arlindo Jr., outro foguete, outra agressão violenta.

 

Israel Paulain e David Assayag

A perda de audição, irreversível, o fez preparar o terreno para a saída. Trouxe dois nomes para, juntos, fazerem o que ele fazia sozinho, cantando e apresentando: Israel Paulaim e David Assayag.

David, vozeirão e conhecimento técnico de voz, mexia no tom das músicas e acompanhava Paulinho. Foi beneficiado também pela chegada da harmonia à Batucada, o ritmo do Garantido, como à Marujada, do Caprichoso.

Israel, desde menino “tomado” do casal Carlos e Regina Paulain, até hoje torcedores fanáticos do Caprichoso, era “mascote” de Paulinho. Depois, vendo a aposentadoria chegar, o apresentador o levava para casa e ensinava os “truques” da apresentação.

Em 2001, numa noite de lágrimas, dele e da torcida, veio a despedida.

Fim? Nada disso. Paulinho é um repositório do verdadeiro espírito do Festival de Parintins: paixão desmedida, entrega incondicional e talento, a serviço da tradição.

“O cara”, capaz de qualquer coisa pelo Garantido, também fazia concessões. Em 1987, depois da vitória do Caprichoso e de meu empate com ele, no item, Fred Góes fez uma foto, no canteiro central da Avenida Amazonas, em frente ao Colégio Estadual, e publicou no jornal “O Parintins”, com a seguinte legenda: “O que será que conversam os apresentadores de Garantido e Caprichoso, Paulinho Faria e Marcos Santos?”.

Fred, 33 anos depois, aí vai o diálogo:

Paulinho – Parabéns. Você mereceu. Eu sempre disse que o Caprichoso devia te colocar como apresentador.

Eu – Obrigado. Foi um sufoco.

Paulinho – Já estava até meio desmotivado, mas agora vou dar mais um pouco pro ano que vem. Te prepara (risos).

Fomos colegas de aula, formamos na banda marcial do Colégio Batista, trabalhamos juntos na Rádio Alvorada, fui o “Lombardi” no programa de auditório dele e quase, por muito pouco, não virei co-apresentador do Garantido. Se não fosse meu irmão, Rubem dos Santos, me arrastar pelas orelhas do “curralzinho” da Baixa, na noite em que ele iria me apresentar (“Você é sobrinho de Luiz Gonzaga, moleque??‍♂️”)…

Paulinho Faria é a história viva da formação de público do Festival de Parintins. Dono de enorme sensibilidade, vontade férrea e fino gosto estético é um dos artistas mais completos de todos os tempos da Ilha. Vida longa ao Menino de Ouro.

 

PS: Este texto foi produzido, originalmente, para o perfil @histórias do meu Boi Bumbá, criado por Dalva Andrade no FaceBook e no Instagram. Ficou porrudo demais, mas ela ainda dará um jeito de aproveitá-lo por lá.

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