
O cabocla já navega com rabeta elétrica, uma revolução que demorou, mas agora é realidade
Em 20 de janeiro de 2019, no editorial “Motor elétrico defende Amazônia, do caboclo aos rios. Que tal começar pela rabeta e eliminar o pei-pei-pei?”, este portal apontava um caminho óbvio, inevitável, mas que precisava de coragem para ser acelerado. Sugeríamos que algum dos institutos de tecnologia instalados em Manaus apostasse na construção de rabetas e motores de popa elétricos.
Quatro anos depois, em 28 de março de 2023, no editorial “Rabeta e motor de popas elétricos, um alívio na atribulada vida ribeirinha”, arriscamos até um apelo ao “espírito amazônico” de Elon Musk, numa tentativa de provocar o futuro.
Pois o futuro chegou.
E ele desembarcou silencioso.
Na sexta-feira (14/11), a Livoltek e o Instituto Somar da Amazônia, no Projeto Pixundé — nome inspirado no poraquê, o peixe elétrico — entregaram rabetas elétricas a 60 ribeirinhos do Careiro da Várzea. E, com isso, deram um passo histórico.
Confesso: o coração quase explode de alegria.
Cresci vendo meu pai, pescador até os 85 anos, remar 15 ou 20 dias para alcançar os lagos mais piscosos. Mais tarde, como pescador esportivo, acompanhei de perto o martírio dos ribeirinhos em busca de gasolina. A rotina absurda: viajar horas, pagar caro, armazenar combustível em garrafas PET — um perigo ambulante.
A chegada da rabeta elétrica encerra essa agonia.
Dói menos no bolso e dói menos na vida.
Nos raros pontos de abastecimento, um litro de gasolina custa R$ 10. E desaparece rápido: evapora, perde qualidade, vira risco.
Uma revolução anunciada — mas que demorou a acontecer.
O Amazonas tem história com a rabeta. Em 08/01/2013, registramos no editorial “Empresário Nathan Xavier de Albuquerque (…) teve a dimensão de IB Sabbá e JG de Araújo” uma descoberta fascinante: foi Nathan, pescador compulsivo, quem desenhou e mandou construir, no Japão, a primeira rabeta moderna.
Do remo à rabeta foi uma revolução.
Mas é curioso — a Ditadura Militar durou menos que essa travessia até a modernidade elétrica. Só agora, mais de meio século depois, o salto tecnológico finalmente alcança o caboclo.
E chega com silêncio.
Silêncio abençoado.
O barulho da rabeta a gasolina é literalmente ensurdecedor. Quem já viajou 1, 2 horas com aquele “pei-pei-pei” martelando os tímpanos sabe do que se fala. É provável que haja muitos ribeirinhos com perda auditiva, espalhados pelo beiradão, esperando apenas que uma universidade — pública ou privada — tenha a ousadia de transformar essa tragédia silenciosa em pesquisa. Isso dá mestrado, doutorado e mudança de vida.
O caboclo, porém, nunca se rende. Criativo, irreverente, teimoso por natureza, ele navega em pequenos “caixotes” de madeira que mal comportam uma pessoa. E acelera. Não é raro que lanchas modernas, com motores de alta potência, tomem couro dessa inventividade caboca.
Agora, essa criatividade encontra um aliado à altura: o motor elétrico.
O Portal buscou informações detalhadas sobre a rabeta elétrica distribuída no Careiro da Várzea:
Recarrega em tomada comum;
Leva duas horas para carga completa;
Autonomia de 4 horas em potência máxima e 6 horas em uso moderado;
As rabetas entregues têm 11 hp, equivalente aos modelos a gasolina;
Ruído zero: absolutamente silenciosa — como se comprova no vídeo ao final desta reportagem;
Preço estimado: R$ 22 mil, valor que tende a cair com a produção em escala, segundo o secretário estadual de Ciência e Tecnologia, Serafim Corrêa;
Os motores, hoje fabricados na China, serão produzidos em breve em Manaus, dentro do projeto de aprimoramento via feedback dos próprios ribeirinhos.
O Governo do Estado poderia — e deveria — mergulhar de cabeça nesse processo. Subsidiar rabetas elétricas para o caboclo não é gasto: é investimento. Gera escala industrial, reduz custos, dinamiza a economia e coloca dignidade no centro da vida ribeirinha.
Gasolina é volátil. É perigosa. É imprevisível. Uma semana armazenada e boa parte evapora. E os pontos de abastecimento são longe — às vezes horas de distância. O ribeirinho gasta mais combustível indo buscar gasolina do que no que consegue trazer para casa.
A rabeta elétrica resolve isso com um gesto simples:
uma tomada na parede.
A revolução mora aí.
A rabeta elétrica chegou.
E com ela chega um novo tempo para a Amazônia.
NOS VÍDEOS A SEGUIR, A RABETA TRADICIONAL E A ELÉTRICA EM AÇÃO:
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