
Motor elétrico defende Amazônia da poluição dos rios, diminui custos e melhora a mobilidade rural. A rabeta (foto) pode ser o começo da mudança da matriz de combustível dos rios amazônicos
Os carros já dispensam totalmente os combustíveis fósseis e vão rompendo obstáculos. A recarga, que durava horas, agora está reduzida a minutos. A autonomia, um problema diante do custo de construção dos postos de reabastecimento, está perto dos 500 quilômetros. A empresa norte-americana Tesla produz, além dos carros elétricos, painéis solares e soluções em armazenamento de energia. O principal diferencial do empreendimento é a redução do tempo de concretização dos projetos. Eis aí a fresta pela qual pode penetrar a qualidade de vida do caboclo, a partir da rabeta elétrica.
Nathan Xavier de Albuquerque e Geraldo Frota, sócios, donos de oficina mecânica especializada em motores náuticos, sonharam. Viram o sofrimento do caboclo, viajando a remo horas, dias, semanas, Amazônia afora. Criativo, Nathan desenhou e, no Japão, na fábrica da Honda, concretizou o projeto da rabeta. Agora chegou a hora de escapar de uma nova ditadura, econômico-ambiental-socialmente perversa: a da gasolina.
O caboclo sofre. O litro da gasolina, que varia nas cidades em torno dos R$ 4, fica perto dos R$ 7 para o ribeirinho. Antes, o caboclo remava 15, 20 dias para chegar aos lagos mais piscosos. Hoje, economiza o que não pode para pagar a gasolina e chegar mais rápido.
O caboclo vai dando jeito para tudo. Transporta a gasolina em garrafas plásticas, do tipo pets, armazenando o inflamável entre animais e crianças.
O programa Luz para Todos, enquanto isso, avançou pelo interior. As empresas contratadas pelo Governo Federal convocaram os caboclos. Diziam: “A energia chega até vocês em dois anos, se a gente fizer a transmissão, mas pode chegar em meses se vocês fizerem”. A cabocada se reuniu, estendeu postes e fiação, entre lagos e florestas, e fez o programa andar. Claro que os empreiteiros não pagaram nada por isso e cobraram como se fossem eles que tivessem feito.
O Luz para Todos virou um arranjo mal feito, em sistema que cai toda hora, transformando o fornecimento num vai-e-vem constante. As casas no beiradão são como árvore de Natal, no pisca-pisca da energia, à noite.
Esses problemas, porém, são perfeitamente corrigíveis. Basta melhorar o sistema de transmissão e as fontes de abastecimento. É só oferecer o melhor e não apenas o demagógico. O caboclo, se indagado, dirá que está satisfeitíssimo. Acostumado ao sofrimento, jamais imaginou que pudesse ter ar-condicionado, geladeira e TV, principalmente TV. Quem analisa friamente o sistema, porém, sabe que pode melhorar muito.
A energia do Luz para Todos, enfim, por precária que seja, está mais disponível – e barata – para o caboclo que a gasolina. Esta fica nos raros postos do beiradão. Ou em revendedores clandestinos, muitos dos quais, além de cobrar preço de atravessador, “batizam” o combustível.
O caboclo não pensa mais em voltar ao remo. Prefere arcar com o custo da gasolina e racionar cuidadosamente a própria mobilidade.

A rabeta, em pequenas canoas, é parte da vida do caboclo
A rabeta elétrica, abastecida na tomada, evitaria os problemas ambientais da gasolina. Protegeria a floresta e os rios. Melhoria a mobilidade rural. E seria o estopim para que a indústria percebesse o potencial econômico da mudança da matriz de combustível fluvial.
Teria que haver um sistema de conversão, que pudesse ir até o beiradão, para não perder o produto já existente. Depois viriam os motores de 15hp, 25, 40… até chegar aos recreios, os grandes barcos que movimentam quase 100% da carga que abastece o interior.
Os carros resolveram o problema do cheiro de combustível no interior, que era uma característica do Fusca. Mas quem viaja de recreio sabe o incômodo do cheiro do diesel e da poluição sonora do motor. Em muitos casos o pei-pei-pei beira o insuportável. O motor elétrico é absolutamente silencioso. São inúmeros os portos 100% poluídos pelo combustível no interior amazônico. Essas coisas, os motores elétricos eliminariam.
O mateiro, o caboclo lavrador, o índio, o ribeirinho, todos agradecem pelos que já estão sensibilizados pelo projeto. Inclua-se aí o novo superintendente da Suframa, coronel Alfredo Menezes. E vários funcionários do órgão e pesquisadores dos institutos que utilizam a verba de P&D da Zona Franca.
Uma rabeta custa, no mercado, em torno de R$ 1 mil. A adaptação ou o motor novo não pode se afastar muito disso. O Governo, em último recurso, poderia subsidiar a mudança.
A Tesla ou a General Motors (GM), que já têm carros elétricos rodando, funcionais, representariam atalhos. Elas detêm a tecnologia. Mas um olhar caboclo pode fazer a diferença, resolvendo a questão, vindo dos diversos institutos de tecnologia instalados em Manaus.
Que venha a rabeta e o recreio elétricos. Não há nada mais revolucionário de combate à poluição dos rios amazônicos que um projeto assim.
Veja o vídeo da rabeta em ação:
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