
50 anos de jornalismo, na foto, o dia do recebimento do título de Cidadão de Manaus, com mamãe (saudades), Marcos Neto, Elisa, Breno e Marcos Filho. Foto: Alfredo Albino
Com sua licença, o assunto exige ser tratado na primeira pessoa. Grato.
Dia 15 de janeiro de 1973, aos 12 anos, entrei para o quadro da Rádio Alvorada de Parintins. O “Cartão Amarelo”, que tinha espaço cedido à Prefeitura de Parintins, abriria as portas do Jornal do Commercio e da coluna de opinião que me atrevi a escrever. Depois, já em Manaus, Luís Rougles, narrador esportivo conhecido como “O moço do cronômetro”, me chamaria para o “Esporte em 4 tempos”, na TV Baré, estreia minha e da ex-deputada Conceição Sampaio. E lá se foram 50 anos.
Como tudo começou?
Havia “desafiado” Rubem dos Santos, meu irmão saudoso, radialista reconhecido, apresentador e depois presidente do Caprichoso. Poucas semanas antes, num impulso infanto-juvenil, fui até Zé Maria Pinheiro, dono da única “propaganda volante” da cidade, um fusquinha equipado com alto-falantes. “Sou irmão do Rubem e, também, quero fazer propaganda”. Ele deve ter ficado surpreso com a ousadia do pingo de gente, mas não contou conversa: “Tá bom, vamos tentar. Vou sair agora, quer ir? Pago R$ 12 (mais ou menos) por hora para os ‘tarimbados’ e, por enquanto, você recebe R$ 6. Vamos?”
Os “tarimbados”? Armando Carvalho, Paulinho Faria (saudoso), o próprio Rubem e Raimundo Pimentel. Todos craques, altíssimo nível.
A propaganda era da Casa Ideal, de Lico Mendes, vendedora de estivas e miudezas, varejo e atacado. Minha brincadeira de criança era como radialista. Improvisava “estúdios” cobertos com as toalhas da mesa de casa e escorados pelos cabos das vassouras. Meu pai passava semanas pescando (no remo) e minha mãe assistia àquela “papagaiada” na maior complacência.
Quando Zé Maria abriu o “bocar de ferro” mandei brasa: “Venha comprar a melhor mercadoria de Parintins na Casa Ideal. Arroz a tanto o quilo, feijão de praia, feijão carioca, feijão preto, tudo pelo menor preço!”. Pouco? Imagine tirar daí uma hora de propaganda no gogó e sem nem fundo musical. No seco. Pior (ou melhor?), o Lico gostou e pediu mais uma hora.
Faturei, naquelas duas horas, o equivalente a um dia inteiro como auxiliar de pedreiro do Nivaldo Batista ou mestre Luís Anselmo. Sim, o molequinho fez e carregou massa para construir as escolas onde estudou, o Brandão de Amorim e o Colégio Batista.
Rubem, após aquelas poucas semanas, como diretor de esportes da Alvorada, me chamou para a equipe. Consultou, para evitar a acusação de nepotismo, os outros integrantes, Raimundo Pimentel, Artêmio Guedes de Araújo (pai do Klinger Araújo) e Paulinho Faria. A vaga abriu, aliás, porque Paulinho queria ser narrador esportivo e abandonaria o plantão esportivo (aquele que dava o resultado da Loteria Esportiva). E assim foi.
Poucos meses depois, não mais que dois, o trabalho evoluiu, e comecei a transmitir futebol. Essa seria minha principal atividade, por décadas seguidas, e a razão de Luís Rougles me ter chamado para a Rádio Baré. E a gente se conheceu na cabine do estádio Tupy Cantanhede, transmitindo Nacional de Manaus X Sul América de Parintins, lado a lado.
Armando Carvalho me recebeu na família e com ele, esposa e filha fui morar.
Orlando Rebelo me acolheu na Rádio Rio Mar. Aí conheci o professor Erasmo Linhares, que me impediu de deixar a saudade me fazer voltar para Parintins e foi grande incentivo para passar no vestibular. E Arnaldo Santos, que me “adotou”, como afilhado, convidando-me, em 1986, para a Rádio Ajuricaba e a TV Ajuricaba (Globo).
Na TV, o jornalismo era comandado por Hermengarda Junqueira, que me faria editor de Esportes-fundador do jornal Amazonas em Tempo, criação dela e Marcílio Junqueira, em 03/09/1988.
A TV me fez o único editor-apresentador dos três níveis do Bom Dia, na Globo local: na Ajuricaba, Bom dia Manaus; na Rede Boas Novas (Manchete), que sucedeu a Ajuricaba, Bom Dia Amazonas; e, na Rede Amazônica, Bom Dia Amazônia.
Toda gratidão a Khaled e Sadie Hauache e seus filhos, Abdul e Khaled, e a Phelippe Daou. Gratidão a Ronaldo Tiradentes, com quem dividi a bancada, no “Manhã de notícias”, de 2006 a 2016.
Jornal? No Jornal do Commercio fui sub-editor de Esportes e diretor comercial (você não leu errado, não, a gente dança conforme a música?). No Em Tempo, editor de Esportes e de Cultura, depois diretor de Redação. Em A Crítica, editor de Geral, Polícia, Esportes, editor-executivo e diretor de Redação.
No jornal, além de Hermengarda, tenho que registrar a amizade pessoal com Umberto Calderaro Filho. Pena que o tempo não nos deixou escrever o livro resultante do papo nas madrugadas do Conjunto Celetramazon. E Sebastião Reis, amigo querido, falecido precocemente, com quem escrevi muito, a quatro mãos, e dividi a direção de A Crítica.
Preciso lembrar que, na política, fui duas vezes secretário municipal de Comunicação de Manaus pelas mãos de Arthur Virgílio Neto. Uma vida de uso do português como ferramenta e com ele aprendi sutilezas, até então, completamente desconhecidas. Com Arthur e seu vice, no primeiro mandato, Félix Valois, parceiro e amigo de muitas horas, que conhece a língua de Camões da raiz, no latim.
Agradecimento, também, a Reginaldo e Lucilene Pizzonia e Antônio Pizzonia, pelos cinco anos no mundo do automobilismo, cobrindo a carreira do Jungle Boy – e pela ajuda de Mário Cortez (Cortez, Câmbio e Turismo) e José Pereira da Silva (Drogarias Rio Sol), que patrocinaram as viagens, além da missão pessoal dada por Cristina Calderaro.
Gratidão a todos os vereadores da 16ª Legislatura que, por unanimidade dos seus 41 membros, me fizeram Cidadão de Manaus, a partir da indicação do vereador Massami Miki (aqui tem o vídeo do discurso).
A história pode ser maçante. Mas alguém precisava registrar, né? Ainda mais depois que, dia da morte do Rei do Futebol, procurei a entrevista EXCLUSIVA que fiz com o grande Pelé, no hotel da Vinci, em Manaus, para A Crítica, e ninguém achou (mas ainda vou achar).
O professor Ademir Ramos, da Ufam, resume muito no conselho que dava aos calouros: “Se não for para ajudar, criticar e apontar caminhos, para quê você quer ser jornalista?”
Cláudio Abramo, o grande reformador dos maiores jornais, dizia que “a ética do jornalista é como a do marceneiro: a notícia precisa permanecer de pé, assim como a cadeira”.
Contemplo, com uma ponta de orgulho e muita humildade, minha cadeira, de pé, após esses 50 anos. Numa palavra? Gratidão. Eterna.