06/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Jorge Teixeira e Zumbi, um bairro planejado e desvirtuado e outro construído pela irmã Helena, a mais atuante ‘urbanista’ da cidade

Publicado em 18 de maio, 2013

Ruas tortuosas, calçadas que mais parecem equipamentos para prova de obstáculos, casas que entram sem pudor no espaço público e vielas onde passa apenas um veículo por vez. Esta é a realidade da maioria dos bairros de Manaus. Só cinco, Aparecida, Praça 14, Cachoeirinha, São José 1 e Jorge Teixeira 1, além dos conjuntos habitacionais, foram construídos com algum planejamento. Os demais surgiram, no âmbito da formação do exército de mão-de-obra destinado a suprir as fábricas da Zona Franca de Manaus, como fruto da indústria da invasão, que teve como mais emblemática mentora a irmã Helena Augusta Walcott.

O Jorge Teixeira 1, como um dos bairros planejados, e o Zumbi dos Palmares, como fruto da ação da irmã Helena, são paradigmáticos da realidade manauara.

Cabe aqui um parênteses.

Olhando Manaus sob a perspectiva histórica e diante da realidade atual, ninguém poderá dizer, em sã consciência, que as invasões foram ou são benéficas. Elas tiram do poder público a capacidade de planejar, da população carente o combustível para exigir esse mesmo planejamento e da maior parcela dos habitantes qualquer traço de qualidade de vida.

Também não há dúvida de que a irmã Helena Augusta Walcott foi uma idealista social que se tornou, pela força das circunstâncias – uma cidade que cresceu, entre 1968 e 1990, quando ela atuava por aqui, de 200 mil para 1,6 milhão de habitantes – uma líder carismática e formadora de opinião e de uma legião de seguidores, alguns dos quais continuam atuando até hoje.

Como exigir dela que, a cada invasão – Crespo, nas barbas dos militares, Lagoa Azul, idem, Zumbi, enfrentando o conhecido grileiro Paulo Farias, Santo Agostinho, São Lucas, João Paulo etc. etc. etc. –, impusesse aos ocupantes e seus sucessores que construíssem casas com o devido recuo, deixando espaço para ruas e calçadas largas, delegacia, posto médico, escolas, creches e outros equipamentos públicos? Ela era líder social e não urbanista, embora tenha sido uma das principais responsáveis pela construção do traçado urbano da cidade – “urbanista”, portanto, com as aspas.

A verdade é que os políticos sempre pegaram carona com os líderes das invasões. Quem era “moderno” não podia negar apoio incondicional à irmã Helena. Raimundo Socorro, um dos seguidores mais conhecidos dela, chegou a se eleger entre os vereadores mais votados. Ai da polícia se ousasse executar uma reintegração de posse. Mandados judiciais eram solenemente ignorados pelos comandantes da Polícia Militar, que preferiam mil vezes a ameaça de processo por prevaricação que a patrulha da imprensa.

Um exemplo recente, pós irmã Helena, é o do terreno do ex-deputado federal e ex-prefeito de Parintins, já falecido, Carlinhos da Carbrás, no que ficou conhecido como Invasão da Carbrás e é o atual Parque São Pedro, com mais de 15 mil famílias. Era uma área murada, com preservação de mata nativa, nascentes e lago artificial, onde havia criatório com mais de 15 mil tambaquis e grande número de tartarugas e pirarucus. Um lugar paradisíaco, ideal para a construção de um parque natural que tanta falta faz a Manaus e, melhor, o proprietário tinha uma dívida com a Prefeitura e o INSS, relativa ao terreno e outras atividades empresariais, que justificaria a desapropriação do local para fins de uso público.

A desapropriação, efetivamente, usando como contrapartida essa mesma dívida, ocorreu a seguir, quando a invasão estava consolidada, feita pelo então prefeito Serafim Corrêa.

Havia, portanto, carência de habitações que justificavam a construção de alternativas por parte da administração municipal e, ao mesmo tempo, a oportunidade para criar equipamento público que transmitiria qualidade de vida e alternativa à eterna única – praia, balneário, calçadão, parque, anfiteatro, pista de corrida etc. etc. etc. – Ponta Negra. Como nada se fez, e pelo que nos dizem vários moradores, o Parque São Pedro se tornou um bolsão de mazelas, do tráfico de drogas à falta de urbanização, especialmente de saneamento urbano. O lago de águas límpidas se tornou ameaçador esgoto a céu aberto, como a denunciar o mal que faz a falta de visão, para dizer o mínimo.

Fecho o parênteses.

O Zumbi dos Palmares tem uma rua. Ela circunda o bairro inteiro, fazendo uma parábola que deve ter sido inspirada na lua minguante. Por ela circulam carros de lixo, ônibus, bombeiros, polícia e ambulâncias. O morador lucra mais quando corre até a Estrada do Aleixo e ali espera por uma condução.

O Jorge Teixeira 1 tem ruas largas. Foi um bairro construído, na primeira gestão do atual prefeito Arthur Virgílio, sem becos, com espaço para praças, indústria, comércio, delegacia, posto médico, creche, feira e todo o resto dos equipamentos públicos. Tinha um planejamento de calçadas largas. Chegou perto do ideal. Só que naquele tempo não havia reeleição e a conclusão da terraplanagem do bairro ocorreu praticamente na saída do prefeito. Os sucessores, coerentes com a mais estúpida mesquinhez política, acharam que fazer qualquer coisa ali era “colocar empada na azeitona do Arthur”. Resultado, as etapas 2, 3, 4 e as demais do bairro, inclusive com outros nomes, voltaram a ser fruto de invasões e a entrada da área planejada virou o Beco do Fuxico. E aí não precisa dizer mais nada.

O prefeito Arthur Virgílio tem, portanto, um papel didático a desempenhar. Se terminar o que iniciou no Jorge Teixeira 1, encontrando solução para o comércio entulhado no Beco do Fuxico, e remodelar o Zumbi dos Palmares, ele estará mostrando, na prática, que é possível sim modernizar Manaus e oferecer qualidade de vida aos seus habitantes.

Uma cidade no meio da Floresta Amazônica chega a 2 milhões de habitantes. Frankfurt, na Alemanha, maior centro financeiro da Europa Continental, âncora do transporte aéreo, quinta cidade alemã, considerada modelo no País, praticamente impecável, sob o ponto de vista urbanístico, diminuiu sua população urbana de 2,3 milhões, em 2010, para 700 mil, em 2012. Está na hora de começar a pensar algo assim para Manaus.

Isso transcende o jogo político. É educação para a cidadania. É uma necessidade.

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