
“A cor púrpura” se tornou um clássico do cinema
“A cor púrpura” é de 1985. Foi indicado ao Oscar em dez categorias e deu o Globo de Ouro de melhor atriz a uma espetacular Whoopi Goldberg. Parece muito tempo, mas, em plena pandemia de coronavírus, a tragédia humana ultrapassa limites e remexe a memória na busca de esperança. O drama de Celie (Desreta Jackson, jovem, e Whoopi, adulta), dirigido por Steven Spielberg, raspa o tacho da maldade humana. A música é linda, na trilha sonora de Quincy Jones, que explode na interpretação de Margareth Avery (Shug), em “Miss Celie’s Blues” (Quincy Jones, Rod Temperton e Lionel Richie).
O filme, disponível no Now, da Claro/Net, é, ao mesmo tempo, lição de sobrevivência e irresignação. Celie sobrevive ao pai, aos estupros e à perda dos filhos, logo após o nascimento. Sofre com as separações da irmã e encara a vida sob o prisma da sobrevivência.
São muitos temas correndo em paralelo. O fio de resistência no amor intrínseco e na incrível capacidade de Celie se adaptar aos cenários mais desfavoráveis. Tem, além do desempenho de Whoopi, a apresentadora Oprah Winfrey, na pele de Sofia, exemplo de rebeldia e submissão. E a escandalosamente livre Shug, esgrimindo o corpo, brincando com os homens e vivendo a música.
“Miss Celie’s Blues”, que tem no Youtube uma versão fantástica de Marjorie Estiano, é um capítulo à parte, dentro do filme. É o contraponto, o momento da virada na autoestima. ” So let me tell you somethin’ sister/ Remember your name/ No twister,/ gonna steal your stuff away” (“Deixe te dizer uma coisa, irmã/ Lembre-se do seu nome/ Nenhum furacão/ vai roubar suas coisas”).
Semelhanças? Sim. O sofrimento tem nuances. A pandemia, mais que o drama baseado no livro da escritora afro-americana Alice Walker, eviscera os sentimentos. A arte, em tempos obscurantistas e de isolamento social, consegue descortinar a amplitude da vida, dando ânimo para continuar, incentivando a esperança.
Quem não perdeu referências, em familiares ou amigos, que sucumbiram ao coronavírus? Como promover o futuro, num mundo de notícias trágicas a todo momento?
O drama de Celie é complexo. Foi tecido na Geórgia de Martin Luther King, cuja luta se tornou épica ao revelar os sonhos (“I have a dream”). Sonhar não custa nada. Celie soube fazê-lo, num universo sofrido e solitário, quando tudo parecia adverso. Saibamos, todos, olhar no além pandemia. E saiamos dela maiores e prontos para fazer valer a memória dos que se foram.
Veja a interpretação de Margaret Avery para “Miss Celie’s Blues”:
Veja Marjorie Estiano em “Miss Celie’s Blues”:
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