22/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Paulo Guedes acaba feriadão da bancada e tira sono do Amazonas com ameaça à ZFM. Omar, Braga e Marcelo reagem

Publicado em 18 de abril, 2019

Paulo Guedes

Paulo Guedes afirma que Zona Franca não precisa ser tocada e ameaça mexer na principal vantagem comparativa do modelo, a alíquota do IPI

O “superministro” da Economia, Paulo Guedes, acendeu o pavio curto outra vez. Agora, provocado insistentemente pela jornalista Miriam Leitão, na Globo News, deu outra resposta atravessada: “Eu tenho que deixar o Brasil bem ferrado, bem desarrumado, senão não tem vantagem para Manaus?”. Guedes falava de acabar com o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), o principal diferencial da Zona Franca de Manaus. Pronto! Acabou o feriadão da bancada e o sono dos amazonenses.

 

Reações

O senador Omar Aziz convocou reunião para depois da Páscoa, no começo da semana que vem. Ele é o coordenador da bancada de oito deputados federais e três senadores do Amazonas.

O senador Eduardo Braga desafiou o ministro para um debate aberto sobre a Zona Franca. Braga reproduziu no Twitter discurso, dele próprio, alertando sobre o fim do acordo binacional Brasil-Paraguai. Com 50% da energia de Itaipu, o país vizinho poderá fazer Zona Franca. E a 800 quilômetros do maior mercado consumidor do Brasil, que é São Paulo.

O deputado federal Marcelo Ramos, que tem feito oposição severa ao governo Bolsonaro, foi mais duro: “Paulo Guedes disse o que muitos no governo querem dizer e não têm coragem. Toda reunião que a bancada tem com esse governo, eles dizem que ‘ninguém mexe na Zona Franca’. Eu alerto que não precisa mexer. Basta tirar as vantagens comparativas (como a alíquota do IPI) e a Zona Franca acaba”, ressaltou.

 

Novo capítulo de ‘salvamento’

Em suma, o Amazonas assiste a mais um capítulo da novela “o Brasil contra nós e nós contra o Brasil”. Ou “todos a Brasília, em caravana, para defender a Zona Franca de Manaus”. Políticos adoram isso. Vão para as luzes da ribalta.

A realidade é mais dura. Fica mais uma vez patente que o tempo para criar alternativas acabou. E, portanto, há necessidade de usar todo o tempo possível, o que houver de sobrevivência da Zona Franca, para buscar caminhos.

Muda a indústria, com a chegada do boom 4.0, por exemplo, e a Zona Franca naufraga. Mexem numa alíquota federal, como o IPI, e perde-se milhares de empregos. O imposto baixou de 22% para 4%, subiu para 12% e voltará a 4% em breve. Foi aí que o Polo de Concentrados baqueou e ameaça virar fumaça, já tendo perdido a Pepsi-Cola.

 

Inabilidade

É digna de registro, ao mesmo tempo, a inabilidade política de Paulo Guedes. Dono de enorme responsabilidade e depositário do suporte econômico do governo Bolsonaro, ele é autoridade indutora. O que diz, repercute. Depois de juras de amor à ZFM, diante da bancada federal, governador e prefeito, agora afirma descompromisso com o modelo.

O ministro, com seu jeito atabalhoado, joga uma ducha de água no otimismo injetado pelo superintendente da Suframa, coronel Menezes. Afilhado de casamento de Bolsonaro, ele vem levantando o moral do empresariado e do funcionalismo. A Coca-Cola, por exemplo, embora se recuse a confirmar, quer segurança jurídica ou também deixa Manaus. E as decisões da multinacional, depois de tomadas, são definitivas. Não tem choro, não tem vela. Tem a dureza dos cerca de 10 mil empregos diretos perdidos. Esses estão quase chegando ao ponto da música regional – o carregado de licença poética “bateu asa e avoou”. A gigante do refrigerante, que começava a se animar, pode desanimar novamente.

 

Débâcle

A Zona Franca de Manaus é um modelo que está por um fio. O Brasil nunca se preocupou com a Floresta Amazônica. Só se defende o maior patrimônio ambiental da humanidade quando cogitam a internacionalização.

O Amazonas já viveu o fim de um boom econômico. Na débâcle da Belle Époque, com o fim do Período Áureo da Borracha, Manaus virou cidade fantasma. As ruas se encheram de mendigos. Havia, então, uma natureza pródiga, com os rios derramando pescado e as matas caça abundante. A população passava pouco dos 100 mil habitantes.

Hoje, os recursos naturais começam a escassear. A população manauara ultrapassa 2 milhões de habitantes. O corte de 50% dos empregos da Zona Franca gerou imediato aumento da insegurança. Houve impacto na saúde (trabalhador da ZFM tem plano privado de saúde). A demanda sobre o transporte coletivo aumentou, já que as indústrias apanham e levam de volta o trabalhador perto de casa.

 

Voz firme e grossa

Paulo Guedes não sabe o tamanho da bronca que uma declaração irresponsável sobre Zona Franca pode provocar. Deve estar buscando um pretexto para deixar o governo, quando peita declarações do presidente sobre o modelo de desenvolvimento regional. Cabe aos amazonenses com representatividade falar pelo Amazonas. Grosso. Firme. Exigindo urgência em decisões. Cutucando a burocracia burra, que impede expansão ou estabelecimento de indústrias em Manaus.

A imprensa não tem mesmo que dar paz a deputados, senadores e demais autoridades. Dane-se o feriadão.

O superministro rompeu a trégua. Deu um tacada que ofereceu razão até ao xiitismo petista. Governantes brasileiros já deveriam saber que o Brasil aprendeu a não depender deles. Collor, Lula, Dilma, Michel Temer e até o paroquial José Melo sabem bem disso. Brasileiro não desiste. Nada de “ou o Brasil protege o Amazonas ou o que o Amazonas está fazendo no Brasil?” A hora é de patriotismo. Real e imediato.

A Zona Franca de Manaus é patrimônio nacional. Só falta o Amazonas dizer, planejada e didaticamente, o futuro que pretende construir com ela.

Veja mais notícias em Opinião

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.