Se todos os mandatos e manutenção deles, obtidos com a famosa “defesa da Zona Franca”, fossem contabilizados como recursos para o povo do Amazonas, o Estado seria disparado o mais rico do Brasil. Em A Crítica, a gente até brincava, com os colegas que iam cobrir uma nova caravana, em Brasília: “Lá vai a Vera Lúcia, nossa guerreira da defesa da Zona Franca”.
O único político que fez autocrítica em relação ao modelo foi Amazonino Mendes. Ele disse: “Usamos muito mal o dinheiro que o resto do Brasil nos oferece, via renúncia fiscal, na Zona Franca de Manaus, desde 1968”.
Certo que Amazonino falava no contexto de uma das suas recentes turras com o ex-governador e hoje senador Eduardo Braga. Calculou (mal, acho) que como o atual adversário terminava oito anos como governador, sobre ele recairia a maior parcela de culpa, diante da opinião pública.
Reparo feito, Amazonino tem razão.
É inadmissível, para começar, que os poucos impostos arrecadados pela Suframa sejam confiscados, a título de superávit primário, pelo Governo Federal. Ao mesmo tempo, os lobistas de todas as latitudes abrem o peito e dizem que o Amazonas é um grande paraíso fiscal! Com o Tesouro Nacional metendo a mão desse jeito, impiedosamente, o Estado perde um bilhãozinho daqui, outro dali, que daria para fazer uma ponte aqui, outra acolá.
Verdade é que a Suframa é uma instituição híbrida. Cercada de escândalos – teve até incêndio, que levou justamente os documentos que a Polícia Federal precisava ter em mãos para trancafiar os ladrões de plantão – a instituição é um feudo dos governadores amazonenses. Basta ver como Omar Aziz foi decisivo na nomeação do atual, Thomaz Nogueira, que, aliás, também tinha o apoio do ex-governador Eduardo Braga.
Qual é o objetivo da Zona Franca? Aumentar os lucros das multinacionais? Não. Oferecer ao Amazonas os recursos básicos para o seu desenvolvimento. A cada bilhão de dólares que Philco, Samsung, Honda ou LG mandassem para o exterior ficaria no Estado uma parte para ser aplicado em saneamento básico e infraestrutura. Não deu. E eu provo: nem o asfaltamento do distrito industrial ficou de pé.
A profecia, que muito governista fez, quando ainda era comunista – ou antes de se tornar comunista-governista – de que um dia todas as fábricas levantariam acampamento e deixariam o Amazonas de pires na mão, não se realizou pela via esperada. Talvez venha por outro viés, que antigos “companheiros” dirão tratar-se de “contradição do capitalismo”: o avanço tecnológico. Mas essa profecia só se realizará se o Amazonas não correr para superar a Era da Pré-Tecnologia. Os tempos dirão.
Brindo aos 45 anos da Zona Franca de Manaus. Tem empresário e político que brindará com legítima Dom Pérignon safrada, champanhe de 5 mil euros. Já é tempo de fazer o modelo voltar aos seus reais objetivos.