
Sebastião Carneiro, braço do rio Amazonas e da Lagoa da Francesa, corre por baixo da rua e entre as palafitas que refletem a sub-habitação
Chico da Silva presenteou os filhos, dele e de Paulo Debétio, com uma música antológica. “Tempo bom”, com efeito, é um clássico. “Daquele tempo de menino/ ainda tenho no meu peito muita saudade…”. Reflete a infância de qualquer curumim da Amazônia, com peraltices que incluíam o indefectível banho de rio – no caso da música, a lagoa da Francesa, em Parintins. Um braço dessa memória, tão cara, o Sebastião Carneiro, Velho Sabá, foi cortado. Era lá o “coio” da Ilha, o reduto mais escondido, o banho onde a água fresca curava todos os males.
Sebastião Carneiro é esse pedaço de rio, do qual, até entre os parintinenses da gema, são raros os que lembram. Veio o “progresso”. O ex-prefeito Carlinhos da Carbrás, em seu voluntarismo, criou o bairro de Santa Rita. Orgulhava-se de construir a primeira rede de drenagem completa, com tratamento de esgoto, da história de Parintins.
O problema é que, para ligar o novo e saneado bairro ao Palmares, ele simplesmente aterrou o velho e generoso Sebastião Carneiro.
Veio a primeira rua, a segunda e hoje são cinco as ruas-aterros. O “trabalho” virou uma bola na marca do pênalti para o déficit habitacional. Hoje, perto de 100 casas cercam essas estruturas e depositam no sofrido braço de rio suas águas servidas.
O Velho Sabá ficou por um fio. Mas ainda reage, todos os anos, durante as enchentes, quando costuma derrubar os aterros-ruas.
Chega agora o Prosamim+, com a sensibilidade do secretário de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano, Marcellus Campelo.
Hoje (06/06), em Parintins, às vésperas do Festival Folclórico, uma audiência pública discute como será feito o Prosamim+ da cidade. É uma ação direta do governador Wilson Lima. Marcellus e o prefeito Bi Garcia estão presentes.
Parintins, como arquipélago, é uma sede municipal formada por cinco ilhas. Uma delas, a Santa Clara, foi aterrada e está ligada à cidade. O Santa Rita é outra, que agora tem a chance de ser recuperada.
Imagine, o digníssimo turista, ao chegar a Parintins, durante o Festival Folclórico, encontrar cinco pontes instagramáveis, sobre águas límpidas (junho é mês do auge da enchente). Vai tropeçar nelas a caminho do Kwait Club ou do hotel Amazon River, dois locais do bairro de Santa Rita.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), principal financiador do Prosamim+, agradecerá o inestimável serviço ambiental.
O Prosamim+ de Parintins vai sanear a lagoa da francesa. Um golaço, no berço onde nasceu o Boi Bumbá Caprichoso. Se não retirar os aterros da ligação Santa Rita-Palmares, libertando o Velho Sabá, no entanto, terá feito como aquele viaduto, que apenas transfere o engarrafamento para a esquina seguinte.
“… roda pião o estilingue no pescoço e papagaio pra soltar/ mamãe me acordava cedo/ menino toma banho vai te aprontar/ vou ficar te vigiando e no caminho da escola você vê se dá um jeito de não se sujar/ e sempre com os meus amigos/ uma chegada na lagoa não fazia mal…” Quem nunca?
Viva o Sebastião Carneiro. O Velho Sabá precisa viver.
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