
Coroação anacrônica continua a gerar imagens com grande repercussão ao redor do mundo, apesar das críticas ao esbanjamento real
A coroação do rei Charles (Carlos) III, da Inglaterra, e de Camila, rainha consorte, mostra um mundo dos contos de fadas. Houve pompa e circunstância, cifras milionárias, atenção mundial, tudo em tom grandiloquente. Nada, porém, que tire a pecha de cerimônia anacrônica, arrancada do Século XIX, quando os britânicos tinham “o império no qual o sol nunca se põe”.
Há detalhes da cerimônia que são dignos de nota.
O hino de coroação, “Make a Joyful Noise”, foi composto por Andrew Lloyd Webber, baseado no Salmo 98 (“Celebrai com júbilo ao Senhor…”). Webber é o autor da música antológica de “O fantasma da ópera”.
Como “prova de modéstia”, Charles convidou cerca de 2,2 mil dignitários, de 203 países, contra os 8 mil de 1953, coroação de Elizabeth II. Havia lá, em nome do verniz de modernidade, religiões não-cristãs, incluindo as comunidades Bahá’í, Budismo, Hinduísmo, Jainismo, Judaísmo e Islamismo, entre outras.
Os momentos cruciais, no entanto, estiveram presentes. É o caso da imposição do óleo da tradicional “Ampola de coroação”, pelo Arcebispo de Cantuária, que enfatiza o papel espiritual do soberano. Os britânicos consideram esse momento sagrado e o escondem da transmissão de TV.
Estiveram lá o hino “God Save the King” e a oração Liber Regalis, que data de cerca de 1.382 e é uma das preces mais antigas para o cerimonial de coroação inglês.
Entre as polêmicas, que não poderiam faltar, está a do diamante Koh-i-Noor (Montanha de Luz). Ele tem 105,6 quilates e está incrustado na coroa de Elizabeth II. Passou pelas mãos de mogóis, persas, dos afegãos da dinastia Durrani, sikhs e por fim, de britânicos. Os indianos, que presentearam a rainha com ela, querem a joia de volta. O mesmo vale para Paquistão, Bangladesh, Irã e Afeganistão.
Quanto vale o Koh-i-Noor? Não há avaliação oficial, mas calcula-se que chegue a 1 bilhão de euros (cerca de R$ 5,77 bilhões).
Tudo ao redor dos reis britânicos tem valor estratosférico. As coroas (várias!) usadas na cerimônia foram retiradas para adaptação, com esquemas de segurança inacreditáveis.
A monarquia é um regime em decadência. Restam poucos reis no mundo. Cada vez mais eles perdem poder. Ainda assim, como na frase atribuída ao rei Farouk I, do Egito, no dia da deposição, “Dentro de pouco tempo restarão somente cinco reis na face da terra: os quatro do baralho, e o da Inglaterra”.
O que os reis fazem, como submetem os súditos e de onde vem a riqueza que ostentam é uma fórmula antiga. Está no Velho Testamento da Bíblia, em 1 Samuel 8:11-18.
Basta olhar ao redor e ver os chefetes que brotam perto de cada um.