
A alma chora vendo os bumbás, de tanto brilho na arena, deslustrando a própria história. Fotos: Michael Dantas/Secretaria de Cultura
Tom Jobim, no “Samba do avião”, pensando em seu Rio de Janeiro escreveu: “Minha alma canta/ Vejo o Rio de Janeiro…”. Nesta sexta (24/07), após o leilão do patrimônio do Bumbá Garantido, peço licença ao grande artista porque vejo a minha Parintins e minha alma chora.
Não perdem as diretorias de Garantido e Caprichoso, com a maré de leilões em curso, mas história, memória e vida de Parintins. Nunca nossos maiores foram tão ofendidos. Não é possível ficar por isso. Os órgãos de controle, como os ministérios públicos do Amazonas (MPAM) e Federal (MPF), precisam filtrar, peneirar e prender os culpados por esse descalabro. O patrimônio, afinal, foi construído em grande parte com dinheiro público, estadual e federal.
Tudo bem, a festa tem tanta força que consegue sensibilizar empresários, como o Grupo Samel e Valmir Nogueira, para disponibilizar os patrimônios que adquiriram ao boi. Mas é uma vergonha inominável toda a situação que levou ao estágio atual.
Tudo começou com meninos. Batiam lata, cortavam galhos para fazer cavalinhos e criaram “tribos”, com pintura de corpo a carvão e uma pena amarrada na cabeça. A festa cresceu, nas gerações seguintes, para a frente e para o alto. Mas estava sedimentada pela ação daqueles meninos, pescadores, estivadores, oriundos de famílias humildes e cheios de boa vontade.
Os grandes currais, o do Caprichoso oriundo da doação da Prefeitura, sob o saudoso ex-prefeito Gláucio Gonçalves, que também ajudou na montagem da Cidade Garantido, são consequência. Como as árvores não têm galhos se não tiverem raiz, da mesma forma, o patrimônio grandioso não existiria sem a chama da poronga acesa pelos curumins do século passado.
Agora, quando a vaca leiteira engordou e virou campeã mundial de leite, enchendo as vasilhas, esta geração mete o pé no balde e derrama tudo. É, repito, uma vergonha.
Todos sabem que há empresários, que se dizem apaixonados pelos bumbás, vivendo de emprestar dinheiro a juros para eles. Juros altos, diga-se. Alguns desses empréstimos até se transformaram em leilões e levaram água abaixo outros bens. Neste momento, porém, o que se vê é uma ação mais ampla, de rebanho, que ameaça dizimar a festa folclórica que, recentemente, foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Houve presidente irresponsável? E os conselhos fiscais? E os demais diretores? Quem começou? Quem, exatamente, deixou processos trabalhistas correrem à revelia? Quem não recorreu de derrotas em primeira instância? Quem parcelou débitos e não pagou?
São perguntas que precisam ser respondidas com cadeia, arresto de patrimônio e a devida exposição pública. É o mínimo que se pode fazer pela memória dos que se foram, construindo com sangue, suor e lágrimas a grandiosidade dos bumbás.
Minha alma chora. O Festival de Parintins chora. A memória parintinense, também em lágrimas, está sendo pisoteada.
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