10/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

A alma chora vendo a memória do Festival de Parintins pisoteada desse jeito

Publicado em 24 de julho, 2020

A alma chora

A alma chora vendo os bumbás, de tanto brilho na arena, deslustrando a própria história. Fotos: Michael Dantas/Secretaria de Cultura

Tom Jobim, no “Samba do avião”, pensando em seu Rio de Janeiro escreveu: “Minha alma canta/ Vejo o Rio de Janeiro…”. Nesta sexta (24/07), após o leilão do patrimônio do Bumbá Garantido, peço licença ao grande artista porque vejo a minha Parintins e minha alma chora.

Não perdem as diretorias de Garantido e Caprichoso, com a maré de leilões em curso, mas história, memória e vida de Parintins. Nunca nossos maiores foram tão ofendidos. Não é possível ficar por isso. Os órgãos de controle, como os ministérios públicos do Amazonas (MPAM) e Federal (MPF), precisam filtrar, peneirar e prender os culpados por esse descalabro. O patrimônio, afinal, foi construído em grande parte com dinheiro público, estadual e federal.

Tudo bem, a festa tem tanta força que consegue sensibilizar empresários, como o Grupo Samel e Valmir Nogueira, para disponibilizar os patrimônios que adquiriram ao boi. Mas é uma vergonha inominável toda a situação que levou ao estágio atual.

 

Batedores de lata, fausto e infausto

Tudo começou com meninos. Batiam lata, cortavam galhos para fazer cavalinhos e criaram “tribos”, com pintura de corpo a carvão e uma pena amarrada na cabeça. A festa cresceu, nas gerações seguintes, para a frente e para o alto. Mas estava sedimentada pela ação daqueles meninos, pescadores, estivadores, oriundos de famílias humildes e cheios de boa vontade.

Os grandes currais, o do Caprichoso oriundo da doação da Prefeitura, sob o saudoso ex-prefeito Gláucio Gonçalves, que também ajudou na montagem da Cidade Garantido, são consequência. Como as árvores não têm galhos se não tiverem raiz, da mesma forma, o patrimônio grandioso não existiria sem a chama da poronga acesa pelos curumins do século passado.

Agora, quando a vaca leiteira engordou e virou campeã mundial de leite, enchendo as vasilhas, esta geração mete o pé no balde e derrama tudo. É, repito, uma vergonha.

Todos sabem que há empresários, que se dizem apaixonados pelos bumbás, vivendo de emprestar dinheiro a juros para eles. Juros altos, diga-se. Alguns desses empréstimos até se transformaram em leilões e levaram água abaixo outros bens. Neste momento, porém, o que se vê é uma ação mais ampla, de rebanho, que ameaça dizimar a festa folclórica que, recentemente, foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Houve presidente irresponsável? E os conselhos fiscais? E os demais diretores? Quem começou? Quem, exatamente, deixou processos trabalhistas correrem à revelia? Quem não recorreu de derrotas em primeira instância? Quem parcelou débitos e não pagou?

São perguntas que precisam ser respondidas com cadeia, arresto de patrimônio e a devida exposição pública. É o mínimo que se pode fazer pela memória dos que se foram, construindo com sangue, suor e lágrimas a grandiosidade dos bumbás.

Minha alma chora. O Festival de Parintins chora. A memória parintinense, também em lágrimas, está sendo pisoteada.

Veja mais notícias em Opinião

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.