
Pedro Garapeiro é encontrado e olha só a festa que amigos e familiares fizeram, em torno dele e dos policiais que o acharam. Foto: Álbum de Família
Pedro Garapeiro estava numa praça, no Centro de Manaus, quando foi localizado por policiais. Eles viram a crônica deste portal e a mobilização da família nas redes sociais. “Vovô estava providenciando bodó para fazer uma caldeirada conosco”, revela Vinícius.
Pedro Garapeiro vive o que Ecléa Bosi descreve em “Memória e Sociedade – Lembranças de Velhos”, um clássico da Sociologia. Preferia a Parintins dos seus tempos, com todos ao seu redor, fazendo festa e contando as novidades. Os velhos não veem a cidade com os seus atuais 110 mil ou pouco mais habitantes. Veem-na com aquele jeito de cidadezinha, onde todos se conhecem, se cumprimentam e trocam gozações.
O bodó é um ícone parintinense, o que se repete em todo Médio e Baixo Amazonas. É o peixe descrito por Edson Lessi, saudoso pesquisador do Inpa, “como o mais saudável da Amazônia e parente próximo da lagosta”. Aparece em Manaus, mas raramente na forma como é consumido na Ilha, ainda pulando, totalmente fresco. Pescador de lá sabe que, se não estiver gordo, nem pode levar para tentar vender. O sabor é outro.
Pedro Garapeiro, fiel às tradições, no lapso de memória que viveu esta segunda (09/12), parece ter mergulhado no tempo.
Perdeu o rumo. E, docemente, estava se preparando para dormir na praça, enquanto aguardava a abertura do mercado para comprar bodó. Sabia que, no dia seguinte, encontraria o caminho de casa e faria uma surpresa à parentada apresentando a iguaria.
Agora, recuperado, resgatado e de volta ao seio familiar, vai receber os parentes num almoço dominical. Certamente com uma caldeirada de bodó.
O manauara, empurrado pela mono-piscicultura do tambaqui – e, quando muito, da matrinxã – esqueceu o sabor de outros peixes.
Aparece aqui e ali o pacu e a sardinha. Mas vão ficando distantes cará-açu, mapará, cuiú-cuiú, surubim, curimatã, tamuatá, branquinha… E, claro, bodó. Até o jaraqui já não frequenta a mesa como antes.
A memória do velho parintinense Pedro Garapeiro, quando pressionada pela velhice, correu para o bodó. Velhice? Nada que desabone o velho, que, nesse caso, representa uma vitória alcançada. Queira Deus que todos nós cheguemos até lá. E lembremos do passado com essa vivacidade.
Pedro Garapeiro seja bem-vindo. Filhos, netos, amigos, vamos abraçá-lo. Parte expressiva da memória de Parintins está em casa. Sã e salva.
Veja mais notícias em Opinião