11/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Mercado Municipal de Parintins, lembrança de generosidade e convívio com a natureza

Publicado em 27 de maio, 2019

Mercado Municipal de Parintins

Mercado Municipal de Parintins é reinaugurado nesta segunda (27/05) e traz um turbilhão de lembranças

Havia em Manaus a “hora da creolina”. Os fiscais de mercados e feiras derramavam o líquido fétido sobre o pescado não vendido. Era um recurso contra a precariedade de armazenamento. O objetivo era não deixar para o dia seguinte peixe comprometido. Em Parintins, na mesma hora, os pescadores abriam seus barcos e doavam o pescado. Como? Davam? Sim. De graça. Os mais ricos pagavam pelo peixe mais fresco e os pobres não passavam fome.

O Mercado Municipal de Parintins renasce, nesta segunda (27/05), restaurado pela gestão do prefeito Bi Garcia. Era lá, nas bancas ou na praia e rampa próximas, o palco da generosidade do pescador parintinense.

A Ilha Tupinambarana gira, hoje, em torno do Festival Folclórico. Muitos dos cérebros geniais que hoje fazem Caprichoso e Garantido foram preservados pelo altruísmo da cabocada da pesca. A ciência, afinal, mostra que a proteína alimenta o cérebro humano garantindo inteligência, entre outros atributos. Proteína de peixe está entre as melhores, especialmente nos primeiros anos de vida. Logo, obrigado heróis do rio e do igapó.

Era também um tempo de variedade constante de peixes. Tambaquis, matrinxãs, jaraquis, maparás, bodós, sardinhas, pacus, aracus, carauaçus chegavam pulando ao mercado. Isso e muito mais! Quem ainda come cuiu-cuiu? E charuto, também conhecido como cubiu? Sem contar pescada, sulamba (aruanã), piramutaba (mulher ingrata), branquinha… A lista vai longe. A natureza retribuía generosidade com fartura.

 

O pávulo

Vale a pena um parênteses. O parintinense, que é conhecido pela pavulagem, detesta quando alguém viaja, estuda, ganha dinheiro e volta pávulo além da conta. Aí alguém logo dispara: “Criado (a) com cará dorminhoco da Francesa e agora vem querer botar banca pra cá!”. A Francesa, lago da “parte de baixo” da cidade, é um reduto do Caprichoso e forneceu muito alimento, antes da poluição.

 

Os pescadores

Essas lembranças, que afloram diante da reinauguração do mercado, foram em parte relatadas por mim e Chico da Silva. Fiz a letra e ele a música de “Os pescadores”. A toada é homenagem a meu pai, Zé Caiá, e a nosso tio, Luiz Gonzaga, um dos fundadores do Caprichoso. Mas também aproveitamos para homenagear tio Santarém, que construía a Dona Aurora, boneca de pano do Caprichoso. Lembramos seo Pamim e até o saudoso Porrotó, irmão de Lindolfo Monteverde, fundador do Garantido.

Por quê Porrotó, um dos mais fanáticos torcedores e brincantes da Batucada, numa toada feita com a alma do Caprichoso? Porque ele era pescador, espírito bom, e esse tipo não tem cor, não tem partido.

“Obrigado, meu filho”, ele me disse. Estava rigorosamente fantasiado, todo de vermelho, como eu de azul. Ninguém no corredor polonês do Caprichoso, naquele instante de fanatismo antes da entrada, ousou interromper aquele abraço gostoso, lágrimas escorrendo.

 

Hora da fartura

Era no Mercadão, também, que meu pai nos levava. Isso ocorria com muita raridade. Era quando um navio acabava de carregar ou descarregar no porto. Os estivadores, como ele, ficavam abonados. Ou quando a pesca tinha sido boa. Ele comprava um paneiro de farinha, banana em cacho, biju (cica, d’água, de goma), pé-de-moleque, crueira. Zé Caiá gostava de fartura e lutou a vida inteira para nos dar o mínimo, com incursões no máximo.

Ah, o mais inesquecível!, liberava a melancia, na praia que se formava na margem do rio Amazonas. Áldson e Albino, meus sobrinhos, ainda dividiram comigo esse momento. Ele nos olhava, feliz, antes de comentar: “Como comem esses meninos!”. Nunca vou esquecer aquele olhar de felicidade.

Volto de férias e recebo o convite para ir à reinauguração do mercado. Teria que faltar dois dias de programa, na Rádio Diário, após 15 dias ausente. Não dá. É com muita dor no coração que não irei a esta segunda (27/05) inteira de festividade. Mas troco minha presença por um favor do prefeito. Soube que há banqueiros tradicionais do mercado de fora do novo prédio. Corrija isso, se for verdade, Bi, para que a alegria seja completa.

Parabéns, Parintins. A alma da ilha resplandece outra vez. O mercado está de pé.

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