08/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Perreché da Baixa ou da Francesa? Perreché parintinense ou carioca? Eis a questão

Publicado em 02 de abril, 2018

perreché

Perreché virou palavra importante depois que Ivo Meirelles (centro) emplacou “Perrechés do Brasil” no playlist do Garantido 2018. Ele tem divulgado a toada no Rio e em São Paulo

“Perrechés do Brasil” (Ivo Meirelles/ Vanderlei Alvino/ Sandro Putnok) ganha o status de principal toada do Garantido este ano. Trata-se de música com a pegada de um dos nomes mais conhecidos da cena brasileira. Ex-presidente da Mangueira e produtor musical prestigiado, Ivo trouxe para a divulgação nomes conhecidos nacionalmente. Está ajudando a atrair público para os eventos dos bumbás, especialmente o Garantido, e essa ajuda é muito bem-vinda. Mas tem uma questão etimológica e de semântica no meio disso que precisa ser esclarecida.

“Perrechés do Brasil”, do jeito como usa a palavra, dá a impressão de que se trata do “fanático pelo Garantido”. No contexto da rivalidade entre os bois bumbás pode até ser. A expressão, porém, é bem mais rica que isso.

Perreché é, originalmente, uma corruptela de “pé rachado”. É como era chamado o parintinense da várzea. O caboclo no sentido mais estrito da palavra. Caboco. O mais “estorde”.

Parênteses. Estorde? É do vernáculo “estúrdio”. A palavra é do português culto, embora o caboco, com a licença de vida que tem, use o direito de falar como entende. Fecha parênteses.

Por que pé rachado ou perreché?

Porque esse homem, verdadeiro herói da Amazônia, não usava qualquer calçado. Os pés, acostumados a mergulhar na lama das margens dos rios, tinham os dedos afastados. O contato direto com o solo cru fazia com que a sola do pé ficasse calejada, dura, áspera, grossa. Ele corria pelos campos, em total liberdade, caçando ou pescando. Pisava juquiri, um espinho temível para o caboco da cidade. E isso era fichinha: quebrava os talos de juta com a sola nua e sem se ferir.

O pé, nesse contato direto com a natureza, rachava.

A resistência do perreché, que ainda existe, embora seja mais raro, é digna de uma ode.

É por isso que existe perreché da Baixa, o fanático pelo Garantido, e perreché da Francesa, o fanático pelo Caprichoso.

A rivalidade Garantido-Caprichoso mudou muita coisa de Parintins para o mundo ver.

O Garantido cristalizou a ideia de “boi do povão” versus “boi da sociedade”. Isso tem enorme apelo entre os pseudos-intelectuais que visitam a ilha e torcedores novatos. Quem mergulha nos bumbás vê claramente que há povão de um lado e de outro. Sem povão, aliás, os bumbás não existiriam.

É fato, ao mesmo tempo, que (ambos) os bumbás são construídos por quem tem dinheiro. Não dá para imaginar uma “brincadeira” que custa R$ 8 milhões/ ano cada sendo construída por despossuídos. Daí o enorme valor daquela gente das filas, arquibancadas do povão, desde 9h, para ver o seu bumbá desfilar 21h.

Novo parênteses. Os dirigentes de bumbás e a Prefeitura de Parintins podiam facilmente acabar com isso. Basta antecipar o início dos desfiles para 19h. Dane-se a TV. Os dois bumbás ficariam na arena por cinco horas e meia, ok!, mas 0h30 tudo estaria encerrado. O povo podia ir para casa, descansar à espera do dia seguinte, e ficaria menos tempo na fila. Bares, lanchonetes, restaurantes, clubes em geral teriam mais um espaço para receber clientes. Fecha parênteses.

 

Uma palavra que virou rivalidade

O Caprichoso entrou com a toada-desafio “Caboco perreché”. Está no CD “100 anos do Caprichoso”. A letra é dura:

“Se você ver um caboclo

Barrigudo e perreché

Pode contar que ele é lá do São José

 

São uns caboclos varzeiros

É um caboclo metido

Pode contar que ele é

Lá do curral do Garantido (BIS)”

O Garantido não se fez de rogado. Paulinho Faria e depois Israel Paulaim repetem para a torcida: “Mas quem é perreché levante o braço!!!”. A galera vermelha e branca vai ao delírio.

O perreché, portanto, nem é o da Baixa, nem o da Francesa. Trata-se de personagem parintinense autêntico, heroico, sobrevivente, cada vez mais raro.

Bem-vindos os perrechés do Brasil. Ivo Meirelles e companhia fizeram um hino à paixão do torcedor. Que cheguem à Ilha, nessa nova concepção, como fanáticos do Garantido. Não deixa de ser bonito ver esse sentimento atravessando o País. Mas é preciso olhar para além da rivalidade reducionista.

Braulino, com “Tic-Tic-Tac”, do Grupo Carrapicho, e Chico da Silva, com “Vermelho”, Fafá de Belém e David Assayag, chegaram lá. Tornaram-se sucesso nacional e internacional. Ivo e seus parceiros lutam para chegar a esse seleto clube.

A briga de “Perrechés do Brasil”, por enquanto, é com “Boi de negro”, do Caprichoso, uma obra-prima que conta com Alcione, ao lado de David Assayag. E tem a vantagem do tema bem mais abrangente, a negritude. As duas toadas já são, disparadas, os maiores sucessos do Festival 2018.

Olhem o perreché. Viva o viciado no cheiro do apuizeiro com cipó titica. O que vê o peixe no emaranhado da canarana. Aquele para quem flecha é frecha e garça é galça. O caboco estorde que mata no peito as dificuldades e dá show de sobrevivência na imensidão amazônica.

Viva o perreché de Parintins, Amazonas, Amazônia. Viva o herói brasileiro da beira do rio.

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