15/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Moção idiota

Publicado em 14 de junho, 2026

Por Felix Valois

Já fui deputado estadual. Os amigos sabem disso, assim como sabem que não manifesto especial orgulho por ter sido. Apenas registro um fato. Eleito em 1982, exerci a função até 1986. Eram outros tempos e outra gente. De nossa bancada, relembro nomes como Francisco Queiroz, José Dutra, Beth Azize e Cleuter Mendonça. Na oposição, impossível esquecer Homero de Miranda Leão, José Belo Ferreira, Waldir Barros e Socorro Dutra Lindoso. As divergências eram inevitáveis, mas era perceptível que a maioria, de lá ou de cá, tinha efetivo compromisso com a coisa pública.

Produzimos algo de excepcionalmente marcante? Tenho que não. Era o começo do fim da ditadura e atuamos ainda sob a Constituição do regime autoritário. Se hoje é reduzida, a competência legislativa dos estados-membros era, então, ridiculamente pequena. Em compensação – e isso afirmo com a mais inquebrantável convicção – não produzimos nenhuma besteira monumental, dessas que estão, desde o nascedouro, destinadas a integrar o folclore político.

O mesmo não posso dizer do que se passa hoje. Os nossos ilustres parlamentares vêm de aprovar uma coisa a que chamaram “moção de aplauso ao governo dos Estados Unidos da América, pela inclusão do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital na lista de organizações terroristas”. Você acredita nisso, meu escasso leitor? Confesso que a mim me custou ter tamanho disparate como verdade e, não fosse pela honestidade da fonte, ainda estaria pensando tratar-se de mais uma dessas tais de “fake news”, tão na moda ultimamente.

Duas coisas me chamaram a atenção. De pronto, o claro, óbvio e inquestionável desvio de função. Pagos com o dinheiro dos nossos impostos, os deputados não têm o direito de se dar à pachorra de passear em terrenos outros que não estejam direitamente ligados aos interesses do Estado do Amazonas. Ao depois, a exposição, a céu aberto, do viralatismo mais abjeto, fruto, talvez, do complexo de inferioridade frente ao império do norte.

Fosse-me dado acrescentar algo, falaria, ainda, da absoluta inutilidade do monstrengo. Mesmo para um megalômano como Trump (se é que a ele chega o absurdo), há de soar como ridicularia insignificante a manifestação, pois ao demônio louro mais interessa a dedicação à sua faina de ceifar vidas humanas, em guerras descabidas.

Convivo com a Assembleia Legislativa desde a juventude. Aos dezenove anos, era credenciado pela empresa Archer Pinto (O Jornal e Diário da Tarde) como o repórter encarregado de cobrir e divulgar as sessões daquele parlamento. Assisti, é claro, a coisas curiosas. Um deputado discursava e, já não lembro a propósito de quê, afirmou que estava se sentindo como um tatu. O deputado João Valério pede-lhe um aparte, prontamente concedido. A gozação irônica foi implacável. O ilustre itacoatiarense indaga de seu colega: “Vossa Excelência se sente como um tatu-peba ou um tatu-bola?”

A galeria explodiu em risos e o presidente teve que dar trabalho à campainha.

Pelo menos havia originalidade. A moção vira-lata nem isso tem. Além de ridícula e inútil, é uma bofetada na cara dos verdadeiros amazonenses que, como eu, respeitam sua Pátria. Elogiar uma descabida interferência externa nos negócios do Brasil não é apenas feio. É vergonhoso.

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Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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