17/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Estupidez artificial

Publicado em 17 de julho, 2026

Por Felix Valois

A inteligência artificial (IA, para os íntimos) é a mais nova coqueluche das redes sociais. Plagiadores e incompetentes do mundo inteiro andam rindo com as paredes. Afinal, os algoritmos conseguem criar aquilo que, com a sua “inteligência natural”, jamais lograriam. Nada mais normal, portanto, que expressem sua felicidade quando a máquina lhes entrega um amontoado de generalidades, que, a seus olhos ávidos de algo original, parece a reedição da Divina Comédia.

É óbvio que seria rematada tolice não reconhecer a dimensão e a importância dessa conquista tecnológica. A ciência, se me permitem o truísmo, há de estar sempre a serviço do bem-estar da humanidade e a facilitação da pesquisa é, com certeza, detalhe importante para esse fim. Infelizmente, o que não se pode impedir é que o avanço seja utilizado pela mediocridade aproveitadora, como forma de tentar superar suas limitações. Paciência. Como proclama o vulgo, “o pau que bate em Chico também bate em Francisco”.

Mas este escriba é conduzido a outras elucubrações. Quando vejo o Trump estapear a humanidade com uma arrogância nunca dantes estampada, fico a me perguntar se esses mesmos algoritmos já não vêm trabalhando há muito tempo em sentido contrário ao da IA. Trabalhando na surdina, sem ostentação nem holofotes, de tal maneira que os produtos da “estupidez artificial” possam ser encarados como coisa da maior trivialidade.

Porque assim tem sido com a trajetória do referido Trump. Invadiu um país e sequestrou seu presidente. Unilateralmente impõe absurdas tarifas sobre mecanismos do comércio. Faz guerra por mera satisfação de seu inflamado ego. Milhões de pessoas morrem em decorrência dessas guerras. E fica tudo por isso mesmo. Convenhamos em que ter essas atrocidades como naturais só pode ser fruto da estupidez. E artificial, eis que o cérebro humano, por mais despido de neurônios que seja, não é capaz de assimilar tamanha falta de bom senso.

Aqui mesmo, em terras tupiniquins, a estupidez artificial já fez das suas. E das boas, mesmo. A outra coisa não se pode atribuir a eleição de Bolsonaro. Como pôde ser presidente da República uma pessoa capaz de negar a eficiência da vacinação para combater uma pandemia? Ou, o que é pior, dizer que a vacinação poderia transformar humanos em jacarés. Nesse campo, seria praticamente infindável a enumeração dos feitos gloriosos conquistados pela estupidez artificial. Vamos, pois, cingir-nos ao que, por incrível que parece, ainda remanesce.

Preso por tentativa de golpe de estado, o patriarca transfere ao herdeiro mais velho seu patrimônio político. Não se trata de mera questão de direito sucessório, como disciplinado pelo Código Civil. Longe disso. É a mais clara tentativa de fazerem retornar os tempos em que as liberdades foram tolhidas, enquanto as torturas e os assassinatos políticos integravam a agenda diária dos donos do poder. Se isso não for estupidez, impossível definir o conceito.

Em razão disso, Flávio Bolsonaro é candidato à chefia executivo nacional. Não dá para acreditar, salvo se botarmos fé nos algoritmos do mal. Operando, como disse, na surdina, mas com eficiência, esse laboratório de absurdos foi capaz de nos fazer chegar a esse ponto. Aqui, a figura é, se possível, mais nefasta e abjeta. Nunca se viu tamanha subserviência ao imperialismo americano. Nunca antes se nos deparou tamanha falta de patriotismo. E parece existir gente capaz de votar nesse rebotalho.

Tenho, pois, que a estupidez artificial está ganhando de muito do seu contrário dialético. Algo assim, já que estamos na copa, como aqueles sete a um, com que a Alemanha nos humilhou em 2014. Vejo a massa de alienados para os quais a Pátria não representa um valor cívico. Vejo a onda do obscurantismo ganhando força e ameaçando a Nação com um tsunami de mediocridade.

Bem por isso não me causou estranheza este episódio que relato, ao final: vi, na internet, uma homenagem a Che Guevara. Nos comentários, escrevi singelamente: “Che, herói das Américas”. Para quê? Insultos de todos os tamanhos foram proferidos, tendo um senhor, por certo muito bem-educado, que me mandou tomar naquele lugar. É claro que não fui. Mas tive a certeza de que, para esse indigente, a EA já chegou ao seu máximo. Ou será a natural, mesmo?

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.