Por João Lago
O papa Francisco, na página quatorze de sua autobiografia1, descreveu a sua necessidade de visitar a pequena ilha da Lampedusa, localizada no Mediterrâneo no meio do caminho entre o norte da África e a Costa Sul da Itália, logo após o naufrágio que vitimou 369 migrantes em outubro de 2013. Francisco escreveu: “Eu tive que ir para Lampedusa para rezar, mostrar que eu estava com eles, para mostrar a minha gratidão e encorajamento aos voluntários e a população daquele pequeno lugar que ofereceram um exemplo concreto de solidariedade”.
Inicio relembrando a história dessa tragédia recente, pois apesar de haver passado quase doze anos, o exemplo de como líderes de grandes potências continuam indiferentes as guerras e a fome no mundo, esses dois principais motivos para migração humana e, ao mesmo tempo, criam verdadeiras milícias para perseguir estrangeiros nas ruas e emitem um discurso político xenofóbico. Fomenta-se nas sociedades ocidentais a ideia que o problema é o deslocamento de pessoas que trazem o caos e a violência para as cidades, quando, na verdade, os migrantes estão fugindo da violência e do caos em suas próprias cidades. Papa Francisco é um produto desses deslocamentos forçados, pois os seus avós paternos imigraram para a Argentina fugindo da penúria econômica do pós-Primeira Guerra Mundial e, portanto, sua empatia vai além de seguir um discurso confessional, mas por ter conhecimento desse drama em sua própria família.
Neste 4 de julho, dia da independência estadunidense, setores da extrema-direita nos EUA viram a visita do Papa Leão XIV a ilha de Lampedusa como uma mensagem crítica à política de ação anti-migração nos EUA no dia de sua libertação do Reino Bretão, sendo eles mesmos descendentes de imigrantes que deixaram sua terra natal nos 250 anos de sua existência como nação. Diferentemente do Papa Francisco, que carregava em sua recente biografia as marcas de um deslocamento forçado, Leão tem ancestralidade miscigenada entre europeus e africanos, como se faz qualquer país que sofreu ondas migratórias em sua história. No entanto, ainda que possamos elocubrar as motivações íntimas de Francisco e Leão em suas visitas à Lampedusa, ambos tem no Evangelho de Mateus um chamado pastoral para assim proceder: “porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era peregrino e me acolhestes2”. Pode até ser interpretado como uma mensagem política, porque a ação humana tem viés político, mas acima das questões mundanas está a visita de ambos carregada do simbolismo do amor ao próximo e da boa nova de paz que Cristo pregou na terra.
Um planeta como uma população projetada de 10 bilhões até o final deste século, os deslocamentos humanos motivado por fome, desastres naturais e guerras locais serão mais frequentes e não adianta buscar fechar fronteiras, porque a própria organização das nações em economia de mercado, aceleradamente após 1991, as riquezas passaram a ser construídas e concentradas nas competências de produção e tecnologia de uma nação e o que ela pode querer do mundo em troca. Não por acaso, as tarifas levantadas pelo governo dos EUA contra a economia Chinesa e Brasileira caíram quando a sua indústria e população ficaram sem insumos essenciais como terras raras, carne de gado, café, suco de laranja, frutas etc. Por outro lado, os agricultores estadunidenses perderam mercado para os seus produtos, pois a China retribuiu na mesma moeda com aumento de taxas e eles ficaram com a soja apodrecendo nos campos. O multilateralismo é uma construção do pós-guerra mundial e isoladamente são poucas economias no planeta que podem ser consideradas relativamente autossustentáveis e o Brasil é uma delas, felizmente já demonstramos isso ao mundo.
Portanto, a melhor maneira de frear o fluxo migratório de grandes massas humanas inicia por findar as guerras em todos os continentes. Depois, reconstruir as nações destruídas buscando a vocação do que de melhor podem oferecer ao mundo e, por último, diminuir a concentração de renda das mãos de 3.428 bilionários que juntos concentram US$ 20,1 trilhões3, ou seja, duas vezes mais que o PIB do Brasil ou vinte e nove vezes o PIB da Argentina que juntos4 possuem 259 milhões de habitantes. Se nada disso for feito, ainda veremos outros sucessores de Francisco e Leão visitar, rezar e depositar flores em Lampedusa.
REFERÊNCIAS
1BERGOGLIO, Jorge Mario. Hope, The Autobiography. New York: Penguin Random House, 2025
2MATEUS. Evangelho de Jesus Cristo, Capítulo 25, Versículo 35. Bíblia Católica Ave Maria.
3FORBES, Lista de bilionários no mundo.
4Banco Mundial
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* Tereza Cidade é jornalista.