04/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

DNA amazonense no Mundial de Ginástica Rítmica histórico do Rio

Publicado em 28 de agosto, 2025

Ginástica Rítmica

Ginástica Rítmica brilhou, ao som de evidências, com Maria Paula (em destaque) levando o sangue amazonense para o pódio. Ilustração feita por IA

O Mundial de Ginástica Rítmica realizado no Rio de Janeiro ficará marcado como um divisor de águas para o esporte brasileiro. Em um cenário tradicionalmente dominado por potências do Leste Europeu, o Brasil subiu ao pódio duas vezes, com duas medalhas de prata inéditas. Não foi apenas um feito esportivo: foi um grito de afirmação de um país que, quando acredita em seus talentos, pode desafiar a lógica e surpreender o mundo.

A primeira conquista veio no conjunto de cinco arcos, em uma apresentação impecável que combinou sincronia, criatividade e ousadia técnica. O público vibrou com cada movimento, reconhecendo naquelas jovens atletas a seriedade de quem treinou além dos limites para representar a nação. O Brasil se impôs em meio às favoritas, superando rivais históricas e abrindo caminho para o segundo e mais emblemático momento do campeonato: a Série Mista, com três bolas e dois arcos.

Foi justamente nessa final que a equipe brasileira ousou ainda mais. A trilha escolhida — “Evidências”, de José Augusto, na interpretação de Chitãozinho e Xororó — já é um clássico popular, cantado por multidões em diferentes contextos culturais. Levar essa música para o tablado de um mundial foi um gesto ousado, mas profundamente simbólico. O esporte, nesse instante, encontrou a cultura popular e transformou-se em espetáculo genuinamente brasileiro. O resultado não poderia ter sido mais emocionante: uma nota que deixou o Brasil a apenas 0.100 da campeã Ucrânia. Uma diferença mínima, quase imperceptível, que não apagou a sensação de vitória e pertencimento.

Entre as atletas que viveram esse feito histórico, brilhou o nome de Maria Paula Caminha, anunciada como representante da Bahia, onde mora, mas nascida em Manaus, Amazonas. Sua participação no Mundial trouxe visibilidade para o Estado e evocou a memória de uma família que tem no esporte um legado. O sobrenome Caminha ecoa no imaginário dos amazonenses por meio de Caco Caminha, celebrado como um dos maiores nomes da natação estadual. Essa continuidade, entre passado e presente, mostra como trajetórias individuais podem inspirar novas gerações e alimentar sonhos coletivos.

O significado dessas pratas vai além das notas técnicas ou das estatísticas. O que se viu no Rio de Janeiro foi uma explosão de autoestima nacional. Em um momento em que o país frequentemente se debate entre crises econômicas e sociais, assistir a jovens ginastas brasileiras desafiando gigantes e arrancando aplausos de um público internacional trouxe alento e esperança.

Mas é inevitável o contraponto crítico: o investimento no esporte, sobretudo em modalidades fora do eixo futebolístico, continua sendo ínfimo no Brasil. A ginástica rítmica, assim como tantas outras modalidades, sobrevive quase sempre pelo sacrifício das famílias, pela resiliência das atletas e pela paixão de técnicos e apoiadores que fazem muito com quase nada. As medalhas conquistadas no Mundial, portanto, não são apenas resultado de talento: são fruto de resistência.

 

Amazonense baiana

Se houvesse maior política pública voltada ao esporte de base, quantas Marias Paulas não estariam hoje despontando em competições internacionais? Se a ginástica tivesse a mesma atenção orçamentária que o futebol, quantas vezes mais o Brasil poderia ouvir seu hino em mundiais e olimpíadas? O País precisa transformar a exceção em regra, investir de forma consistente e reconhecer o valor estratégico do esporte para a sociedade.

Maria Paula Caminha, 16 anos, neta de Milton de Aguiar Caminha, o Patuca Caminha, sobrinha-neta de Caco Caminha, foi para a Bahia aos 8 anos e mora em Aracaju (SE) desde os 13 anos. De Manauara e amazonense ela tem o nascimento e o DNA, mas, colocado o preto no branco, a formação esportiva dela foi feita toda em outras plagas.

O orçamento anual aprovado para 2025, em Sergipe, é de pouco mais de R$ 17,2 bilhões. O do Estado do Amazonas é de R$ 31,4 bilhões, com previsão de que chegue aos R$ 40 bilhões. Aracaju tem orçamento previsto, neste ano, de R$ 4,6 bilhões, contra os R$ 10,5 bilhões da Prefeitura de Manaus.

São dados oficiais. É só clicar nos links. Não é, portanto, por falta de dinheiro que o Amazonas e Manaus não investem no esporte. Porque quando se atinge a excelência, no chamado “esporte de alto rendimento”, caso da ginástica rítmica brasileira que disputou o mundial, isso é fruto de investimento na base.

O esporte é mais do que competição. Ele projeta o Brasil no exterior, gera visibilidade positiva, une cultura e identidade nacional, e fortalece a autoestima de milhões de brasileiros que se reconhecem nos feitos de suas atletas. Além disso, é ferramenta de inclusão social, educação e saúde pública. Negligenciá-lo é desperdiçar uma das mais poderosas formas de construir cidadania.

Por isso, as pratas conquistadas no Mundial de Ginástica Rítmica não podem ser tratadas apenas como um momento de festa passageira. Elas precisam ser entendidas como um marco e um chamado à responsabilidade. O Brasil mostrou que pode competir de igual para igual com potências tradicionais. Cabe ao poder público e às entidades esportivas transformar esse brilho em um projeto de futuro.

Enquanto isso, celebramos as meninas que, ao som de “Evidências”, fizeram história. Elas provaram que, mesmo com recursos escassos, o talento brasileiro é capaz de emocionar o mundo. O que falta, agora, é transformar emoção em política, para que o esporte deixe de depender de milagres individuais e passe a ser, de fato, uma prioridade nacional.

Veja, abaixo, em vídeo do canal SporTV disponível no YouTube, como foi a apresentação do Brasil na Série Mista do Mundial de Ginástica Rítmica:

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