
Cerca de meio bilhão de reais é o valor da tarifa paga nos ônibus em Manaus por ano
A tarifa técnica do sistema de transporte coletivo de Manaus chegou a R$ 8 por passageiro. O valor não é cobrado diretamente na catraca, mas representa o custo integral reconhecido para remunerar a operação das empresas concessionárias. O preço da passagem foi revelado nesta terça-feira (21/07), de passagem, pelo vice-governador Serafim Corrêa durante entrevista coletiva sobre a paralisação do sistema de transporte coletivo, ocorrida segunda (20/07).
Economista, advogado tributarista e auditor fiscal aposentado da Receita Federal, Serafim, que também é ex-prefeito de Manaus, foi polido na coletiva e evitou confronto com a Prefeitura, mas deixou escapar que a tarifa de R$ 8 é a referência utilizada para calcular o equilíbrio econômico-financeiro da concessão.
Na prática, o passageiro continua pagando R$ 5 na catraca. O vale-transporte custa R$ 6, a meia-passagem estudantil estadual é calculada em R$ 2,50 e diversas gratuidades permanecem em vigor. A diferença entre essas receitas e a tarifa técnica é coberta por recursos públicos – os subsídios.
Os números apresentados pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Amazonas (Sinetram), em litígio no Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região, ajudam a dimensionar essa conta. Segundo documentos atribuídos ao Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU), o custo mensal do sistema alcançou R$ 82.587.571,63 em agosto de 2025. No mesmo período, a arrecadação direta com tarifas foi de R$ 42.221.193, enquanto o subsídio necessário para fechar a conta chegou a R$ 40.311.363,41.
Isso significa que os passageiros financiaram 51,1% da operação, enquanto o poder público arcou com os 48,9% restantes. A matemática ajuda a compreender a dimensão do subsídio.
Com tarifa técnica de R$ 8, o custo informado equivale a cerca de 10,3 milhões de viagens remuneradas integralmente. Como a arrecadação efetiva foi de R$ 42,2 milhões, a receita média obtida pelo sistema ficou em aproximadamente R$ 4,09 por passageiro, abaixo da tarifa de R$ 5 paga pelo usuário comum. A diferença é explicada pelas gratuidades, meias-passagens, integrações e demais modalidades tarifárias previstas no sistema.
Caso todas essas viagens fossem pagas integralmente a R$ 5, a arrecadação subiria para aproximadamente R$ 51,6 milhões e o subsídio necessário cairia para cerca de R$ 31 milhões. A diferença entre esse valor e os R$ 40,3 milhões reivindicados demonstra o peso financeiro das gratuidades e dos demais benefícios incorporados à planilha tarifária.
Hoje, a Prefeitura de Manaus responde pela maior parte dessa complementação. O Governo do Amazonas acrescenta R$ 3 milhões mensais para custear a meia-passagem dos estudantes da rede estadual.
Somados, os dois entes públicos destinam aproximadamente R$ 43 milhões por mês ao sistema, o equivalente a R$ 516 milhões por ano.
Acrescidos aos R$ 42,2 milhões arrecadados mensalmente com tarifas, os recursos movimentados pelo transporte coletivo ultrapassam R$ 85 milhões por mês, projetando um volume superior a R$ 1 bilhão por ano.
A Prefeitura informa que já repassou R$ 284 milhões ao sistema, entre janeiro e junho de 2026, média de R$ 47,3 milhões mensais. O Governo do Estado anunciou nesta terça-feira o pagamento de R$ 18 milhões ao Sinetram, referentes às seis primeiras parcelas da compensação pela meia-passagem estudantil estadual.
Apesar desses repasses, o Sinetram sustenta na Justiça que o Município ainda possui um passivo de R$ 190,4 milhões. Após um pagamento extraordinário de R$ 22 milhões, a entidade afirma que o saldo devedor permanece em R$ 168,4 milhões.
A tarifa técnica de R$ 8 também coloca Manaus em posição singular no cenário nacional. Embora ela não corresponda ao valor pago pelo usuário, supera as maiores tarifas públicas cobradas atualmente nas capitais brasileiras. Florianópolis, por exemplo, lidera o ranking com R$ 7,70. Se o custo integral fosse transferido ao passageiro, Manaus teria a passagem mais cara do país.
O sistema de transporte coletivo da capital opera com aproximadamente 1.300 ônibus, dos quais 1.136 estão em circulação. Desde 2021, foram incorporados 519 veículos novos, equivalentes a quase 40% da frota total. Considerando valores médios de mercado entre R$ 880 mil e R$ 1 milhão por veículo climatizado, o patrimônio da frota gira em torno de R$ 1,1 bilhão.
A paralisação desta semana ocorreu após trabalhadores denunciarem atraso no pagamento de salários e benefícios. O Sinetram afirma que a arrecadação tarifária não é suficiente para custear folha de pagamento, combustível, manutenção, peças e fornecedores, sustentando que atrasos nos subsídios comprometem toda a operação.
Os números mostram que o transporte coletivo de Manaus deixou de ser financiado predominantemente pela tarifa paga pelo usuário. A operação passou a depender, de forma estrutural, de recursos públicos que já superam meio bilhão de reais por ano.
A discussão sobre o sistema, portanto, não se restringe mais ao valor da passagem cobrada na catraca. Ela envolve o custo efetivo da operação, a sustentabilidade do modelo de financiamento e a transparência da planilha tarifária que define quanto a sociedade paga, direta e indiretamente, para manter o transporte coletivo em funcionamento.
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