06/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O erro histórico dos responsáveis pelo desmonte-canibalismo do Festival Folclórico de Parintins

Publicado em 21 de janeiro, 2016

Muitos dizem que a briga atual, no Caprichoso, se deve apenas às facções comandadas por Márcia Baranda (abraçada com David Assayag) e Joilto Azedo, que tem como candidato à sucessão o artista e vice-presidente do bumbá, Rossy Amoedo (esquerda). Mas a coisa vai além

Muitos dizem que a briga atual, no Caprichoso, se deve apenas às facções comandadas por Márcia Baranda (abraçada com David Assayag) e Joilto Azedo, que tem como candidato à sucessão o artista e vice-presidente do bumbá, Rossy Amoedo (esquerda). Mas a coisa vai além

A História nem sempre premia os visionários, aqueles que conseguem antever os fatos antes que os demais, mas não perdoa a falta de visão. Ainda mais aquela causada pela falta de alcance cultural. O Festival Folclórico de Parintins está vivendo um processo de desmonte, cujas causas e causadores vão ficando cada vez mais evidentes, embora os protagonistas não percebam o peso do julgamento histórico que lhes está reservado.

O desabafo do presidente do Caprichoso, Joilto Azedo, pode ter de tudo. Menos mentira. É a revelação – corajosa revelação – de um pedaço dos bastidores do evento.

Para salvar a festa é preciso esperar menos da Prefeitura de Parintins e do Governo do Estado e mais da criatividade do povo parintinense e dos torcedores de Caprichoso e Garantido – que devem ser respeitados e incentivados cada vez mais. Basta ver o que houve, na outra ponta, com o Festival de Ópera, jogado para escanteio sem mais nem menos, deixando estrangeiros, que se programam com anos de antecedência para eventos assim, a ver navios. Idem para o Fecani. Idem para a Ciranda de Manacapuru. O Governo Melo, definitivamente, considera os eventos culturais supérfluos, embora, a julgar pelo que está ocorrendo na saúde, tenha o mesmo pensamento em relação a esse setor, tão indiscutivelmente fundamental.

A festa dos bumbás Caprichoso e Garantido é única. Diferente do Carnaval, por exemplo, que ocorre em todas as cidades brasileiras, só existe em Parintins. É o caso único em que a excelência, embora competindo com congêneres de várias plagas – como o Sairé, em Santarém (PA) -, atingida na Ilha Tupinambarana, no lugar de incentivada e premiada, é golpeada.

O Governo do Estado cortou, em 2015, 20% dos R$ 2,5 milhões oferecidos aos bumbás em 2014, alegando a necessidade de reduzir os custos para fazer frente à crise econômica e à previsão de queda de receita. Caprichoso e Garantido receberam, cada um, R$ 2 milhões. Agora, em 2016, o governador José Melo e o secretário estadual de Cultura, Robério Braga, querem reduzir o valor para 50% daquilo que foi repassado em 2015, ou seja, R$ 1 milhão para cada boi.

Somem-se as inflações de 6,41% em 2014 e mais de 10% em 2016 e veja-se o tamanho do rombo no financiamento público do Festival de Parintins.

Ninguém desconhece a crise econômica estadual e nacional. No plano internacional, Estados Unidos e Europa já saíram do sufoco e a China diminuiu o ritmo de crescimento, mas continua rondando os dois dígitos. O que se discute é o “vire-se” repentino, sem que a enorme máquina estatal se coloque em campo para garimpar alternativas.

Lord John Maynard Keynes chegou a defender o déficit público, isto é, que os governos gastassem mais do que arrecadam, em investimentos, na promoção do desenvolvimento, abrindo mão de impostos, no combate à estagnação.

O desmonte do Festival Folclórico de Parintins, porém, não ocorre apenas por diminuição das verbas públicas. Os presidentes dos bumbás até estão correndo atrás de novos patrocinadores e José Melo ainda não confirmou que o corte será tão raso. A questão é que há amante do boi, que se declara apaixonado pela festa, de olho grande nos R$ 8 milhões que constituíam a verba anual das duas agremiações – e que este ano ameaçam minguar para algo próximo dos R$ 5 milhões.

Até a década de 1980, com a festa sendo tocada apenas pelo esforço dos parintinenses, sem patrocínio privado e o incentivo governamental mínimo, nenhum item recebia nada para se apresentar. Hoje, além de esteticista, personal stylist, guarda-roupa, salão de beleza e até cirurgião plástico – há quem tenha mexido em seios, bumbum, abdômen etc., – cada item recebe um cachê para se apresentar no Festival Folclórico. Um item feminino, no Caprichoso, custa em torno de R$ 30 mil/ ano, entre cachê e custos de preparação.

Apresentador, levantador, sinhazinha, rainha do folclore, cunhã-poranga, tripa do boi, artistas de tribo e alegoria, maestro da Marujada/ Batucada, que são os itens, alegam não ser justo entrar tanto dinheiro na festa e eles, que são os protagonistas, ficarem de fora do butim. Têm razão. Mas, agora que o bolo diminuiu, aceitarão diminuir os cachês?

É folclórico, mas vale lembrar o apresentador do bumbá que foi expelido por ser “exigente demais”. Um empresário investia “pesado” nele, encarregando-se de comprar tecido e mandar confeccionar a fantasia com que entraria no “tablado”. O maior problema residia na hora de escolher o sapato. Nosso herói exigia desfilar de sapato branco e o empresário ameaçava entregar o posto de mecenas porque não tinha sapato que atendesse ao exigente – e duvidoso – gosto do locutor. Feitas as contas, a preço de hoje, esse “alto” investimento seria hoje algo em torno de módicos R$ 500. Isso mesmo: quinhentos reais, se muito.

Dá para perceber a enorme diferença de Festival Folclórico, que saltou dos módicos “tempos românticos” para o milionário estágio atual, por muitos confundido com o bilionário mundo dos artistas globais.

Um professor, que se postava à porta dos eventos do Caprichoso, exigindo de todos o pagamento de ingresso “para demonstrar o amor pelo bumbá”, entrou na Justiça Trabalhista e colheu indenização de R$ 160 mil por supostos oito anos de trabalho. Contou, para isso, com o testemunho de um grupo que também professava o mesmo amor.

A autofagia ocorre, faz tempo, no Garantido. Tal desmonte, que também atende pelo nome de canibalismo, reduz a pó a economia de Parintins e joga seus 110 mil habitantes numa perigosa rota de “salve-se quem puder”. Não fosse a firme atuação das Igrejas Evangélicas e das paróquias da Igreja Católica, a cidade estaria entregue à marginalidade. Embora o cenário, no campo da segurança pública, a julgar pelos crimes recentes, não seja dos melhores.

Essas e outras coisas revelam a morte progressiva da galinha dos ovos de ouro.

Parintinenses, poetas, seresteiros, namorados, amantes, empresários, políticos, homens de boa vontade, parafraseando Gilberto Gil (Lunik 9), correi! É chegada a hora de agir ou o boi vai pro brejo.

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