06/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Os buracos das ruas e as crateras na administração do Polo Industrial de Manaus

Publicado em 28 de setembro, 2015

Uma simples brisa que mexa com o dólar causa um furacão na economia do Polo Industrial de Manaus (PIM). Quando ocorre um temporal, como esse atual, o modelo precisa estar afinado, prestigiado, preparado para enfrentá-lo. Não está. Basta ver como os empresários e políticos não conseguem resolver a simples questão da conservação das ruas do distrito. Uma coisa tem a ver com a outra sim. Quando há buracos nas ruas que levam mais de 70% do PIB amazonense é porque o solo administrativo do modelo virou cratera faz tempo.

Alguém dirá, com conhecimento de causa, que a Zona Franca de Cólon, no Panamá, que funciona perfeitamente como fonte de abastecimento de quase toda a América Latina, também tem aspecto de terra arrasada. Ok. Mas lá é o quintal dos Estados Unidos e da China. Não é o caso do Brasil e da Amazônia.

O distrito industrial de Manaus deveria ser um local para o manauara levar os filhos a passear nos fins de semana. Aquele “point” que o sujeito, quando quer arrasar com um visitante do “Sul Maravilha”, leva para mostrar como nosso avanço civilizatório é expressivo. “Gramado e Canela? Que Serra Gaúcha nada. Venha conhecer as flores das ruas do distrito”.

Por que não?

Custa muito para a Moto Honda pagar um jardineiro para tomar conta do seu quarteirão? Ou para a Samsung, localizada naquele problema (trânsito, asfalto, traçado), que é a bola do Armando Mendes? Claro que não.

Bastaria alguém conversar, fábrica a fábrica, e uma autoridade garantir qualidade da calçada para a rua, deixando de lá para dentro a responsabilidade com a indústria, exigindo arborização e ajardinamento, para as coisas funcionarem.

A Amazônia tem as quatro estações. Observe e você verá o florescimento na primavera, o ressecamento no verão, as folhas caindo no outono e tudo recomeçando no inverno. Nenhum administrador, porém, permitiu que esse espetáculo se tornasse vívido e presente, além da vida do caboclo. Ah, sim, já plantaram umas flores, em alguns canteiros da cidade, mas esqueceram que elas precisam de cuidados diários e não anuais.

Um presidente da República presente, quando visse a revoada de políticos amazonenses a Brasília, em busca de mais prazo nos incentivos fiscais para a Zona Franca, pegaria o jatinho presidencial e viria a Manaus. “Mostrem-me o distrito industrial que abriga essas indústrias que vocês querem incentivar”. Como diria Noel Rosa, “com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?” Como ficaria a cara dos nossos governantes?

O manauara que recebe um visitante e este pede para conhecer o distrito da Zona Franca deve ficar com uma cara parecida.

Ruas esburacadas, que destroem 9% dos insumos a serem entregues à Moto Honda por um de seus fornecedores, não correspondem ao interesse que os políticos mostram pela Zona Franca. Placas de circuito impresso, que são a alma de eletroeletrônicos aos veículos de duas rodas, aguentam muito tranco, mas os sacolejos do distrito viraram exagero.

“Nós pagamos IPTU”, dizem os empresários. “A gente dá os incentivos”, afirma o Governo Federal. “Quem produz os grandes lucros é o povo manauara, em troca de baixos salários”, rebate a Prefeitura. “Queremos resolver, mas não repassam o dinheiro”, argumenta o Governo do Estado, que não sobreviveria sem o ICMS da indústria.

Os braços cruzam, no fim, e os buracos ficam.

O dólar, por outro lado, mexe um pouco mais fundo no modelo Zona Franca. O câmbio maluco deste ocaso do Governo Dilma exige uma ação reparadora. Coordenada e sistemática.

Não temos mais a lucidez e independência de um Samuel Benchimol ou o tino empresarial de um Nathan Xavier de Albuquerque. Mas temos bons cérebros, que continuam formulando bem e acompanhando os fatos. Que tal formar uma tropa de crise? Sugiro chamar para dirigi-la o economista Rodemarck Castelo Branco e o empresário Marcílio Junqueira. Acrescentaria Ronaldo Mota, da Fieam, Maurício Loureiro, do Cieam, e Ulysses Tapajós, da Prefeitura, mas Rodemarck e Marcílio que chamem o resto da equipe.

O Amazonas está afundando, com a derrocada do PIM, cujas perdas no primeiro semestre ultrapassaram os 15%. Ou se mete a mão na massa para estudar fundamentos e sugerir mudanças profundas ou a inércia do Governo Dilma ceifará o único modelo que, na prática, defende a Floresta Amazônica. E o pão de mais de 100 mil famílias manauaras.

A visão fatídica de mortos-vivos perambulando nas ruas de Manaus, que o historiador Antônio Loureiro descreve como característica do crash da borracha, não pode retornar no pós-Zona Franca. É apocalíptico demais? Tomara.

Caldo de galinha e precaução não fazem mal a ninguém. Nem a vigilância e os cuidados sobre um Polo Industrial que produz tantos bilhões todos os anos.

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