
Zona Franca, Bolsonaro e a simbologia do ataque ao principal modelo de desenvolvimento da Amazônia Ocidental
O presidente Jair Bolsonaro, durante a live semanal desta quinta-feira (21/05), ameaçou a Zona Franca de Manaus (ZFM). “Senador Omar (Aziz), senador Braga, vocês que ficam falando muito aí no Senado, já pensou o que seria do Amazonas sem a Zona Franca?”. Ou seja, ou Omar e Braga ficam pianinho na CPI da Pandemia ou o presidente pode se juntar ao ministro da Economia, Paulo Guedes, e eliminar o modelo.
Há muito a refletir sobre isso. Veja o vídeo:
Quem falasse mal da ZFM assinava sentença de morte política no Amazonas. Basta ver o que aconteceu com José Serra, quando candidato a presidente da República. Ou a Lula, cujos aliados navegaram na prorrogação do modelo para obter folgadas vitórias junto ao eleitorado amazonense.
Hoje, sob Jair Bolsonaro, todos parecem indiferentes aos aspectos fundamentais do modelo:
A ZFM é responsável pela absorção de mão de obra que, de outra forma, estaria voltada para a exploração da Floresta Amazônica. E isso, nem precisaria dizer, representa desmatamento, risco às populações tradicionais e à fauna única da região.
O Estado com a maior economia nacional, São Paulo, aufere benefícios diretos: para cada dólar investido na ZFM, empresas paulistas ganham outros três. E a conta é antiga.
Outro aspecto é a substituição de importação. Produtos manufaturados no Polo Industrial de Manaus (PIM), se importados, ficariam inacessíveis à maioria da população brasileira. Basta lembrar que TVs e celulares são lançados na Coreia ou nos EUA e semanas depois estão sendo produzidos na capital da Zona Franca.
Os amazonenses, porém, não podem se queixar dos ataques. Omar Aziz, o presidente da CPI da Pandemia, e Eduardo Braga, integrante da mesma, têm sido duríssimos em relação ao presidente da República e seus ministros. Mas nenhum deles responde pelos mais de 70% que a ZFM representa para a economia amazonense.
A estupidez de Bolsonaro, que mostra desconhecer a importância do PIM para o País, tem fundamento. Por que não ameaçar, se o Amazonas aceitou como superintendente da Suframa o general Algacir Antonio Polsin, que não tem qualquer relação com o modelo? E que, desde a posse, não dá a mínima para a opinião pública amazonense?
O Amazonas, por seus representantes, abandonou a ZFM. Deixou que o modelo fosse fragilizado.
O PIM é um trágico retrato do Brasil atual. Frágil. Vingativo. Pequeno. Fundado na personalidade bolsonarista.
A Zona Franca foi atacada e os partidários de Bolsonaro ousaram justificar a ameaça. Isso ultrapassa todos os paradigmas de tolerância política experimentada pelo Estado. Não bastasse que o presidente demitiu um superintendente da Suframa e o lançou candidato a prefeito de Manaus. Demitiu o ministro Pazuello e o lançou a governador do Amazonas – aventura que, pelo que tudo indica e felizmente, não será perpetrada.
Presidente da República é eleito para administrar o bem público. Não é dono do País. Há limites para tolerância e permissividade. Todos foram ultrapassados. Cinismo político e oportunismo travestidos de pragmatismo são intoleráveis. Não dá para aceitar a passividade atual. O Amazonas e o Brasil são maiores. Se não reagem as instituições, que reajam as consciências. Esperem e verão.
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