
Discriminação a infectados pelo Coronavírus leva população a atos de selvageria que não condizem com o ser humano
O filme Ben-Hur, clássico de 1959, vencedor de 11 Oscars, mostra uma cena das mais duras do cinema. É quando o protagonista (Charlton Heston) reencontra a irmã e a mãe, leprosas, reclusas, trapos humanos. Os acometidos pela lepra eram extirpados da vida em sociedade. O filme remete a uma realidade do início da Era Cristã, por volta de 2020 anos. Agora, na crise do Coronavírus, o tratamento aos infectados, discriminatório, traz de volta semelhante repugnância.
O médico e vice-reitor da Ufam, Jacob Cohen, que fez questão de relatar o resultado positivo, feito na Fiocruz, foi discriminado. Um filantropo, autor de projeto que há 20 anos opera catarata no interior do Amazonas, foi desrespeitado nas mídias sociais.
Graças à persistência de décadas de Jacob, o Oftalmologia Humanitária permanece de pé. E grátis. É uma filantropia que atravessa décadas. Ele é humano, como poucos. A ponto de falar abertamente sobre sua doença, passos e sintomas. Para quê? Para servir de caminho aos demais e esclarecer a opinião pública. Com clareza e de peito aberto.
Herói merece honrarias, não desrespeito.
A discriminação aos infectados do Coronavírus, a ponto de as autoridades se negarem a divulgar os nomes, é injustificável. Todos sabem que o distanciamento protege do contágio. Da mesma forma, o uso de máscara por quem tem o vírus. Além do mais – mais, muito mais importante – é uma doença que se vai em poucos dias, com agravantes para apenas 5% dos infectados.
Por quê marcar um médico? Como justificar discriminá-lo? Se expõe na linha de frente, promovendo, ele próprio, a recomendação de que os demais fiquem em casa. Conhece como ninguém o risco e, ainda assim, cumpre o Juramento de Hipócrates, o compromisso do médico, e se mantém firme.
Médicos agredidos e com medo de sair às ruas com a roupa branca? Que imbecilidade. Bestial. O mesmo agressor poderá necessitar do atendimento do agredido. E ele certamente o dará, com dor no coração, mas sem discriminação.
Um médico, vendo um doente precisando de entubação, na maca, à sua frente, vai entubá-lo, mesmo estando sem o equipamento adequado. É reflexo. É o que ele estudou para fazer. E ainda vai ser discriminado nas ruas?
O “efeito manada”, a ação coletiva diante do pânico, precisa ser contida. Cenas como os clientes de supermercados lotando carrinhos para acumular – e negociar! – álcool em gel são lamentáveis. Ou o comerciante inescrupuloso, que reajustou preços de máscaras e álcool em gel. Ou a multidão que invadiu ferozmente um shopping de Recife (PE), após anúncio de 50% de desconto em todo o estoque, ignorando as medidas protetivas.
Retrocedemos. Mas todos estão em casa. Reflitamos. “A história repete apenas o que é preciso”. Parece que não aprendemos a lição. Veja, abaixo, o poema de K.O’Meara, feito durante a Peste de 1800: