04/SET 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Camelôs, o grande teste para Amazonino

Publicado em 04 de janeiro, 2012

O prefeito Amazonino Mendes tem dito que não é candidato à reeleição. É um jogo. O ônus da candidatura é grande para ele e quanto mais para a frente empurrar a disputa melhor. Mas há vantagens se estiver mesmo falando sério e a primeira delas é poder governar a cidade sem precisar fazer média com “A” e “B”. Uma boa forma de mostrar que está falando sério é se organizar, desde agora, os camelôs do Centro de Manaus.

No final de 1991, há 20 anos, portanto, o então prefeito de Manaus Arthur Virgílio retirou os ambulantes. Tinha em mãos pesquisas que apontavam queda brusca no repasse do ICMS, por conta dos mais de 10 mil camelôs que atuavam no Centro, e estava sendo pressionado por comerciantes regulares. Proliferavam depósitos abarrotados de bugigangas. O empresário Jumbo Miranda, do Sukatão, tornou-se bilionário com esse exército de mão de obra gratuita e outros o seguiam a passos largos.

A retirada foi feita pela Polícia Militar, com anuência direta do então governador interino, Vivaldo Frota. Seguiu-se uma guerra surda entre camelôs, insuflados pelos ricos fornecedores, e a guarda municipal. Nesse meio tempo, Arthur retirou em definitivo as lixeiras viciadas que existiam atrás da antiga Lobrás, na esquina da Eduardo Ribeiro com a Henrique Martins e na Marcílio Dias com a Praça da Polícia, entre outros pontos do Centro.

Bastou, porém, que o prefeito seguinte baixasse a guarda, fizesse vistas grossas e os ambulantes voltaram em massa. Hoje, eles fazem da Eduardo Ribeiro um beco qualquer e, diante da Copa do Mundo de 2014, Amazonino – que sucedeu Arthur na Prefeitura e foi responsável pela volta deles – tem o desafio de retirá-los.

Todos sabem que a retirada dos camelôs se tornou um calcanhar de Aquiles para Arthur Virgílio, em suas pretensões de cargos no Executivo. Nem 20 anos nem a constatação dos problemas desse comércio – que retira do trabalhador os direitos ao INSS e ao FGTS ou qualquer outro formal, transformando-o numa espécie de escravo branco do fornecedor – mudaram essa realidade.

Amazonino, prudentemente, sabe que não pode simplesmente retirar os camelôs. O primeiro passo é construir uma alternativa. Chegou a montar um camelódromo improvisado, no porto de Manaus, mas o Ministério Público Federal e a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antac) barraram suas intenções – até porque o Roadway é um patrimônio histórico e precisa ser protegido.

A questão é que o camelódromo definitivo via sendo construído a passos muito lentos. E o tempo, antes da Copa, corre como numa ampulheta há muita virada de cabeça para baixo.

Os camelôs são apenas um símbolo. Candidato à reeleição, Amazonino não conseguirá sequer retirar os ônibus executivos excedentes, que invadiram a cidade em sucessão aos alternativos e às Kombis Lotação. Desautorizará o necessário “choque de ordem”. Não poderá sequer combater os abusos dos permissionários de locais públicos, como o Parque Cidade das Crianças e a Ponta Negra, onde os preços praticados são escorchantes – um coco a R$ 4 é um absurdo.

Se não for candidato, o prefeito tem a obrigação de agir desde já contra tudo isso. Começando por retirar os “fixos” porque, como repete o poeta Aldísio Filgueiras, Manaus é o único lugar do planeta onde os ambulantes têm pontos fixos. Há inúmeras edificações no meio da rua, representando um obstáculo para bombeiros e ambulâncias, entre outros transtornos, fora o fato de ocuparem espaço que deveria ser de todos.

Depois, não candidato, pode também eliminar os “industriais” do ramo, que têm dezenas de bancas espalhadas no Centro e cobram de quem as ocupa.

Amazonino sabe muito bem que todo político precisa de poder ou perspectiva de poder, senão até seus auxiliares mais próximos começam a se rebelar e fica difícil conduzir a administração. Não poderá ficar muito tempo sem definir sua situação, embora tenha até junho, prazo final das convenções partidárias, para decidir se disputa ou não a reeleição.

Mesmo se não disputar terá que trabalhar muito para virar um grande eleitor, pairando acima dos candidatos e sendo cortejado por todos, como parece sonhar.

Manaus clama por um prefeito que aja com firmeza e não se paute apenas por interesses eleitorais que se fortalecem a cada dois anos.

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