O Caprichoso completa hoje 98 anos. Meu tio, Luiz Gonzaga, deu o sangue para mantê-lo vivo, entre 1937 e 1967. Outro tio, Santarém, foi o fabricante original da Dona Aurora e tocador de banjo quando o bumbá saía às ruas. Meu primo, Zeca Xibelão, nosso eterno tuxaua, dá nome ao curral. Meu irmão, Rubem dos Santos, foi presidente, em 1988/1989. Todos esses já se foram e comemoram a data juntos, vestidos de azul, velando por nós. Fui apresentador em 80/ 81/ 87/ 88 e 89. Tenho obrigações aí, portanto, por mim e por meus maiores, que jamais esquecerei.
O azul e branco tem uma história que se confunde com a dos bumbás de Parintins. Sim, inclusive com a história do Garantido, pois os dois se fundem no começo do Século XX, quando um grupo de meninos criou o Bumbá Brilhante, de onde Lindolfo Monteverde saiu para criar o Garantido e que depois (o Brilhante) recebeu o nome de Caprichoso.
Há muitas histórias que circundam nosso bumbá. Conto, para quem não sabe, um pouco sobre o que fez Luiz Gonzaga.
O bumbá era uma coisa muito simples. Os principais obstáculos, longe dos problemas que hoje exigem milhões para solucioná-los, eram o pano para fazer a farda da Marujada de Guerra, o veludo para cobrir o boi e o pó brilhante para dar o toque final no “couro”. O resto, minhas tias, com Izolina, Osmarina e Guajarina à frente, faziam na unha.
Para vencer os desafios, naquela Parintins bucólica, Luiz Gonzaga, que era pescador de mão cheia, parceiro de meu pai (hoje com 93 anos), levava o melhor peixe para os dois padrinhos abonados do Caprichoso: Elias Assayag (pai de Simão Assayag, avô de Daniela Assayag) e Raimundo Dejard Vieira. Quando os barcos dos dois apareciam no tilheiro em que ele exercia sua outra profissão, a de calafate, meu tio garantia segurança, celeridade e não cobrava a parte dele. Tudo para que, em junho, um desse o pano para a Marujada de Guerra, outro o veludo e o pó brilhante para cobrir o boi e ambos bancassem a festa da “morte”, quando a cidade se refestelava na mega feijoada que tia Izolina cozinhava (hummmm) com os bois que eles doavam.
Aqui vale um PS: ninguém ganhava nada. No máximo, no máximo, o bumbá emprestava prestígio e autoridade a meu tio, que usava esse patrimônio para tirar da cadeia um amigo/brincante que fizesse alguma pequena bobagem ou para corrigir os rumos de famílias ameaçadas por puladas de cerca.
Luiz Gonzaga adoeceu. Contraiu tuberculose, doença fatal na década de 1960. A família tentou convencê-lo a não “botar” o Caprichoso na rua e, pior ainda, não brincar de tripa da Dona Aurora (boneca de pano como os bonecos de Olinda-PE). Teimoso, ele fez os dois.
O bumbá voltava para o curral, no quintal dele, na rua Rio Branco, e o povo esperava para a apresentação final, que durava mais de uma hora, antes do recolhimento. Dona Aurora dançou, dançou, dançou e, de repente, parou de dançar. Levantaram-na e meu tio estava tossindo muito. Não parou mais, até o fim.
Não conheço ninguém que tenha dado tanto ao Boi Bumbá Caprichoso.
Fiquei triste, de uma tristeza profunda, ao saber que o ponto alto da comemoração dos 98 anos do Caprichoso será um show do cantor Elimar Santos. O “boi da tradição” costuma produzir em casa suas atrações e é uma derrota para uma história tão recheada de personagens, num ambiente com tantos artistas, não ser capaz de produzir um espetáculo autóctone, à altura da data.
Nem assim, porém, deixo de comemorar. Meu coração está cheio de graça/ de azul e branco saltitante nessa praça/ no meio do povo, o meu touro é mais feliz/ Amazônia virou mundo/ Parintins é meu País.
Parabéns, querido Caprichoso.
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