Foi uma concessão, um “jeitinho brasileiro”, o reajuste da tarifa de ônibus em Manaus para R$ 2,75. O que ouvi, em várias entrevistas, é que o preço só seria reajustado quando os novos ônibus estivessem circulando integralmente. Agora, diante da pressão dos empresários, a Prefeitura aceitou reajustar o preço sem que o processo de renovação da frota esteja concluído. A questão é que o transporte coletivo em Manaus é tão ruim que não vai ser ajeitado com concessões. Ou se joga duro com eles ou nada feito.
Qualquer comerciante se sente no paraíso quando descobre um negócio em que o dinheiro entra à vista, em cash. Os empresários de ônibus têm um filão ainda melhor porque o usuário ou paga à vista, na roleta, ou raspa o tacho do minguado salário para “encher” um cartão pelos 15 ou 30 dias seguintes ou, de outro lado, o empresário é que paga adiantado pelo vale transporte. É mais que qualquer um capitalista pediu a Deus.
Ocorre que as empresas se declaram quebradas, toda vez que aparece uma crise. Só não choram miséria na hora de formar aquele paredão de vereadores que defendem os interesses delas, sem nenhum pudor, na Câmara Municipal.
Sobre essa questão, digamos, parlamentar, vale uma reflexão para os vereadores que optam por defender os empresários de ônibus: o deputado federal Francisco Praciano, quando vereador, foi relator de uma CPI em que descobriu que o ex-prefeito Alfredo Nascimento cobrou R$ 0,24 a mais de cada passagem de ônibus durante anos. O resultado é que, apesar de apoiar Alfredo como candidato ao Governo do Amazonas e não ter conseguido destaque na Câmara Federal, Praciano foi reeleito, ano passado, como deputado federal mais votado do Amazonas e agora é candidato a prefeito. Com chances.
Moral da história: defender o povo que sofre todos os dias no sistema de transporte coletivo caótico, representa mais eleitoralmente que o financiamento dos empresários de ônibus. Se eu fosse vereador ou ocupasse qualquer cargo político e quisesse continuar na política pensava seriamente nisso.
Transporte coletivo é uma coisa muito séria. Cada vez mais cidades, Estados e países estão oferecendo aos seus cidadãos sistemas decentes. Se torna comum a parada de ônibus com um cronômetro digital regressivo dizendo “o próximo ônibus passa em … tantos minutos”. Isso é possível em qualquer lugar. A tecnologia permite. Até em Manaus.
O povo já sabe que político faz qualquer coisa que empresário de ônibus quiser, em ano pré-eleitoral. Mas o povo está tão sofrido que não parece disposto a suportar isso.
Vamos ficar de olho.