
A BR-319 tem potencial para reduzir custos logísticos, fortalecer a competitividade do Polo Industrial de Manaus e integrar de forma mais eficiente Amazonas e Roraima ao restante do Brasil.Foto: Divulgação
A montagem das chapas para a eleição de deputado estadual no Amazonas segue uma lógica que mistura matemática eleitoral e força política. Cada partido pode lançar até 25 candidatos, mas o número, por si só, pouco revela sobre as reais chances de sucesso.
O fator determinante é outro: a presença dos atuais deputados estaduais.
Com mandato, estrutura, acesso a emendas parlamentares e visibilidade institucional, esses nomes partem em vantagem significativa. A disputa, portanto, começa com um desequilíbrio estrutural que condiciona a formação das chapas.
No PSD, sob liderança de Omar Aziz, a composição já indica robustez. Mayra Dias, Rozenha e Wilker Barreto formam a base, que deve ser reforçada por Bosco Saraiva e pelo vereador Eurico Tavares. Trata-se de um grupo com densidade política e capilaridade eleitoral.
No PL, Débora Menezes, Cabo Maciel e Delegado Péricles permanecem como peças consolidadas. Ao lado deles figurarão o pai de Roberto Cidade Filho, Roberto Cidade, e o marido de Joana D’Arc, Aldenor Lima.
O movimento mais relevante, no entanto, vem do governador Wilson Lima. Ao optar por permanecer no cargo, ele sinalizou a manutenção da base aliada na Assembleia Legislativa. A decisão reduz incertezas institucionais, mas amplia o desafio de acomodação política.
Dos 24 atuais deputados estaduais, ao menos dois — Roberto Cidade e Joana D’Arc — devem disputar vagas na Câmara Federal. Somados aos três do PSD e três do PL eles deixam 18 vagas para o grupo ligado ao governador.
Esses parlamentares precisam ser distribuídos em siglas como a federação União Progressista. A tarefa é ainda mais complexa diante da diretriz informal atribuída ao governador: limitar a aproximadamente seis candidatos por partido.
O resultado é um cenário de forte competição interna, no qual a definição das chapas dependerá diretamente das decisões tomadas até o prazo final de sábado, 4 de abril, data-limite para filiações e desincompatibilizações. Antes disso, qualquer projeção tende a ser precipitada.
Paralelamente à reorganização política na disputa da Assembleia Legislativa, um tema estrutural volta ao centro do debate: a BR-319.
Com o edital de licitação do chamado “trecho do meio” pronto, abre-se uma nova possibilidade de avanço para uma obra que, há décadas, simboliza tanto a promessa quanto a frustração do desenvolvimento regional.
A controvérsia que cerca a rodovia carrega um componente histórico que beira o absurdo. A estrada foi integralmente asfaltada em 1976. Ainda assim, ao longo dos anos, consolidou-se, em documentos oficiais e decisões administrativas, a narrativa de que seu asfaltamento representaria uma intervenção inédita sobre a Floresta Amazônica. “Vão derrubar a floresta para abrir a rodovia”, virou mote dos opositores.
O registro desse equívoco — formalizado em processos e pareceres — constitui um dos episódios mais emblemáticos da dissociação entre realidade e decisão pública no País.
A eventual retomada do asfaltamento recoloca o debate em termos objetivos. A BR-319 tem potencial para reduzir custos logísticos, impactar preços no comércio, fortalecer a competitividade do Polo Industrial de Manaus e integrar de forma mais eficiente Amazonas e Roraima ao restante do Brasil.
A frase do ex-presidente Washington Luís — “governar é construir estradas” — permanece atual.
O Amazonas já perdeu oportunidades históricas. A Zona Franca, isolada geograficamente, desenvolveu-se aquém do potencial que teria em outras regiões do Brasil.
A BR-319 representa mais do que uma obra de infraestrutura. É uma nova chance.
Possivelmente, uma das últimas em escala comparável.
“É longa a estrada que leva da intenção à execução”, diz o ditado popular. Fica a torcida para que, desta vez, a execução acompanhe a intenção.
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