
O manifesto dos igarapés pede ação de massa e se une às diversas manifestações, como a da AMA, em defesa do igarapé do Goiabinha. Foto: Divulgação AMA
Um dia, em algum lugar, o mundo ainda vai se perguntar como Manaus — a chamada Paris das Selvas — conseguiu transformar água em esgoto. E por que uma cidade quente, de médias acima dos 30 graus, abriu mão de seus balneários de águas avermelhadas, correntes, frias e de areia branca, que um dia foram orgulho e refúgio.
Este manifesto é um grito antes do colapso — um pedido de socorro antes que o diagnóstico de insanidade ambiental seja definitivo.
Silvino Santos, o cineasta contratado por J. G. Araújo — um dos grandes empresários do ciclo da borracha —, registrou uma cena que hoje parece pertencer a outro planeta. No filme No Paiz das Amazonas, de 1922, resgatado pela professora Selda Vale da Costa (Ufam), remadores passam sob as pontes da Avenida 7 de Setembro, enquanto homens de terno branco, elegantes, observam das margens.
A imagem não deixa dúvidas: era o Igarapé de Manaus. Limpo, vivo, navegável. A cidade cresceu sobre ele, mas também o condenou.
Das margens daquele mesmo igarapé, onde corria água cristalina, começaram a brotar palafitas. Até a década de 1970, centenas delas ocupavam o leito e o entorno, transformando o curso d’água em destino de esgoto e fonte de abastecimento. A poucos passos dali, erguia-se o Palácio Rio Negro, símbolo do poder e da riqueza. Era o contraste perfeito da insensatez: luxo e lama coexistindo, separados por poucos metros.
Há ironias que doem mais que feridas. A atual sede da Secretaria Municipal de Educação — a Educação! — está construída sobre o que foi o Balneário do Parque 10, um dos primeiros espaços destruídos pela falta de cuidado ambiental da cidade. Onde antes crianças nadavam e famílias se reuniam, hoje há concreto e esquecimento.
Outro retrato cruel da decadência é o igarapé do Mindu. Em pleno cruzamento da Ephigênio Sales com a Mário Ypiranga, o esgoto forma redemoinhos fétidos, num espetáculo diário de descaso. Metros antes, o mesmo Mindu foi urbanizado: recebeu pistas de corrida, pontes e árvores estrategicamente plantadas — não para embelezar, mas para mascarar o odor.
O igarapé de Manaus nasce no quadrilátero entre as avenidas Tarumã, Leonardo Malcher, Joaquim Nabuco e Major Gabriel. O Mindu, mais vasto, brota na Reserva Ducke, no bairro Alfredo Nascimento e em outros pontos. Suas nascentes estão mapeadas, algumas até preservadas. Mas isso pouco importa se as águas que descem até o coração da cidade seguem morrendo aos poucos, sufocadas por lixo e concreto.
Salvar um igarapé é como o beijo que desperta Branca de Neve. Quando um deles renasce, a consciência ambiental desperta junto. O verde volta, o ar muda, as pessoas reaprendem o valor da água limpa. Cada igarapé recuperado é uma vitória que inspira o próximo — uma reação em cadeia capaz de reverter o curso da degradação.
O perigo, porém, vai muito além das margens. Os igarapés de Manaus são as veias que alimentam o rio Negro, e o Negro, por sua vez, deságua no rio Amazonas — o maior sistema hídrico do planeta. A ecologia ensina: a poluição começa quando o ambiente já não consegue mais digerir a sujeira humana. O que antes era um incômodo visual se torna um colapso silencioso.
Alguns moradores despejando lixo causam dano limitado. Mas uma metrópole de mais de dois milhões de habitantes, jogando toneladas de resíduos nos igarapés e no Negro, representa um risco real até para o gigante amazônico.
Ainda há tempo, mas o relógio corre.
Salvar os igarapés é mais que limpar a água — é recuperar a memória, o orgulho e a identidade de Manaus. É resgatar o elo entre cidade e natureza que fez da capital um símbolo mundial.
As águas que correm sob nossos pés são as mesmas que um dia moldaram nossa história.
Ignorá-las é esquecer quem somos.
O Manifesto dos igarapés é um grito: salvemos os igarapés de Manaus.
Eles são as veias que irrigam a vida — e o último fôlego de uma cidade que ainda pode renascer.
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