22/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Chico da Silva 80 anos, a música está no berço

Publicado em 20 de maio, 2025

Chico da Silva 80 anos

Chico da Silva 80 anos, ao lado do neto Samuel, 6, campeão brasileiro de xadrez

Uma festa para poucos – somente os que insistiram e furaram a cerca de jurubeba que ele sempre impôs (“aniversário é coisa íntima”) –, marcou os 80 anos de Chico da Silva. Era quinta (08/04) e o clima foi o mais caloroso possível. Chico estava alegre, falante e saíram histórias fantásticas, desde os memoráveis confrontos de Caprichoso e Garantido, na Parintins da década de 1960, até os bastidores da carreira que o Brasil conhece e admira.

Chico, nascido em 1945, deixou Parintins aos 16 anos, para estudar na Escola Técnica Federal do Amazonas, sob as bênçãos de dona Guajarina, mãe adotiva. Depois, mesmo à revelia dela, partiu para São Paulo, começou como torneiro mecânico e, dentro da noite, criou o ambiente para alavancar a carreira no samba.

 

Pai Luthier

Onde o talento foi forjado? O pai, Antonio Soares da Silva, conhecido como “Tamborete”, tocava e construía instrumentos musicais, como cavaquinho, banjo e violão. Sem a mãe, dona Edvirgem Ferreira da Silva, que faleceu quando tinha três anos, ele acompanhava o velho na noite parintinense. E os dois, invariavelmente, terminavam nos bastidores do Caprichoso, mais cedo, e do Garantido, na madrugada. Entre repentes de Raimundinho Dutra (Caprichoso), Ambrósio e Vavazinho (Garantido), todos falecidos, Chico robusteceu a musculatura musical.

Aos 11 anos (1956), Chico perdeu o pai luthier e foi adotado pela professora Guajarina. Ela morava na travessa Rio Branco, praticamente em frente à casa de Luiz Gonzaga, fundador do Caprichoso. Daí que o compositor diz, abertamente, que é de ambos os bumbás: do azul e branco como torcedor e do vermelho e branco como admirador das toadas.

A maturação do talento ocorreu na noite paulista, em cuja periferia o samba é muito forte, até o encontro com nomes como Jair Rodrigues, Benito di Paula e Paulo Sérgio. Ele insistiu com gravadoras, fez plantão nas antessalas dos executivos, até enternecer uma secretária mais bondosa: “Atenda o rapaz. Ele já está aí há semanas, esperando para falar com o senhor”. E foi aí que surgiu o primeiro compacto duplo com “Chegou meu boi Garantido” de um lado e “Não esquente a cabeça” de outro.

 

Auge na TV Globo

Parintins, que só recebeu TV na década de 1980 (Ajuricaba, Rede Globo), vibrou com o filho ilustre no Fantástico, líder absoluto. Cantou “Convite a Roberto Carlos”, um pot-pourri com jogo de palavras das músicas mais conhecidas do rei. Depois veio o primeiro lugar nacional de “Sufoco (clique para ver como Zeca Pagodinho é fã dessa música)”, parceria com o santareno Antonio José, na voz de Alcione. E o destaque em “Os Trapalhões”, de Renato Aragão e sua trupe, com “Esquadrão do samba (veja no programa)”, além de várias aparições no “Globo de ouro”. Neste último programa, aliás, ganhou o segundo lugar, como intérprete, de “É preciso muito amor”. Foi a primeira música gravada de Noca da Portela, parceria com Tião de Miracema. Só lembrando que a parada musical de sucessos reservava o primeiro posto para o imexível Roberto Carlos.

Hoje, Chico da Silva 80 anos é um consagrado compositor de toadas para Caprichoso e Garantido. Com senso rítmico perfeito, ele navega pelas histórias dos bumbás. “Raízes de um povo” no azul e “Sonho de liberdade”, no vermelho, são bons exemplos. Celebrou o amor com “Toada de amor” no Caprichoso e “Vermelhou geral” no Garantido, além da consagradíssima “O amor está no ar”, gravada por ambos. Foi por causa dele que os bumbás criaram a regra de “compositor de um, não entra no outro no mesmo ano”, depois que concorreu contra si mesmo em “Toada (letra e música)”, item 11 do julgamento, em 1991, com “Escudeiros do meu boi bumbá” versus “Dois pra lá, dois pra cá”.

 

Queixas

Chico da Silva tem muitas queixas. Uma das mais recorrentes é que o Caprichoso não incluiu no setlist, jamais, a “Toada do cuirão” (“É aprendendo a caçar, a nadar a pescar que se cria o caboco/ vivendo no mato, na beira do rio/ a juticultura perdeu a estrutura e virou desafio/ mas o tucumã, lá no campo é fartura e ninguém faz plantio…”), que considera um clássico. Só o fez no volume 2 da antologia “As cem toadas da nossa história”. É onde ele brinca com o tempo de menino: “Caba curumim deu no abieiro/ eu vou de pajurá” – abiu só cai no chão se estiver podre ou bichado e é preciso subir no pé ou cutucar com vara para derrubá-lo, enfrentando as cabas que atacam em enxame. Daí a preferência pelo pajurá, hoje um fruto raro, que cai quando amadurece.

O compositor consagrado ainda aguarda que o Caprichoso use a toada “A chama azul” (clique aqui para ouvir), que ficou na prateleira devido aos dois anos da pandemia, quando não houve Festival de Parintins.

O compositor de “O pandeiro é meu nome”, parceria com Venâncio (que criou “O último pau de arara”, com Corumba e José Guimarães), aos 80 anos, permanece ativo e compondo. É autor solo de “Cidade de Lindolfo” e “Vermelhou geral”, no álbum “Segredos do coração” (Garantido/ 2024). Tem cultivado parcerias e planeja gravar alguns dos muitos sambas inéditos que guarda no extenso baú.

Com o neto Samuel Silva, 6 anos, no colo, Chico apaga as velinhas fazendo planos de adolescente. Samuel acaba de se tornar campeão brasileiro de xadrez, na categoria sub-6, no Festival Nacional da Criança (Fenac) 2025. Ativo e brincalhão, o menino divide com o avô a restritíssima festa de aniversário. Esses dois vão longe!

Feliz 80, grande Chico da Silva.

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