
A maldição do IPTU teve papel importante na vitória de David Almeida (ao microfone), que comemorou ao lado do vice-governador Tadeu de Souza (à esquerda)
Eleição de 2004, último debate, na TV Amazonas/ Globo. Serafim Corrêa, tido como azarão na disputa da Prefeitura, saca um carnê do IPTU e desconcerta o adversário, Amazonino Mendes. “Você não paga nem o IPTU da sua casa”, disse. Serafim virou prefeito (2005-2009). Eleição 2024, primeiro debate, TV Norte/SBT. Renato Jr. afirma que Maria do Carmo e a Fametro não pagam o IPTU. Ela reage com uma pérola: “Eu não pago o IPTU, mas qual é o empresário que paga?”. Já há quem diga que não pagar o IPTU virou uma maldição eleitoral em Manaus.
O episódio do IPTU serviu para mostrar uma Maria do Carmo diferente da imagem cordata e prestativa de reitora da Fametro. Ela se defendeu duramente e, em vários momentos, se mostrou mais “braba” que o próprio Alberto Neto.
O prefeito David Almeida (54,59% dos votos) venceu. Os votos (576.171) vieram, na maioria, das zonas Norte e Leste, as mais populosas da cidade. Alberto Neto (45,41%) venceu em alguns bairros importantes, das classes A/B, como Dom Pedro e Parque 10. Obteve 479.297 votos, diferença de 96.874 para o vencedor.
Falaram alto as obras realizadas na gestão David Almeida nas zonas Norte e Leste. O general eleitoral asfalto – bem mais forte que cabo eleitoral – trabalhou pesado. Até o famoso Ramal do Brasileirinho foi asfaltado. Outra obra que produziu efeito eleitoral foi o Parque Gigantes da Floresta. O prefeito já anunciou que fará algo semelhante, em outra zona da cidade.
Em 1996, Alfredo Nascimento enfrenta Serafim Corrêa, na corrida pela Prefeitura. Governo (Amazonino) e Prefeitura (Eduardo Braga) decretam ponto facultativo na sexta. A classe média viaja. Os balneários ficam cheios. Alfredo ganha com 235.508 votos (50,27%) a 232.950 (49,73%). A diferença foi de apenas 2.558 votos, vitória de Alfredo, com abstenção de 23,50% (147.809).
A abstenção de 2024, no 1º Turno, foi de 19,37% (280.136) e no 2º Turno de 23,39%, ou seja, nada menos que 338.252 eleitores deixaram de ir votar. Não contam aí os votos brancos (2%, 22.161 votos) e nulos (2,73%, 30.241), quando o eleitor vai à urna, mas opta por não escolher nenhum dos candidatos. O total dos que não decidiram por nenhum dos dois chegou a 390.654. Quase pega Alberto Neto.
O ex-presidente Jair Bolsonaro, que apoiou Alberto Neto desde o começo, conseguiu uma virada e tanto no 1º Turno. Pesquisadores identificaram um movimento muito forte dos filhos do ex-presidente, em militância nas redes sociais, como um dos principais fatores da virada de Alberto, que era o quarto, em cima de Roberto Cidade e Amom Mandel.
No 2º Turno, com os trackings (pesquisa diária, interna) dando vitória folgada para David, desde quinta (24/10), a militância voltou a atuar. Ficou provado que esse expediente, embora forte, importante, significativo, tem limite.
Material para os haters discutirem: a rejeição de Bolsonaro em Manaus passou a de Lula, nesta eleição. Os sinais, mesmo antes do voto, eram de que o ex-presidente “bateu no teto” da possibilidade de transferência de votos para Alberto Neto. A direita manauara não engoliu as ordens do “chefe” e se dividiu entre o deputado federal e o prefeito.
O coronel Alfredo Menezes que, no auge do bolsonarismo em Manaus, perdeu para Omar Aziz a disputa para o Senado, foi vice de Roberto Cidade. Perdeu de novo. Foi chamado de “oportunista” por Bolsonaro e não causou o esperado efeito de divisão da direita. No 2º Turno, Menezes foi o primeiro a manifestar voto em Alberto Neto. Também não deu. Periga se transformar em amuleto de derrota.
A entrevista do empresário, proprietário do Ciesa, Escola Século e Uiara Resort, Waldery Areosa, rendeu 165.475 visualizações no Portal do Marcos Santos. Entre outras coisas, Waldery criticou duramente a reitora da Fametro, Maria do Carmo: “Você já parou para pensar que ela, caso se elegesse, se tornaria uma das gestoras do IPTU, aquele imposto que ela não paga? Seria a raposa tomando conta do galinheiro. É do interesse público evitar essa calamidade.”
Manaus decidiu por David Almeida para tomar conta, nos próximos quatro anos, de algo mais que R$ 50 bilhões – orçamento, mais empréstimos e emendas parlamentares. Três grandes gargalos do trânsito estão na alça de mira do prefeito: a Bola do Produtor, cujo complexo está apenas iniciado; o mesmo para o encontro da Avenida das Torres com a Alameda Cosme Ferreira, onde o viaduto Márcio Souza mal esbarra no âmago do problema; idem para o encontro da Avenida Brasil com a Estrada da Ponta Negra (nesse, o prefeito disse que dará ordem de serviço nos próximos dias).
A vitória de David Almeida é o primeiro grande ato da eleição de 2026, quando será eleito o sucessor de Wilson Lima no Governo do Amazonas. Tadeu de Souza, vice-governador e coordenador da campanha do prefeito, terá um papel fundamental. David foi aliado de Omar Aziz, candidatíssimo ao Governo, e Eduardo Braga, que disputará a reeleição para o Senado. Um movimento importante, nesse tabuleiro, virá do governador. Ou ele disputa o Senado e deixa a cadeira para Tadeu de Souza, que agora tem ainda menos motivo para renunciar, ou descerá para a planície. Detalhe é que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que não há mais mudança de foro, quando o político perde mandato. No caso de governador de Estado, os processos são julgados no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Wilson tem, pendente, aquele processo gerado pela compra de respiradores, durante a pandemia de Covid-19. Até há alguns meses, esse processo desceria para a primeira instância, na Justiça do Amazonas, oferecendo mais tempo para a defesa. Agora, a pendência fica do jeito que está, no STJ, prontinha para julgamento. Ou o processo é resolvido agora, ainda no exercício do mandato, ou Wilson Lima terá que optar por ser julgado ou como senador ou simples “mortal”. Candidato, o governador terá que se preparar. Eduardo Braga e Plínio Valério, cujas vagas no Senado estarão em jogo, já estão em campo.