
Show à parte de Klaus Meine, na foto com Rudolf Schenker (esquerda dele), fundador da Scorpions, e seus companheiros
“Agora foi dada a Klaus uma voz de metal”. A frase, de 1981, da revista Rolling Stone, se materializa quando a voz de Klaus Meine soa no show da banda Scorpions. Foi dita quando ele acabava de operar nódulos vocais, em duas cirurgias, além de passar por tratamento fonoaudiológico. Era o retorno triunfal do vocalista que os demais integrantes se negaram a deixar para trás… ou encerrariam o grupo. Na Arena da Amazônia, esta quarta (12/04), Klaus foi um show à parte.
O alemão, de Hanover (1948), começou a cantar aos 9 anos e aos 12, em 1960, iniciava carreira profissional. Agora, prestes a completar 75, no próximo dia 25 de maio, mantém a saúde e a qualidade vocais. É um tapa nos paradigmas, que fazem roqueiros ouvirem com certa parcimônia um Axl Rose ou um Jon Bon Jovi.
Klaus enfrenta a máxima de que, depois de certa idade, “é preciso baixar o tom, para poder cantar”. Esse ajuste, que os especialistas concordam ser necessário para a saúde vocal, deve ser feito na preparação da gravação. Para que músicas não se tornem consagradas, antes que o cantor esteja preparado para exibi-la, tanto em estúdio quanto ao vivo.
Bon Jovi, por exemplo, baixou bem o tom de “Bed of roses”, um dos seus maiores sucessos, nos últimos anos. Axl, que o guitarrista Slash, da Guns N’ Roses, dizia cantar em 15 timbres diferentes, não solta mais os famosos agudos da juventude.
O vocalista da Scorpions, com a “cozinha” muito bem feita pelo fundador, o guitarrista Rudolf Schenker, e os demais integrantes, mantém o metal na voz. Tem ajuda do som, do retorno intra-auricular e um ouvido muito atento percebe sim alguma diferença de tom. Mas isso tudo é tão sutil que não mexe no que o cantor entrega.
É incrível que aquele senhorzinho, que quase se arrasta no palco, seguindo as trilhas marcadas no chão, para evitar tombos, exploda dessa forma quando chega ao microfone.
Autor da mundialmente consagrada “Wind of change” (Ventos da mudança), que compôs sozinho, dois meses antes da queda do Muro de Berlim, Klaus está no topo da qualidade vocal. E ele a exibiu, com assobio e tudo.
Sérgio Anders, professor-doutor de canto da Ufam, dono de raríssima voz de contratenor, afirma que “a maturidade vocal do cantor se dá após os 50 anos” e “a qualidade pode ser mantida e até aprimorada”. Mas – sempre tem um “mas” – é preciso perseverança nos cuidados vocais.
A Arena da Amazônia recebeu Sepultura, essa banda brasileira de expressão internacional, e o Kiss, em um de seus 50 shows de despedida. Tudo de altíssimo nível. O Kiss enfrentou problemas. O calor fez o guitarrista-vocalista Gene Simmons passar mal e interromper a apresentação. A tirolesa, que seria usada para atravessar o front stage, com a guitarra de um deles cuspindo fogo, acabou não sendo usada. Mas a banda fez um showzaço.
Klaus Meine, pelo show à parte que deu na Arena da Amazônia, está na galeria dos cantores que conseguiram longevidade. Graças a ela, as novas gerações têm a chance de vibrar com a qualidade e vivacidade dos Scorpions. Todos de altíssimo nível. Como diz o sobrinho roqueiro, Gabriel, em seus 17 anos, apaixonado por percussão: “O baterista (Mikkey Dee) é muito fera”.
Viva o metal da voz desse alemão franzino, praticante de futebol, vôlei e basquete, com os cambitos apertados na calça de couro, que dignifica e valoriza o maior instrumento de todos os tempos: Sua Majestade, a voz.
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