
O julgamento do Festival tem amarrado a festa. A história mostra que é possível inovar. Fotos: Marcos Santos/2022
As comissões Julgadora e Organizadora do Festival de Parintins foram nomeadas. Os ingressos estão esgotados. A festa promete. A três meses do rufar dos tambores, no Bumbódromo, para a disputa oficial, é hora de refletir sobre o evento.
O Festival de Parintins foi construído por jovens, quase crianças. Sim, ainda muito jovens, os fundadores da festa batiam latas e pedaços de madeira como ritmo. Os bois eram cobertos por qualquer pano, sutilmente suprimidos das mães. As “fantasias” eram “como dava”, da folha de bananeira aos galhos de árvores e flores.
Quase inacreditável, não é? Agora pense como nasce um rio. Imagine uma pequena nascente, no Planalto de La Raya, dando origem ao majestoso rio Amazonas. Foi assim que a festa cresceu, se espraiou e hoje é internacionalmente conhecida.
Ano passado, após dois anos sem Festival, por conta da pandemia, Parintins voltou a lotar. Os portos foram tomados por iates. No local onde ancorava um, antes do intervalo forçado, ancoraram três.
O desafio de Caprichoso e Garantido, a partir deste ano, é evitar a (visível) curva decrescente que vinha ocorrendo antes da pandemia. Ou seja, é preciso apresentar ao visitante motivos para voltar, a tal novidade surpreendente e bela que o motiva.
Mais que Parintins, sempre festeira e acolhedora, o passeio de barco e a esfuziante alegria que permeia a festa, é preciso foco no espetáculo.
Um aviso: a maioria dos barcos está deixando a Ilha Tupinambarana após a noite de sábado, a segunda do Festival. O lado bom é que os parintinenses encontram mais espaço para lotar o Bumbódromo. O ruim é o sintoma de um público que “enforcava” sem dó a segunda-feira e agora se farta em duas noites.
Não vamos esquecer de como era a TVLândia e como é o Sambódromo, na capital, em termos de público.
É preciso renovar, explorar à exaustão a fertilidade criativa dos artistas parintinenses.
Os coordenadores das comissões de arte são fundamentais na renovação e qualidade do espetáculo. E, quanto a isso, os sintomas não são nada bons.
O presidente do Garantido se autonomeou coordenador. Antônio Andrade, o homem que quase foi linchado pela torcida, ano passado, por não oferecer na arena o espetáculo esperado, este ano manda em tudo. Não tem mais o filtro de um coordenador, a lhe indicar o caminho da arte. Depende dele e dele. Arrisca o nome do Garantido, a tradição de Lindolfo Monteverde, que ele diz ser tão cara, optando pelo estilo “eu e eu”.
Tomara que dê certo. A festa está farta de tipos que se acham mais importantes que os bumbás e depois quebram a cara. O intervalo deixa sempre marcas ruins.
O Caprichoso mantém a aposta em Ericky Nakanome. Estudioso, centrado, gente boa e trabalhador.
Caprichoso e Garantido precisam romper os grilhões do regulamento. Fazer tudo dentro do quadrado pode, no máximo, agradar os jurados. Mas eles, geralmente, são figuras altamente qualificadas culturalmente, mas ignorantes da festa e arregimentados à unha, em cima da hora, cercados da desconfiança dos dois lados.
Quantos festivais tiveram resultados injustos? Quem cravou “a maioria” não tem nem perigo de errar. Não está convencido? Então saiba que o Festival do ano passado, quando até torcedores e itens do Garantido sabiam que perderam, foi vencido por 6 pontos pelo… Garantido! É isso mesmo. Só deu Caprichoso porque, para evitar os jurados comprados, o regulamento agora descarta as notas absurdas.
Aquela história de “entrada-itens-originalidade-ritual”, por mais que as alegorias sejam esfuziantes, se tornou repetitiva. Há quanto tempo? Desde que Simão Assayag, num ato genial, criou os módulos alegóricos e alavancou o crescimento da festa.
Repetição, repetição, repetição. Três noites, 15 horas de espetáculo parecidíssimo. “Muito linda a alegoria em que veio a cunhã-poranga” – mas todos sabem que ela virá numa alegoria. E por aí vai.
Ganhar ou perder é insignificante, nesse contexto. Perder com a plateia inteira dizendo que merecia ganhar, contribuindo para o crescimento da festa, pode ser até muito melhor.
Um exemplo? O boi biônico, esse que se mexe como se estivesse vivo, foi criado no ano seguinte a um em que o Caprichoso perdeu para o Garantido. Perdeu, mas estava muitíssimo melhor. Vitorioso, o vermelho e branco reuniu a diretoria e os simpatizantes mais expressivos e deu a volta por cima.
Não foi só o boi. Os capacetes do Garantido também cresceram, ficando maiores que o tradicionalíssimo de Zeca Xibelão, que dá nome ao curral azul e branco.
Vou soletrar: O Caprichoso, com uma derrota, onde merecia ganhar, fez o Garantido entender que estava ficando para traz e puxou o Festival de Parintins para a frente.
Um viva para Elcio Fonseca (esposa da saudosa dona Marilda), presidente naquele ano, Zazá, o amo, Ana Celeste (conhecida como “diabinho solto”) e Leó Marques. Élcio teve a coragem de bancar a inovação. Zazá… era simplesmente fantástico, voz maravilhosa, improviso espetacular, pai do Carlinhos Pato, compositor tradicional. Ana Celeste e Leó botaram os primeiros maiôs do Festival de Parintins, mantos, e encantaram o público.
Inovação. Parintins é capaz. Há talento de sobra para isso.