
Amazonino foi prefeito de Manaus três vezes e governador do Amazonas em quatro ocasiões. A foto foi gentilmente cedida pelo fotógrafo Rafael Alves
Amazonino Armando Mendes, tri ex-prefeito de Manaus e poli ex-governador do Amazonas, se foi neste sábado. Vivia em agonia, com a saúde debilitada, como ficou patente na campanha política de 2022. Acabou o sofrimento das idas e vindas aos hospitais. O legado agora é objeto da História e do povo, com os detalhamentos e inevitáveis superlativisações.
Cabe, ainda, uma rápida linha do tempo.
Nascido na Eirunepé de 1939, em plena efervescência da borracha, o Negão foi líder estudantil e, em seguida, empresário da construção civil em Manaus. Aí conheceu ou aprofundou a amizade com uma figura decisiva na carreira política dele, o falecido empresário Adib Mamede. Que, por sua vez, era muito amigo de João Thomé Mestrinho, filho de Gilberto Mestrinho.
Mestrinho volta e, nos ventos da Anistia, é candidato a governador, em 1982. Eleito, em 1983 tem o direito de escolher o prefeito de Manaus e crava Amazonino Mendes. A Assembleia Legislativa tinha o papel de apenas referendar a escolha, mas a aprovação veio sob polêmica severa. O deputado José Costa de Aquino, o Carrapeta, já falecido, teria votado branco, provocando enorme confusão, resolvida “no braço” pela, à época, presidente da casa, Beth Azize, a favor do Negão.
Prefeito, Amazonino se preparou para o Governo do Estado. Tinha, no entanto, a barreira da figura do vice-governador de Mestrinho, Manoel Ribeiro, fincado no empresariado e na Maçonaria. No meio, em 1985, ocorreu a primeira eleição direta para prefeito de Manaus, após a redemocratização. E Manoel Ribeiro foi eleito, quase por unanimidade.
Na hora da escolha do candidato a governador, para o pleito de 1986, Amazonino atropelou e foi indicado por Mestrinho. Formou-se a rebelião conhecida como Muda Amazonas, encabeçada pelos deputados federais Arthur Virgílio e Mário Frota, com apoio de figuras expressivas da sociedade, como o advogado e deputado estadual Felix Valois, o economista Serafim Correa e até o senador biônico Raimundo Parente.
Arthur concorreu para o governo e Mário Frota para o Senado. Frota liderava o pleito quando ocorreu o famoso “apagão do Sesc”. O principal local de apuração ficou às escuras, repentinamente, interrompendo o trabalho da Justiça Eleitoral. No dia seguinte, na retomada, Frota estava atrás e a liderança passava para o segundo nome da chapa indicada por Mestrinho e Amazonino – o primeiro era Fábio Lucena –, Carlos Alberto De Carli. Arthur e Frota juram até hoje que foram garfados, naquela apuração manual.
E Manoel Ribeiro? Resistiu, como prefeito, ao governador Amazonino. A disputa dos dois teve até tiro na fotografia do outro. O resultado foi um Manoel Ribeiro cassado e Manaus governada por prefeito nomeado pelo governador – o secretário estadual de Administração, Alfredo Nascimento.
Amazonino se desincompatibiliza para concorrer ao Senado e entrega o governo para o vice, advogado Vivaldo Frota. É a vez de Mestrinho passar por cima do governador e concorrer ao terceiro mandato. Os dois levaram a campanha inteira às turras (Amazonino chegou a encontrar com Arthur, prefeito de Manaus, que apoiava Wilson Alecrim), mas, no último dia da campanha na TV, apareceram juntos, na sacada do Teatro Amazonas, pedindo votos, um para o outro.
Mestrinho vira governador e Amazonino senador.
O embate seguinte pega Amazonino sozinho, ele próprio candidato a prefeito de Manaus, enfrentando o prefeito da cidade, Arthur, e o governador Mestrinho. O adversário, José Cardoso Dutra, era quase desconhecido na capital porque seus muitos mandatos de deputado federal foram conquistados com votos do interior.
Deu Negão, naquele que foi considerado o embate norteador da política amazonense nas décadas seguintes.
Em 1994, o Negão voltaria a disputar o Governo do Estado. Para isso, com apenas dois anos de mandato, renunciou à Prefeitura de Manaus. Assumiu o vice, o hoje senador Eduardo Braga. Com Arthur auto-exilado em Paris, fazendo cursos na Universidade Sorbonne Paris Nord ou Paris 13, o adversário foi o radialista Nonato Oliveira. Foi um passeio.
Na sucessão de Braga, então prefeito, em 1996, Braga indica seu secretário faz-tudo (da Saúde à Fazenda), Alfredo Nascimento. Que vence Serafim Corrêa por meros 2,5 mil votos.
Veio 1998, ano da sucessão no Governo do Estado e o primeiro da reeleição. Amazonino enfrenta a cria, Eduardo Braga, e vence.
Amazonino teve, entre 1995 e 2002, um governo praticamente sem filtro. Só em 2000 foi editada a Lei Complementar nº 101/2000 (Lei de Responsabilidade Fiscal – LRF).
Sustentou, a ferro e a fogo, uma queda de braço com o empresário Umberto Calderaro Filho, dono de A Crítica e da Rede Calderaro. Foi essa briga, surgida da iniciativa de fundar o Jornal do Norte, que o levou à fundação, em 2005, do Correio Amazonense.
Na hora da sucessão, em 2002, hesitou entre indicar Arthur Virgílio ou Eduardo Braga (Permissão para dizer que ele me disse isso pessoalmente) e optou por Braga. Arthur se tornaria senador, sem adversário e sem manifestações quanto à disputa do governo.
A fundação da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), no último ano do governo Amazonino, em 2002, tem história à parte. Amazonino era duramente criticado por intelectuais, principalmente da Universidade do Amazonas (UA), hoje Ufam, entre outras coisas pela distribuição de motosserras e ideias como o “Projeto Meu Filho”.
O Governo Federal abriu a possibilidade de governos estaduais criarem suas próprias universidades. Amazonino reuniu a nata dos seus críticos, como o professor Ademir Ramos, numa comissão de notáveis que estruturaria a Universidade do Trópico Úmido.
Criou o Instituto Superior de Estudos da Amazonas (Isea). O grupo era presidido por Linaldo Cavalcante, ex-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os demais integrantes foram Moisés Nobre Leão (professor da Ufam), Randolfo Bitencourt (depois deputado federal), José Seráfico de Carvalho (economista, jornalista e professor da Ufam) e Roosevelt Braga (advogado).
As bases da tal Universidade do Trópico Úmido seriam a Utam, o Hospital de Medicina Tropical e a estrutura do Codeama.
O professor-doutor Vicente Nogueira, várias vezes secretário municipal e estadual de Educação, então diretor da Utam, daria contribuição significativa. E o advogado Lourenço Braga, em seguida, complementou o processo da fundação do que se transformou na UEA, vindo a ser seu primeiro reitor.
Os críticos diziam que havia um gatilho escondido: eram três cursos, que no ano seguinte teriam primeiro e segundo anos, isto é, o dobro de alunos, depois o terceiro ano etc. A progressão geométrica dos custos obrigaria o sucessor, Eduardo Braga, a fechar a UEA ou afundaria junto. Braga e o secretário de Fazenda da época, Samuel Hanan, encontraram um mecanismo tributário para tirar um percentual do faturamento das indústrias da Zona Franca para sustentar a UEA. O dinheiro sobra, até hoje. E a instituição permanece de pé.
Braga governador, 42 anos, Amazonino com 63, a história parecia definida. Mas o Negão concorreria a prefeito de Manaus, em 2004, contra Serafim Correia, e experimentou a primeira derrota. Foi também o adversário de Braga, em 2006, na campanha da reeleição no Governo do Estado, e perdeu novamente.
Fim da história? Nada. Em 2008, contra tudo e contra todos, Amazonino daria o troco em Serafim e ganharia o terceiro mandato de prefeito de Manaus. Desgastado, consciente de que não teria a menor chance, desistiu da própria reeleição, em 2012.
O Negão teria, assim, encerrado a carreira de forma melancólica. Foi aí que surgiu o Negão Highlander.
Em 31 de março de 2017, pela primeira vez na história, a Justiça Eleitoral cassou o mandato de um governador do Amazonas, José Melo. Assumiu, interinamente, o presidente da Assembleia Legislativa, David Almeida. Veio a eleição para o mandato tampão. Arthur Virgílio, prefeito, e Omar Aziz, senador, decidem apoiar uma solução transitória, segura, experiente. Quem, quem, quem? Amazonino Mendes.
O Negão, agora Highlander, assume o quarto mandato de governador do Amazonas. E concorre à reeleição, segundo Arthur e Omar contrariando o acordo de não concorrer, mas perde para Wilson Lima.
Em 2022, visivelmente doente, concorre novamente ao Governo e lidera as pesquisas. Até que o ritmo da campanha se intensificou e ficou evidente que ele não conseguiria cumprir novo mandato.
O relato acima é factual. É história. Uma figura como Amazonino Mendes merece, porém, um relato na primeira pessoa.
Vivemos algumas poucas e boas.
O jornalista contestador da redação o encontrou governador. E fui convidado para um programa de entrevistas, ao vivo, na TV. A secretária estadual de Comunicação, jornalista Celes Borges, me advertiu que o Negão queria “uma entrevista para valer”. Puxei-o para o campo das Ciências Sociais, ciente de seu passado estudantil comunista. Quando pensei que ia emparedá-lo, ele se saiu com essa: “Marcos Santos, se você quiser discutir marxismo te chamo lá em casa, pra tomar um café. Aqui não é hora disso”.
Outra vez, ele foi discutir sobre algum momento nevrálgico com Ronaldo Tiradentes. Os dois conversavam no estacionamento da Rádio Tiradentes. Eu estava no estúdio, prestes a entrar no ar. Ronaldo não vinha e fui até lá, sem saber que o papo era com o Negão. Quando vi, me retraí e tentei voltar, mas ele me chamou. Sinceramente, não lembro qual o assunto, mas tinha relevância jornalística. Perguntei: “Governador (título simbólico) o senhor não quer nos dizer isso numa entrevista?”. E ele: “Marcos Santos, sempre jornalista”. E caiu na gargalhada.
Dias depois, inesperadamente, me chamou à casa do Tarumã. Queria que eu comesse pirarucu seco desfiado com ele. Convite irrecusável. Fui com Ronaldo. E o papo foi agradabilíssimo.
Era a noite de inauguração do Bumbódromo. Eu apresentador do Caprichoso. Entra Paulinho Faria e o som estava maravilhoso. Assisti da arquibancada, impressionado com o desempenho do meu adversário de item. Sabia que precisava dar 300%. Na hora da apresentação, no entanto, não conseguia ter retorno e tive que gritar cada vez mais. Com meia hora, meus pulmões estavam doendo, comecei a sentir tontura, pensei que fosse desmaiar. E resolvi apelar, parando a apresentação e cobrando diretamente o governador, então na tribuna de honra:
“Governador, como é que o senhor faz uma obra desse tamanho e esquece do som? O Caprichoso está se apresentando sem retorno e assim fica impossível. Vamos mexer no som ou a gente não volta”.
O jornalista Wilson Nogueira, então assessor de comunicação do governo, me disse que ele balançou a cabeça e exclamou: “Eu podia muito bem ficar sem essa”. E ficou nisso.
Governador, descanse em paz.
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