
Impeachment de governador e vice, pelos meses de pandemia, não pode desviar o foco da opinião pública do combate à corrupção sistêmica, que atinge outros governos. Foto: Divulgação
O impeachment do governador Wilson Lima e do vice dele, Carlos Almeida, é o tema nas rodas políticas. Consegue suplantar até mesmo o seríssimo e urgente debate da eleição para a Prefeitura de Manaus. E se mistura com ele, ao mesmo tempo, movendo interesses relacionados à disputa de novembro. Manipuladores de plantão, profissionais no ramo, por outro lado, trabalham para incutir na opinião pública a máxima de que todos os males do Amazonas surgiram na gestão Wilson Lima.
Há até, viralizando nas redes sociais, um meme no qual o ex-governador Amazonino Mendes aparece dançando. Outro em que um balãozinho, daqueles das revistas em quadrinhos, ao lado da foto dele, com as mãos erguidas, é legendado com a expressão “amadores!”.
A tríade se completou quando o próprio repetiu o famoso “rompendo meu silêncio obsequioso volto a falar de política”, para, em resumo, escarnecer do povo amazonense: “Vocês viram que eu avisei!”. Ele já havia feito isso, quando, derrotado em Manaus para Eduardo Braga, em 1998, apesar de vitorioso para o Governo do Estado, fez a festa da vitória em Manacapuru e espalhou outdoors ilustrados com seu ressentimento.
É fato que o bom-humor faz parte do cotidiano brasileiro. Ameniza as dores e os sofrimentos característicos de nosso País. Mas nada autoriza o escárnio com a história recente do Amazonas.
O governo Wilson Lima tem problemas? Prendam-se os envolvidos. E, principalmente, devolva-se ao Estado o dinheiro roubado. Daí a esquecer, por exemplo, a Operação Maus Caminhos, toda ela desenvolvida na gestão José Melo, vai uma distância abissal.
Amazonino, que agora posa de juiz, dirigiu o Governo do Estado por quatro mandatos, mais de 12 anos, e a Prefeitura de Manaus por três mandatos. Não pode se eximir de nenhum problema estrutural do Estado ou da capital. Qual alternativa o tetra-governador e tri-prefeito ofereceu à Zona Franca de Manaus (ZFM)? Onde está enterrado aquele tal Terceiro Ciclo?
Das gestões de Amazonino o que restou foram duas casas no Tarumã. Na segunda, uma mansão, ele ainda reside. Na primeira, visível, embora em escombros, a Receita Federal e a mídia nacional não o deixaram morar. Era um tal “palácio de cristal”, que agora só serve de curiosidade para donos de iates luxuosos e demais portadores de uma espécie de “Síndrome de Riley-Day social”, impassíveis diante do monumento ao desperdício do dinheiro público. Ou, simplesmente, desmemoriados.
Onde foi parar a investigação da Receita Federal nessa casa? O que aconteceu com os inquéritos abertos? Quando um desavisado solta o meme, chamando Wilson Lima de “amador!”, não estará se referindo à investigação? Que deu, rigorosamente, em nada?
A CPI da Saúde, que tem feito belo trabalho na Assembleia Legislativa, precisa mostrar agora que não sofre de hipocrondroplasia. Ou da Síndrome de Horácio, o personagem de Maurício de Souza que tem os braços curtos.
Entende-se a urgência da investigação da pandemia, do negócio dos respiradores. Há uma eficiente e bem-vinda pressão do Ministério Público Federal (MPF), da mídia e do próprio Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Fica no ar, entretanto, a velha indagação: “E os outros?”.
A CPI foi criada para investigar os governos Eduardo Braga, Omar Aziz, José Melo, David Almeida, Amazonino Mendes e Wilson Lima. Aí surge a ignara e simplória afirmação de que o atual governo está no olho do furacão “porque não sabe roubar!”. Faça-nos o favor! Quer dizer que os outros souberam roubar e essa “habilidade” é uma barreira para exercer nas outras administrações o mesmo fervor investigativo verificado agora?
Quando a CPI chegará aos outros? Parafraseando Nelson Rodrigues, “subdesenvolvimento é uma obra coletiva”. Não haveria o caos na saúde sem que outros tivessem contribuído com parcela de incapacidade ou mesmo corrupção. Cabe ao inquérito fazer rodar a carapuça e encontrar quem nela caiba.
O maior escândalo surgido durante a pandemia, aliás, é a mais escancarada prova de desgoverno: o interior do Amazonas não tem nenhuma UTI. Nunca teve. Cadê as ações para que tenha? Onde soou alguma voz pedindo a estruturação de uma rede interiorana, capaz de dispensar o caro serviço de UTI aérea? A exceção ficou por conta de um outdoor de moradores de Manacapuru, exibindo as lamentáveis mortes pela Covid-19.
O dinheiro gasto, ao longo dos anos cobertos pelo escopo da CPI, daria para ladrilhar com pedrinhas de brilhantes todos os hospitais de Manaus. Seria suficiente para transferir o Albert Einstein para a capital amazonense e o Sírio Libanês para uma cidade distante do interior.
O Amazonas não tem esse tempo para perder. O impeachment de Wilson Lima e Carlos Almeida se transforma numa vergonha, quando se imputa aos dois todos os males do Estado.
Aperte-se o cerco contra a corrupção. Mostre-se aos culpados que não ficarão impunes, neste ou em outros governos. Criem-se barreiras, como a recente decisão do Governo do Estado de só liberar pagamentos na Susam após pente-fino da Procuradoria Geral do Estado (PGE) – que, aliás, deveria ser o estuário natural.
A cassação de José Melo, embora necessária, diante dos fatos revelados na Operação Maus Caminhos, encheu o Amazonas de incertezas.
O impeachment de Wilson Lima, que traz o carimbo do inconformismo com a decisão popular, nasceu para “criar o clima” para a eleição de novembro e pegou carona na investigação do negócio dos respiradores.
Eleição para prefeito e impeachment ocupam todos os espaços. Ninguém fala, por exemplo, no que acontece na Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), mergulhada no silêncio, após a posse do general Algacir Polsin. A galinha dos ovos de ouro está indo para o brejo sem reação da sociedade amazonense, por seus representantes.
É preciso investigar e fiscalizar Wilson Lima? Claro. Óbvio. Os órgãos de controle existem para isso, inclusive a própria Assembleia Legislativa. O Amazonas, porém, precisa extirpar a ideia de que fará justiça derrubando uma árvore, esquecendo toda a floresta de corrupção ao redor.
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