
Morre Tristão Cruz (de azul), um símbolo do esporte, principalmente o atletismo, e da alegria em Parintins
Tristão Cruz faleceu, esta sexta (08/05), em Parintins, vítima de acidente de trânsito. Justo ele, que atropelou adversários nas pistas e deixou para trás qualquer traço de tristeza por onde passava.
O falecimento desse grande atleta, campeão dos 5 mil e dos 10 mil metros, em competições locais e estaduais, lembra um período único. Era quando Parintins, em meio ao trabalho da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), no Campus Avançado do Projeto Rondon, esbanjava campeões.
A Uerj encontrou, logo no primeiro ano, a gestão do prefeito Benedito Azedo. Caiu a sopa no mel. Toda a estrutura requerida foi colocada à disposição e o trabalho deslanchou. Os esportes ditos olímpicos chegaram a ter plateia e praticantes quase iguais aos do futebol na cidade.
Era a década de 1970. Ceuby Rodrigues, professor da Uerj e, à época, campeão sul-americano dos 110 metros com barreiras, comandava um time de atletas-professores. Eles chegavam à cidade animados, formavam monitores, espalhavam conhecimento e farejavam talentos. Nilba Reis Fernandes, por muitos anos recordista sul-americana de arremesso de peso, é dessa safra. Nomes de Parintins, aliás, em seleções estaduais de handebol, atletismo e voleibol, principalmente, tornaram-se comuns.
Tristão sempre se destacou nas corridas de rua. Quando Ceuby o viu correr, decidiu colar os maiores especialistas que trouxera nele. E os resultados apareceram no mesmo ano.
O atleta entrou na pista do Mini Campus da Ufam, em Manaus, nos Jogos Estudantis do Amazonas (JEAs), para a prova dos 5 mil metros, como azarão. No final, diante de uma torcida empolgada de parintinenses, cruzou os 200 metros finais com os braços levantados. O sprint final sempre foi o ponto fraco dele. Precisava ganhar vantagem ao longo da corrida, justamente por causa disso. Nessa prova, que se tornou histórica, acabou sendo ultrapassado por um adversário, Wellington, dono de sprint poderoso.
Triste? Desesperado? Desistente? Dois dias depois, Tristão entrava na pista para os 10 mil metros. E, com a alegria de sempre, venceu.
A trajetória dele sempre foi marcada pelas amizades. No futebol, era um dos maiores incentivadores do Esporte Clube Parintins. Torcedor ferrenho do Caprichoso, não deixava de participar do bumbá. E cultivava os amigos da “Turma do Canto”, grupo conhecido em Parintins pelo bom-humor.
Tristão e eu quase furamos os arredores do gramado do estádio Tupy Cantanhede. Era lá que, às vezes começando às 5h, treinávamos para os JEAs. “Tomara que sejam apenas 20 voltas, tomara, tomara…”. Isso representava 5 mil metros. E Ceuby gritava: “Hoje são 40 voltas pros dois bonitões aí”. Era dia dos 10 mil metros.
Meninos, aos 16, 17 anos, a gente fazia a corrida conversando. Até que Ceuby puxava as orelhas: “Se não fizerem o tempo vão fazer tudo de novo”.
Meu parceiro lamentou quando nosso técnico do vôlei, Elias Moura, vetou minha participação no Atletismo. Mas, já no ano seguinte, a seleção parintinense de voleibol ganhou a histórica medalha de bronze nos JEAs. E era muito tranquilo saber que o representante no Atletismo, nas provas de fundo, seria um campeão como Tristão.
Sobre o que conversávamos, na pista ou fora dela? Perigo era largar a corrida e rolar no chão de tanto rir. Ele tinha piada pronta para tudo, toda hora, o tempo inteiro. É essa alegria que todos os parintinenses que o conheceram, Tristão, lamentam agora ter perdido. Siga em paz, parceiro.
Nota de Pesar
Acabo de receber a notícia trágica do falecimento do amigo pessoal Tristão Cruz, vítima de acidente de trânsito. Uma grande tristeza toma conta de mim.
Estivemos juntos em várias jornadas, que me remetem à lembrança de nossa participação no Esporte Clube Parintins, nas caminhadas políticas, no papo das esquinas e no serviço público, desde o início dos meus mandatos de prefeito, onde sempre foi um grande colaborador. Atualmente, era um dos coordenadores da Secretaria Municipal da Juventude, Esporte e Lazer (Semjel), com presença marcante no cronômetro do Carnailha.
Um amigo leal e solidário acaba de nos deixar. Sempre sorrindo, ganhou o respeito na classe dos professores de educação física e a glória de representar com orgulho nosso município em várias competições de atletismo.
Em tempos tão difíceis, a gente perde um amigo tão bom. Que Deus nos conforte e acalante o coração de seus familiares, parentes e amigos.
Descansa em paz, meu amigo!
Frank Bi Garcia
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