05/SET 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Políticos furam fila do exame e perdem oportunidade de ouro para dar exemplo

Publicado em 20 de março, 2020

Políticos furam fila do exame

Políticos furam fila do exame, enquanto profissionais de saúde dão exemplo, lutando na linha de frente, brigando para evitar pânico

Os 24 deputados estaduais amazonenses – todos! – serão ou foram submetidos ao exame para saber se contraíram Coronavírus. Ficaram apavorados, após sete deles terem se encontrado com o presidente do Senado, David Alcolumbre (DEM-AP), que testou positivo. Foi uma grande oportunidade perdida. Flagrante falta de espírito público e de altruísmo, em momento grave da vida humana.

A eles se juntam senadores e deputados federais amazonenses.

Não há exames para todos. O Brasil ainda não atingiu a curva mais alta da epidemia. O Amazonas está longe, muito longe ainda, do olho do furacão. Nenhum país, do Primeiro ao Quarto Mundo, está preparado para enfrentar esse inimigo ágil, mutante e muitas vezes letal. Ou o empenho é ordenado, rápido e coletivo ou as chances de combate diminuem. Estão aí os exemplos de China, Itália, Espanha e tantos países.

 

Chance didática

Os parlamentares tiveram a chance de mostrar à população, didaticamente, como agir. Fizeram a primeira parte, interrompendo as sessões, fechando as portas do parlamento. Bastava ficar em casa, aguardando de três a sete dias, período de incubação da doença, conforme recomendam autoridades de saúde. Os que apresentassem sintomas, como qualquer cidadão, aí sim!, seriam submetidos a exame e tratamento.

O Estado economizaria até 24 dos preciosos kits laboratoriais do Coronavírus. Os mesmos que são negados diariamente, com razão ou já teriam esgotado!, à massa da população eleitora dos senhores deputados.

Nada do comezinho “o parlamento não faz falta” ou o radical “melhor fechar”. Isso é incompatível com a Democracia. Mas usar “otoridade”, num momento como esse, para furar a extensa fila, dá razão ao perigoso “salve-se quem puder”. Corresponde ao popular “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Deputados estaduais só terão eleição em 2022. Alguns querem disputar a Prefeitura de Manaus. Mas quem está pensando em eleição numa hora como essa? Ficar em casa, para eles, não é nenhum sacrifício. Já estão fazendo isso, compulsoriamente, por conta do recesso imposto à Assembleia do Amazonas pelo Coronavírus.

O pânico é o pior cenário. Levaria hordas de penitentes às portas dos laboratórios. Provocaria quebradeira. Transformaria o planeta num cenário do filme “A volta dos mortos vivos”.

Exagero? Veja a reportagem da Band abaixo, com o cenário nos supermercados. Contém um vídeo que roda o Brasil, atribuído a este e aquele Estado, a este e aquele supermercado, mostrando briga por causa de álcool gel. Uma senhora se revolta, ao ver cliente com carrinho cheio do produto, e reage aos gritos. Ameaça chamar a polícia. Rompe caixas. Retira e coloca garrafas debaixo do braço, como se fossem uma tábua de salvação… Veja:

 

Wilson e Bolsonaro

Deputados têm responsabilidades diferentes do governador Wilson Lima. Dele se exige atuação na linha de frente do combate ao Coronavírus ou comprometeria o comando que o cargo exige. Nele, a sanidade é necessária e foi razoável testá-la. Não tem sete dias para ficar em casa. A peste exige decisões minuto a minuto e, devido às inerências do cargo, esteve mais perto de Alcolumbre. Poderia ter comprometido toda a cadeia de comando de Susam, Semsa e FVS. Ainda bem que testou negativo.

O País leva sustos, toda vez que alguém da comitiva de Jair Bolsonaro, que esteve com Donald Trump, testa positivo. Fica cada vez mais difícil acreditar que o capitão é negativo. Pior ainda é o exemplo nada didático de cumprimentar o público e aparecer em aglomerações. O presidente parece não ouvir o que diz a área de saúde, quanto ao comportamento para quem entrou na linha de tiro do Coronavírus.

Visibilidade dos ocupantes de cargos públicos têm um objetivo. É para, em momentos cruciais da vida em comum, dar o exemplo. Ao correr para fazer o exame e salvar a própria pele, os deputados ficam mal, perante história e eleitorado. Deixam impressão de que, estivéssemos no Titanic, estariam entre os que empurraram outros n’água por vaga nos botes salva-vidas.

Deputados estaduais ainda podem corrigir o rumo. O mesmo vale para os deputados federais Átila Lins, Sidney Leite e Marcelo Ramos, e os senadores Eduardo Braga e Omar Aziz. Todos estiveram com Alcolumbre. Deem o exemplo. Fiquem apenas em casa. Nada de exames. Deixem a fila para quem realmente precisa. Esqueçam a carteirada.

A sanidade coletiva, o tão necessário espírito público, a cidadania e os votos de vocês agradecem.

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