
Políticos furam fila do exame, enquanto profissionais de saúde dão exemplo, lutando na linha de frente, brigando para evitar pânico
Os 24 deputados estaduais amazonenses – todos! – serão ou foram submetidos ao exame para saber se contraíram Coronavírus. Ficaram apavorados, após sete deles terem se encontrado com o presidente do Senado, David Alcolumbre (DEM-AP), que testou positivo. Foi uma grande oportunidade perdida. Flagrante falta de espírito público e de altruísmo, em momento grave da vida humana.
A eles se juntam senadores e deputados federais amazonenses.
Não há exames para todos. O Brasil ainda não atingiu a curva mais alta da epidemia. O Amazonas está longe, muito longe ainda, do olho do furacão. Nenhum país, do Primeiro ao Quarto Mundo, está preparado para enfrentar esse inimigo ágil, mutante e muitas vezes letal. Ou o empenho é ordenado, rápido e coletivo ou as chances de combate diminuem. Estão aí os exemplos de China, Itália, Espanha e tantos países.
Os parlamentares tiveram a chance de mostrar à população, didaticamente, como agir. Fizeram a primeira parte, interrompendo as sessões, fechando as portas do parlamento. Bastava ficar em casa, aguardando de três a sete dias, período de incubação da doença, conforme recomendam autoridades de saúde. Os que apresentassem sintomas, como qualquer cidadão, aí sim!, seriam submetidos a exame e tratamento.
O Estado economizaria até 24 dos preciosos kits laboratoriais do Coronavírus. Os mesmos que são negados diariamente, com razão ou já teriam esgotado!, à massa da população eleitora dos senhores deputados.
Nada do comezinho “o parlamento não faz falta” ou o radical “melhor fechar”. Isso é incompatível com a Democracia. Mas usar “otoridade”, num momento como esse, para furar a extensa fila, dá razão ao perigoso “salve-se quem puder”. Corresponde ao popular “farinha pouca, meu pirão primeiro”.
Deputados estaduais só terão eleição em 2022. Alguns querem disputar a Prefeitura de Manaus. Mas quem está pensando em eleição numa hora como essa? Ficar em casa, para eles, não é nenhum sacrifício. Já estão fazendo isso, compulsoriamente, por conta do recesso imposto à Assembleia do Amazonas pelo Coronavírus.
O pânico é o pior cenário. Levaria hordas de penitentes às portas dos laboratórios. Provocaria quebradeira. Transformaria o planeta num cenário do filme “A volta dos mortos vivos”.
Exagero? Veja a reportagem da Band abaixo, com o cenário nos supermercados. Contém um vídeo que roda o Brasil, atribuído a este e aquele Estado, a este e aquele supermercado, mostrando briga por causa de álcool gel. Uma senhora se revolta, ao ver cliente com carrinho cheio do produto, e reage aos gritos. Ameaça chamar a polícia. Rompe caixas. Retira e coloca garrafas debaixo do braço, como se fossem uma tábua de salvação… Veja:
Deputados têm responsabilidades diferentes do governador Wilson Lima. Dele se exige atuação na linha de frente do combate ao Coronavírus ou comprometeria o comando que o cargo exige. Nele, a sanidade é necessária e foi razoável testá-la. Não tem sete dias para ficar em casa. A peste exige decisões minuto a minuto e, devido às inerências do cargo, esteve mais perto de Alcolumbre. Poderia ter comprometido toda a cadeia de comando de Susam, Semsa e FVS. Ainda bem que testou negativo.
O País leva sustos, toda vez que alguém da comitiva de Jair Bolsonaro, que esteve com Donald Trump, testa positivo. Fica cada vez mais difícil acreditar que o capitão é negativo. Pior ainda é o exemplo nada didático de cumprimentar o público e aparecer em aglomerações. O presidente parece não ouvir o que diz a área de saúde, quanto ao comportamento para quem entrou na linha de tiro do Coronavírus.
Visibilidade dos ocupantes de cargos públicos têm um objetivo. É para, em momentos cruciais da vida em comum, dar o exemplo. Ao correr para fazer o exame e salvar a própria pele, os deputados ficam mal, perante história e eleitorado. Deixam impressão de que, estivéssemos no Titanic, estariam entre os que empurraram outros n’água por vaga nos botes salva-vidas.
Deputados estaduais ainda podem corrigir o rumo. O mesmo vale para os deputados federais Átila Lins, Sidney Leite e Marcelo Ramos, e os senadores Eduardo Braga e Omar Aziz. Todos estiveram com Alcolumbre. Deem o exemplo. Fiquem apenas em casa. Nada de exames. Deixem a fila para quem realmente precisa. Esqueçam a carteirada.
A sanidade coletiva, o tão necessário espírito público, a cidadania e os votos de vocês agradecem.
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