
O lamento por Alice e Bruna nos revela o tamanho da luta para enfrentar preconceito e tráfico, com texto e subtexto, como na obra de Dodgson
“Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol, chama-se “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas”. E Carrol é o pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson. O livro tem fórmulas matemáticas, sátiras, poesias inglesas Século 19, texto e subtexto, um para crianças, outro para adultos. Ou seja, “Alice…” é um clássico que parece, mas não é. A morte de Alice de Lima Vieira, 16, tem também um substrato que merece ser analisado.
Bruna Freitas Rodrigues, 23, recepcionista do restaurante Barolo, igualmente, foi vítima de morte violenta.
Há policiais dizendo que as duas escolheram um caminho e são exemplo para as demais. As famílias querem que ambas tenham o merecido descanso e dispensam qualquer julgamento.
A menina é a graça da família. Justifica todo esforço para alimentá-la e vesti-la. Mas o dinheiro é pouco, a demanda cara e o short dos 8 anos segue sendo usado nos 9, 10, 12… Aperta, cola, ressalta as formas. O que é uma necessidade é visto como sensualidade, às vezes até dentro do círculo familiar.
A inocência vai às ruas. Admira o garotão, dono do único carro do pedaço, andando de balada em balada, grosso cordão de ouro no pescoço. Junta-se ao fã clube do sujeito e aproxima-se do séquito dele, onde está a maioria dos garotos da rua, do bairro…
Vêm o namoro, as fugas para a noite, os primeiros goles, o sexo, a droga.
O garoto, que não tem emprego fixo, é “soldado” do tráfico. A hierarquia é rígida e o chefe dele exige a “novinha” exibida nas festas. Depois, a apresenta aos chefões. Ela sobe na facção. Sente-se quase uma princesa.
São essas meninas as chamadas “blindadas”, as protegidas do tráfico. “Quem é essa gata aí?”, indaga o pretendente. “Ih, rapaz, nem olha que ela é ‘blindada’. Você morre, se ela te der bola”.
O tráfico corrompe pelo produto (cocaína, maconha, LSD, ecstasy…), dinheiro ou sexo. A pílula pode ser dourada à escolha do freguês, mas esta é a raiz desse império, na análise nua e crua.
Bonita, bem vestida, aquinhoada com algum dinheiro pelos programas, a menina que um dia foi inocente vira atração. E pratica a “casinha” – atrai os desafetos para a morte, com pretexto sexual.
Morre o primeiro, o segundo, o terceiro. A prática é conhecida, entre policiais e bandidos. A menina, que se julgava blindada, é exposta e morre.
Há milhares delas na periferia. Beleza e sensualidade, virtù e fortuna para tantas mulheres, ao longo da história, são um carma nesse cenário. Pagam um caro tributo. Se atravessam o cerco do tráfico, ainda esbarram no preconceito e machismo dos abastados.
Resistem aquelas que se escoram numa família embasada em valores morais. Essas driblam as armadilhas. Tiram de letra. Tornam-se craques da vida.
O funil destaca e valoriza a independência, inteligência e vontade férrea de tantas mulheres de sucesso. Mas as vítimas, que ficam pelo caminho, vão se amontoando na crônica policial.
Este artigo não tem nenhuma pretensão. Estudos sociológicos, antropológicos etc. ficam para a academia. O Estado, afinal, investe alto na formação desses especialistas. Que eles nos tragam respostas e saídas. Que mostrem que só a polícia não conseguirá resolver o problema. A barra está cada vez mais pesada.
Veja mais notícias em Opinião