
Não é só um título, mas a festa dos flamenguistas, como essa feita por amazonenses em Lima, antes e depois do jogo, mexe com toda a estrutura do futebol brasileiro
O título da Copa Libertadores 2019, conquistado pelo Flamengo, abre as portas do presente ao futebol brasileiro. O País estava no passado, como República de Banana, exportando matéria-prima para Europa e até Ásia. Veio a diretoria atual do clube de maior torcida do Brasil, arrumou as finanças em seis anos e, voilà!, o time retorna ao topo da glória.
Não é só um título. Vascaínos, botafoguenses e tricolores, que aumentaram as contas de energia usando secadores, também se beneficiam. O maior rival ganhando a Libertadores e sobrando na Série A do Brasileiro é golpe muito duro. Mesmo o mais cleptomaníaco dos diretores sente a pancada. E esses brios, mexidos e remexidos, vão provocar uma nova corrida de organização.
Brasileiro adora futebol. Gruda na TV e baba com o altíssimo nível dos times europeus. Não é para menos. São verdadeiras seleções transnacionais, sem os limites impostos pela Fifa às seleções nacionais. O dinheiro jorra, tanto dos investidores quanto na venda de produtos aos torcedores.
Neymar chegou ao Paris Saint-Germain? Cristiano Ronaldo na Juventus? Só as camisas novinhas, que lotam as lojas, pagam grande parte daqueles milhões investidos.
A maré era toda de ida. De repente, o Flamengo se organiza e traz um técnico português em ascensão. Um nome de campanhas milagrosas no Benfica, um sujeito de sangue quente. Jorge de Jesus chega, mexe em uma ou duas peças e acaba com a bobagem de “poupar titulares”. Colhe, com isso, um entrosamento cada vez maior.
Chama o lateral-direito do Bayern de Munique, Rafinha, e o lateral-esquerdo do Atlético de Madrid, Felipe Luís. Vai buscar Arrascaeta no Cruzeiro, Gabigol no Santos e Rodrigo Caio no São Paulo. Traz o goleiro recordista de defesas de pênaltis na história do futebol espanhol, Diego Alves, do Valência.
E Bruno Henrique? O melhor jogador das Américas, eleito após a final deste sábado (23/11), fez um belo 2017, pelo Santos. Excelente, para quem fez toda base como amador e só teve o primeiro contrato profissional aos 21 anos, no Cruzeiro. Ele dorme – melhor, hiberna – uma parte expressiva do jogo. É um cai-cai parecido com o que vai retirando Neymar dos holofotes. Mas, quando todos xingam, na frente da TV ou na beira do estádio, eis que ele tira coelhos da cartola. Foi assim na final, especialmente no primeiro gol do Flamengo, com passe magistral para Arrascaeta deixar Gabigol sozinho. E, como o gol vai passar muitas vezes, notem que ele sai da ponta esquerda e é marcado por quatro, cinco adversários. Evita passar para Gabigol, que estaria impedido, preferindo Arrascaeta, que acompanhou a jogada desde a defesa.
O elenco é excelente. O técnico ótimo. Foi a estruturação do clube, porém, que permitiu chegar a esse momento.
E se o Flamengo perdesse? Tudo estaria desmoronado? Não. Seria uma enorme frustração para o torcedor, mas, economia tem fundamentos. Quando a base está sólida, bem montada, não se destrói facilmente. É uma casa construída sobre a rocha. Os resultados demorariam mais, mas viriam depois.
Vasco, Botafogo, Fluminense, Palmeiras, São Paulo, Corinthians, Grêmio, Internacional, Cruzeiro, Atlético-MG… Esses clubes não se deixarão acovardar pelo predomínio do Flamengo: dez (ou mais) melhores rendas do Brasileirão; 13 pontos para o segundo colocado; pode ser campeão quatro rodadas antes do fim. E chegará ao mundial de Doha, Catar, cheio de moral.
Todos vão reagir e isso será muito bom para o futebol brasileiro. Tomara, também, que essa onda varra para sempre o cartola fuleiro. Que aquele sujeito que senta em cima da bola e não deixa ninguém fazer nada se toque, peça para sair e vá embora. Da mesma forma os ladrões, aqueles que afundam o time, enquanto enchem os bolsos.
Tomara.
Ah, tem aquela pergunta que tem sido feita com insistência: qual o melhor time do Flamengo, o de 1981 ou o de 2019?
É uma pergunta boba. Não se compara alhos com bugalhos. São duas épocas diferentes. Ambos fizeram história. Você já pensou assistir a um jogo em que falta na entrada da área era meio gol? Pois era assim com o Galinho de Quintino. “Júnior, você fez muitos gols de falta?” “Não. O Galo não deixava. Só ele batia e transformava todas em gols”. Diálogo ilustrativo. Outro tempo. Tempos heróicos.
O Flamengo vai fazendo história. Acorda, futebol brasileiro. Chega de comodismo.