25/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

A educação de antigamente e o filho de pobre criado como rico

Publicado em 22 de setembro, 2019

A educação de antigamente

A educação de antigamente tinha lá os seus defeitos, mas os pais mostravam aos filhos a realidade da vida. Foto: Vivek Chugh/ Agência Senado

A gente mal esbarra nos 60 anos e começa a ouvir coisas do tipo “quando foi isso?” Ou até “essas coisas nunca existiram”. Frases que correspondem ao parintinense “mas quaaaaando já!”. Parênteses: esse “quaaaaando”, pronunciado rápido e puxando para o cantado, é quase uma identidade da Ilha.

O diálogo fica assim:

“Levei um tapão do papai que dei duas rodadas. Tinha uns sete anos”. E o interlocutor: “Mas quaaaaando já!”

“Em casa tinha uma goiabeira, cujos galhos meu irmão mais velho usava pra corrigir minhas travessuras”. E o outro: “Mas quaaaaando já!”

“A gente só tinha direito a ir ao estádio, ver futebol, ou soltar papagaio, no campo onde hoje é o curral do Caprichoso, se fosse primeiro ao culto”. “Mas quaaaaando já!”

“Zé Caiá, meu pai, falou: ‘Trata de aprender uma profissão, meu filho, pra não depender de ninguém’. Aí eu fui pro Jaime, marido da prima Mena, aprender carpintaria. Não deu. A Bolão, filha dele, era tão hábil na enxó e na lixa, que ficou bem claro que ali não dava. Corri pra oficina do seu Joãozinho Agra, grande amigo da família, em frente de casa, aprender mecânica. Fiquei só uns dias. A saga durou mais no Pit, uma espécie de ‘Pelé dos alfaiates’, onde aprendi a chulear, fazer bainha, pregar botão e… contar piada. O Baú, Mauro Cruz, grande alfaiate, hoje trabalhando em Manaus, no Japiim, traz no DNA a habilidade do Pit”. “Mas quaaaaando já!”

“Tinha seis anos, queria ir pro cinema, comecei a pedir um monte de coisas e papai me disse: ‘Então trata de ganhar dinheiro pra isso’. Fui vender picolé. Aos nove anos virei auxiliar de pedreiro, aos 12 comecei no rádio”. E o outro: “Hoje em dia teus pais iam era ser presos”.

“Minha casa tinha o fogão, maravilhoso, feito de barro por meu pai, onde mamãe cozinhava, assava, guisava e fritava. Tudo moldado sobre jirau e pés de madeira. A cozinha era o único compartimento separado do salão, onde atávamos nossas redes, mas com vão sem porta. Que tempo bom aquele. Quanta saudade”.

A educação de antigamente, na qual tenho sincero e humilde orgulho de ter sido criado, tinha todos esses ingredientes.

 

Pai pobre criando filho como rico

Padre Paulo Pinto, um sábio, hoje representante da Santa Sé no Amazonas para questões do Direito Canônico, é bem direto no tema: “Há pais, pobres, criando os filhos como ricos. Quando esses filhos se tornarem adultos terão desejos de ricos. E, não conseguindo suprir esses desejos, enveredarão pelo mundo das drogas”.

Conselho do padre? “Contem aos filhos como foram as vidas de vocês. Mostrem as fotos das casas humildes em que vocês moraram (a nossa era toda de barro, forrada com jornais por causa dos carapanãs, coberta com palha e piso de chão). Digam como foi difícil chegar às casas e apartamentos bonitos em que vocês moram hoje”.

Carapuça devidamente vestida. A sociedade seria bem melhor se cada pai vigiasse o filho. Não para brigar com o professor que deu nota baixa ou repreendeu o rebento. Com a educação de antigamente? Aprendemos que não é preciso bater para incutir lições. Nossos pais não tinham as ferramentas que temos hoje. A repreensão dura, severa, contínua, mostrando as armadilhas do mundo, aí sim!

“Proteção demais desprotege”, como diz Erasmo Carlos, em “Filho único”.

Vender o almoço para comprar mimos para os filhos? Mas quaaaaando já!

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