30/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

A eleição no Caprichoso e o Festival de Parintins para leigos e os que fingem não entender

Publicado em 18 de agosto, 2019

A eleição no Caprichoso

A eleição no Caprichoso fica marcada pelo tumulto na prestação de contas da diretoria atual e uma dívida que, dizem, chega a R$ 9 milhões

O Caprichoso elege a nova diretoria no primeiro domingo de setembro (1º/09). Deve homologar os nomes do advogado Jender Lobato e o artista plástico Karu Carvalho. São dois jovens, nascidos e criados nas raízes do bumbá, Jender no Esconde e Karu na Francesa. A síntese que os dois conseguiram, unindo chapas, é bonita e teve apoio de gregos e troianos. Será momento de união ou apenas novo desenlace político do caos administrativo em que se tornaram os bumbás de Parintins?

Caprichoso e Garantido recebem, cada um, em torno de R$ 8 milhões de patrocínio direto. Têm mais algum subsídio enviado pelos movimentos de Manaus e dinheiro de bilheteria. Dá para arriscar, por baixo, uns R$ 9 milhões de receita anual.

 

Dívida? Como?

O Caprichoso deve em torno de R$ 9 milhões. Como é que pode? Digamos que o bumbá gaste R$ 3 milhões por cada uma das três noites de apresentação. É muito. Absurdamente excessivo. Mas perfeitamente coberto pela receita anual.

Ficaram dívidas de gestões anteriores? Quanto? Por que esse estoque de dívida só aumenta? Qual a causa de os bumbás sangrarem patrimônio, todos os anos, com leilões de propriedades, principalmente galpões?

As coisas pioraram a ponto de, no aperto que a Amazonas Energia, privatizada, está dando nos devedores, cortarem a luz do curral. E há artistas que ainda não receberam todo o dinheiro relativo ao Festival/2019.

Ninguém imagine que no Garantido a coisa é diferente. Há anos, os dois bois vivem esse “efeito Orloff” (“eu sou você amanhã”). Quem ganha, no entanto, vê os seus problemas mascarados e a torcida para de cobrar. Como o Garantido ganhou, o silêncio toma conta do curral da Baixa.

 

Vale-tudo dos resultados

Essa é parte significativa do vale tudo dos resultados. Faz crescer, quando ocorrem determinadas vitórias, a máxima de que é melhor investir em jurado que no boi. E aquelas figuras das sombras, que não podem aparecer, sob risco de linchamento, se tornam aliados preciosos.

Outra parte desse caldeirão é o atraso no pagamento dos patrocínios. Tem patrocinador que só paga em dezembro, seis meses após o Festival. Esse intervalo se torna o paraíso dos agiotas. São eles que aparecem com dívidas milionárias e vão surrupiando as propriedades dos sócios, embora travestidos de “torcedores apaixonados”.

O outro componente desse quebra-cabeças é a mais absoluta falta de fiscalização e prestações de contas mais falsas que notas de R$ 200. Essa realidade culminou com a acusação, ao presidente atual do Caprichoso, na reunião de apreciação das contas: ele teria saído correndo com documentos da agremiação debaixo dos braços.

 

Dinheiro público estadual e federal e de acionistas

O Caprichoso recebe dinheiro público. Inclusive de empresas estatais, como Correios, Banco do Brasil e Petrobras, ou seja, verba federal. O principal patrocinador do Festival de Parintins é a Coca-Cola, multinacional de capital aberto, que deve contas aos acionistas.

Presidentes de bumbás, porém, podem tudo. São inúmeros os casos de aumento de patrimônio de diretores. Formam-se filas de vítimas de enchentes e secas na região do Médio-Baixo Amazonas pedindo madeira. nas portas dessas agremiações. Do nada, depois de passar pelo cargo, alguém ostenta uma lancha cara, alegando que “vendeu um terreno”. E todos sabem que terreno em Parintins mal paga uma canoa.

Por que isso acontece? Falta de fiscalização. Panos quentes. Descompromisso com a história. Facilidade demais. Bajulação em excesso. Deslumbramento.

 

Sem quilha

Uma dívida de R$ 9 milhões, se é que ela existe, tira a quilha do bumbá mais organizado nas finanças. E o Festival de Parintins, por esses caminhos, se perde nos furos e paranás do desvario da corrupção.

É preciso aprumar as coisas.

Seu Karu, pai do Karuzinho, foi o carpinteiro de nossa casa. Era unha e carne com o velho Caiá. Dividi muitas vezes, na casa deles, o frito de crueira, o ingá, a goiaba, que a mãe dele fazia. Vivemos tardes inesquecíveis de futebol na areia das ruas descalçadas da Francesa e do Palmares.

Lobato e Ana Adélia, pais do Jender, eram vizinhos de Santarém, irmão de papai, que fazia Dona Aurora para Luiz Gonzaga dançar. E tocava banjo e rabecão na orquestra do Caprichoso. Morava a poucas casas do quintal de tia Osmarina, cedido para o Caprichoso na década de 1970. Era vizinho do compositor José Carlos Portilho, naquela Esconde (travessa Sá Peixoto) dos Cruz, dos Cid e do Parque das Castanholeiras.

Será possível que essa dupla, peitos cheios de medalhas azuis, também vai se corromper? Não creio. Sinceramente, não acredito.

Fiscalizemos, por via das dúvidas, as contas do bumbá. Eles estão cheios de bons propósitos, mas são homens e não arcanjos.

Ministério Público Estadual e Ministério Público Federal ajudem. Uma das maiores festas populares do País agoniza. Ela só brilha, em junho-julho, por causa da garra e do talento da gente parintinense.

Salvem-nos. A começar por exigir explicações plausíveis para essas dívidas fantasmagóricas e essa aquisição de patrimônio tão acintosa.

Boa sorte Jender. Boa sorte Karu. Sorte Caprichoso. A sorte do Festival de Parintins depende de vocês.

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