02/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O Patrimônio Cultural do Brasil criado pela curumizada que gostava de pescar

Publicado em 11 de novembro, 2018

O Patrimônio Cultural do Brasil criado pela curumizada

O Patrimônio Cultural do Brasil criado pela curumizada parintinense, destacando a beleza da criatividade e das cunhãs-porangas

Latas e pedaços de madeira na percussão. Galhos e folhas de bananeira nas “fantasias”. Boi coberto de pano. Muito cascudo dos mais velhos quando o barulho começava cedo ou terminava tarde. E persistência da curumizada, vontade de fazer, aprimoramento, espírito aberto para contribuição que veio e continua vindo de todo lado. Esse é o Boi Bumbá de Parintins, Patrimônio Cultural do Brasil, reconhecido pelo Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O Garantido tem justo orgulho da origem, que, “é histórico e é sabido”, nasceu num sonho de mestre Lindolfo Monteverde. Mas a grande característica do Boi Bumbá parintinense é a pluralidade. O Caprichoso tem esse patrimônio, de forma mais nítida, desde a origem. Nasceu de Luiz Gonzaga, Roque (o primeiro amo) e Nascimento Cid, Boboí, José Furtado Belém e muitos outros. O vermelho e branco acumulou contribuições ao longo da história.

Os curumins do Boi Bumbá cresceram. Se tornaram pescadores e estivadores. Ganharam prestígio junto às autoridades e angariaram simpatias entre os “brancos”. Sim, Parintins teve senzala e guardou no fundo da memória esse passado. Mas nada de apartheid ou coisa parecida. “Brancos” eram como os ricos da época eram chamados.

Entre os mecenas que mais ajudaram estão Antônio Maia (Garantido) e Raimundo Dejard Vieira e Elias Assayag (Caprichoso). Esses três, nos primórdios, davam veludo e pó brilhante, para “cobrir” o boi, e o “mamote”, a carne do churrasco. Foram fundamentais na ajuda financeira que deu asas à imaginação da garotada.

Veja os fatos mais marcantes das vidas de Caprichoso e Garantido:

Criação do Boi Galante, tronco de ambos;

Criação do Garantido;

Boi Galante passa a se chamar Caprichoso;

Criação do Festival Folclórico de Parintins;

Prefeito Raimundo Reis Ferreira investe em mídia nacional e “emplaca” o festival no Fantástico e Jornal Nacional da Rede Globo;

Prefeito Gláucio Gonçalves constrói o “bumbódromo de madeira”;

Governador Amazonino Mendes constrói o bumbódromo de alvenaria;

Coca-Cola aceita patrocinar o Festival de Parintins;

Joãozinho Trinta e outros carnavalescos aportam na Ilha Tupinambarana e abrem espaço para artistas locais no Carnaval Carioca.

A Band transmite o Festival Folclórico de Parintins em cadeia nacional.

O “Complexo Cultural do Boi Bumbá do Médio Amazonas e Parintins” é Patrimônio do Brasil.

Tem algo que ainda precisamos entender. Os burocratas do Iphan estenderam o Boi Bumbá por toda a Região do Médio Amazonas. Isso engloba manifestações desse tipo, tradicionais, entre Itacoatiara (AM) e Santarém (PA). Parintins fica, geograficamente, bem no meio das duas cidades.

O brasileiro sabe que os Bois Bumbás Garantido e Caprichoso deram origem a diversas outras manifestações derivadas. Festribal de Juruti (PA), Sairé de Santarém e outros festivais com disputas de bumbás existem no Amazonas e no Pará.

A Região Cultural do Médio Amazonas, aí entendido o rio e não apenas o Estado, realmente, tem características peculiares. Linguagem, gastronomia e essa quedinha por uma festa são traços de união nessa gente. E tem o atavismo exacerbado, esse sentimento que valoriza e divulga com tanto empenho as coisas da região.

Muitos chamam de pavulagem. Atavismo fica, digamos, mais pávulo e pancoso.

O Boi Bumbá, enfim, que explode no Bumbódromo em cores, ritmo e inventividade, é uma festa democrática. Até na hora de receber o troféu do reconhecimento nacional divide a honraria com toda a região.

Dezesseis anos para tornar o Boi Bumbá Patrimônio Cultural do Brasil? Acho é pouco. A gente levou um século para parir e criar essa criança espetacular. Zé Caiá e Rubem dos Santos estão vibrando lá em cima. Eles sabem que colocaram uns pinguinhos valiosos de tinta no caleidoscópio que tio Luiz Gonzaga ajudou a criar.

Viva a Cultura Popular. Viva o Boi de Parintins.

Ouça, a seguir, duas toadas representativas da festa:

Garantido, Índio do Brasil:

Caprichoso, Boi de Negro:

https://youtu.be/zLRKsXC7a8A

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