
O rei Sol e a muralha da China. Entenda a política de baixa extração na hora em que os políticos esperam pelo momento das convenções, final de julho, começo de agosto. Esta é Muralha da China, construída pelo Negão, no Tarumã. Foto: Sandro Pereira/ D24
Política, com P maiúsculo, é aquela disputada pelo bem-estar coletivo. Político com p minúsculo, entretanto, trabalha para se dar bem, tipo Justo Veríssimo, e gasta o precioso tempo comunitário sem realizações. Há muitos exemplos de política praticada por ela mesma, sem a menor sinceridade de propósitos. O Amazonas assiste, na hora da zona morta, sem data decisiva no calendário eleitoral, festival de inércia e baixo nível. Bora ver onde estão os sinais?
O governador Amazonino Mendes – é o cargo dele que será disputado este ano – já foi rei do Amazonas. Isso ocorreu, anteriormente, em priscas eras do primeiro, segundo e até o terceiro mandato, no fim de 2002. Distribuía benesses entre amigos, assim, na maior cara dura, sem que houvesse contestação. Depois saíram inventando essas coisas impeditivas, tipo imunidade do Ministério Público, Lei de Responsabilidade Fiscal etc.
Agora, com Lava Jato na rua, ex-governador do AM cassado e até preso, ele não entendeu que os tempos são outros. Alguém vai precisar desenhar.
Amazonino, em tempos do novo Código Florestal, constrói uma verdadeira muralha da China, cercando o valioso feudo onde mora. Todos que visitam a área, turistas, manauaras e adversários, publicam vídeos mostrando a obra. Eles pipocam, todavia, na Internet. O jornal Diário do Amazonas, que denunciou em primeira mão o escândalo, foi processado e já ganhou em primeira instância.
O que diz a Lei? Não pode construir nada, exceto quando houver interesse social, a menos de 500 metros de “rios internacionais”. O que é isso? Rios que ultrapassam as fronteiras do Brasil. É o caso do rio Negro. Mas o Tarumã não é só um afluente e a obra não está numa enseada? Ok, pode ser, o licenciamento, então, é do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). Mas nada pode ser construído no mínimo a 30 metros da margem do rio. Exceto se houver “interesse público” ou “interesse social”. Quem define isso? A Câmara de Vereadores, obedecidos os pressupostos de audiência pública etc. etc.
Por que pelo menos 30 metros de distância no terreno de Amazonino? Porque se trata de zona de expansão urbana não consolidada. Embora haja vários condomínios loteados na área, nenhum ainda foi ocupado.
Esse barulho todo, ademais, não pode ser feito por alguém que tenha contas a prestar, por ocupar cargo público, à população. Ainda mais quando está prestes a se submeter a julgamento popular, concorrendo à reeleição, caso de Amazonino.
O que faz o governador? Manda tocar a obra. Ignora a revolta da sociedade. Age na base do “deixe comigo que eu resolvo”. Isso funcionava bem nos velhos tempos do reinado. Agora ou a sociedade age para mostrar que não é mais assim ou o rei está posto. Novamente. Sem amarras e com aquele sorriso de deboche amplamente conhecido.
Veja esta frase do governador, quando indagado sobre a minoria na Assembleia Legislativa: “Podia governar com os deputados e optei por governar com o povo”. Ele acaba de criar um jogo perigoso.
O Legislativo representa o povo. É eleito por ele. Essa história de “governar com o povo” e virar as costas para o parlamento é deslavada demagogia.
É a partir do movimento no Parlamento que a sociedade tem a chance de agir. Precisa ouvir os debates. Deve ficar atenta à produção das leis.
Está certo que, é histórico e é sabido, o parlamento estadual do Amazonas sempre se curvou ao governador de plantão. Mas agora, pela primeira vez, há uma maioria oposicionista. Tomara que os deputados saibam usar esse importante instrumento com sabedoria. Eles são um atalho para segurar o Negão e seus arroubos ditatoriais. Como ocorreu no reajuste “na tora” dos salários dos secretários.
Há perseguição no varejo. E há no atacado, isto é, em postos mais proeminentes.
Vejam o exemplo do deputado estadual Dermilson Chagas. Adotou uma postura de Ferrabrás, batendo a torto e a direito em defesa do “homem”. O resultado é que, incompatibilizado até com a base governamental, foi colocado de escanteio.
Os demais aliados se perguntam: “Por que vou me expor se quem mais se expôs acabou escanteado?”
Claro que a vaidade humana, entretanto, dirá a vários deles que são mais hábeis que Dermilson. O problema é que a decisão não é dele. Nem é nova. É um princípio já aplicado em outras eras e que está de volta.
A sociedade precisa agir. Governador tem que realizar. O Estado não pode dispensar esse espaço de tempo que vai passando. Ou terá que se curvar. O rei voltou? Viva o rei? Só que não. Ou sim?
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