
Foto publicada nas redes sociais, mostrando presidiários instantes antes do massacre de janeiro, reproduzida pela revista Veja
Dois ex-secretários de Administração Penitenciária e dois ex-integrantes da cúpula de segurança confirmam: a sociedade está perdendo a guerra para a organização criminosa Família do Norte (FDN) dentro dos presídios. O panavueiro é grande. “Quando o preso chega, o ‘Xerife’ encosta e avisa que pode ficar despreocupado. Eles vão cuidar da família dele”, diz uma das fontes. O “cuidar” se materializa por rancho completo e algum dinheiro para passar o mês. Tudo é anotado e cobrado depois em “serviços” – assaltos ou mesmo assassinatos –, dependendo da “habilidade” do recrutado. É isso ou os familiares são ameaçados de morte. E o próprio preso corre perigo. “Ou a sociedade reage ou esses caras ficarão cada dia mais poderosos”, diz outro ex-integrante da cúpula de segurança.
Durante a campanha política de 2014, um áudio ficou famoso. Zé Roberto da Compensa, tido como líder da FDN, afirmava que tinha mais de 100 mil votos dentro da facção.
“Todo o esforço do Estado, prendendo criminosos, acaba se transformando em azeitona na empada da FDN. Eles só precisam esperar os novos presos, dentro do presídio, para engrossar a tropa de ‘soldados'”, diz uma das fontes. “Imagine alguém que está atrás das grades, ameaçado por todo lado, sabendo que também seus familiares correm perigo?”, indaga ex-secretário.
O custo de um presidiário no Amazonas, segundo dados do Governo do Estado, é de R$ 4.112,00. Isso é mais que o dobro da média nacional. O dinheiro deveria ser investido em ressocialização do preso e humanização dos presídios. O resultado, como mostram os fatos, não tem correspondido.
A disputa entre FDN, ligada ao carioca Comando Vermelho (CV), e o Primeiro Comando da Capital (PCC), foi decidida no massacre do Réveillon deste ano. “Morreram os que não quiseram ceder à pressão da FDN. Para a sociedade não há diferença. Antes, as duas facções faziam recrutamento nos presídios e agora apenas uma”, diz uma fonte.
A Seap, que diagnosticou o problema várias gestões atrás, tentou reagir e brigar pelas famílias dos presos. Só que a reação esbarrou na burocracia, na falta de dinheiro e no quadro de pessoal insuficiente. “A gente precisa buscar uma rubrica e enquadrar esse custo no orçamento, que é feito no ano anterior. A FDN, enquanto isso, vai engrossando o exército”, diz uma fonte.
Igrejas evangélicas e setores da igreja Católica, que têm serviço social filantrópico, seriam uma saída. “Assim que ocorresse a prisão, os fiéis seriam acionados para dar conforto à família e impedir qualquer acesso de recrutadores da FDN”, disse um dos especialistas. “O Estado não consegue fazer segurança sozinho. A sociedade tem que se envolver porque os resultados têm sido desastrosos, com alto custo e mortes lamentáveis”, acrescentou.
Essa guerra, em disputa dos presos, tem novos lances todos os dias. “Se não for cortada a linha de abastecimento do exército de criminosos a polícia vai continuar enxugando gelo”, define um dos ouvidos. “A hora de agir passou e a FDN se tornou isso que está aí, mas fica pior a cada dia”, define outro.
O secretário estadual de Segurança, Bosco Saraiva, ouvido pela coluna, afirma que as regras na cadeia mudaram. “A Seap segue, hoje, todas as diretrizes nacionais. Houve, após o massacre de janeiro, atenção especial a essa situação. Tanto que ainda se mantém em Manaus a Força Nacional de Segurança. As ações têm sido afinadas com a Secretaria Nacional de Segurança, em Brasília”, disse o secretário.
“Essa questão do “xerife” existe desde muito tempo. As regras da cadeia são antigas e ficaram mais claras com a facilidade de informação, por aplicativos como o Whatsapp. O presídio tem sido mantido sob controle. A gente tem o comando da cadeia, na gestão do coronel Cleitman (atual titular da Seap). Isso é fato”, diz Bosco Saraiva.
Fornecedores reclamam que a Central de Medicamentos (Cema) está retardando entrega de notas fiscais para evitar habilitação de débitos. O coordenador da Cema, Olavo Celso Tapajós Silva, teria ameaçado agredir um dos fornecedores no braço, outro dia, quando ele foi cobrar a nota.
A pesquisa DMP/ Tiradentes revela que até Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) continua competitiva para se reeleger ao Senado. Mesmo após ter virado as costas para o Amazonas e dedicado 100% do mandato a defender Lula, Dilma e companhia.
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