20/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Pato selvagem, porco-do-mato, peixe-boi e tartaruga x canard, javali, foie gras e vitelo, Amazônia x Europa, desafio na gastronomia

Publicado em 15 de setembro, 2017

Prato de pasta (massa, macarrão) com trufas, de restaurante de Barolo, no Piemonte. A gastronomia europeia é consagrada mundialmente. Foto: Tereza Cidade

Uma das passagens mais marcantes do filme “Pegando fogo” (Burnt, 2015), que está no Now, da Net, é quando o chefe de cozinha Adam Jones (Bradley Cooper) faz a sous-chef Helena (Sienna Miller) pedir desculpas a um peixe porque “ele morreu em vão”. Em resumo, a comida não ficou boa. Esse respeito pelos ingredientes, que faz a agricultura, caça e pecuária florescer em torno dos restaurantes europeus, é fundamental para embasar uma gastronomia regional de sucesso. Só quem nunca viu famílias e amigos interioranos reunidos em torno de uma tartaruga pode dizer que esse componente não existe na Amazônia.

A dúvida é por que, então, a Amazônia está tão distante da alta gastronomia?

O título deste comentário, como percebeu desde logo o leitor mais atento, é uma grande provocação, que corre o risco de comparar alhos com bugalhos. Vamos lá, ainda assim, para mostrar que as coisas não estão tão distantes.

O pato (canard em francês), que se tornou um clássico da culinária francesa, especialmente no confit de canard, um dia já foi apenas selvagem. Teve que ser domesticado para oferecer a quantidade que o sucesso dele à mesa exigia.

O porco-do-mato amazônico em uma de suas variedades, o queixada, guarda grande semelhança com o europeu javali. Ainda hoje, na bela Montalcino, na Toscana, os italianos caçam o chinghiale (javali, em italiano), depois que descobriram a harmonia perfeita da carne do animal com o renomado vinho tinto Brunello de Montalcino. Os turistas ouvem, durante o dia, os tiros disparados nas matas dos arredores e depois lotam os restaurantes para saborear a harmonização.

O peixe-boi, delicado, em risco de extinção, é uma iguaria amazônica que vai ficando no passado. Enquanto os europeus souberam frear a grita internacional contra o foie gras, na melhor versão produzido à base da obesidade mais que forçada dos gansos, os caboclos foram rendidos pela legislação e fiscalização severas, sem cobrar ações reais de preservação e a transformação de estudos avançados, desenvolvidos em locais como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em demonstração de que é possível fazê-lo procriar em cativeiro.

(Parênteses para uma curiosidade: dizem que os cientistas estavam prontos para atestar a impossibilidade de criação em cativeiro do peixe-boi, quando um caboclo olhou os tanques e matou a charada. “O peixe-boi tem relações sexuais na vertical e esses tanques são muito rasos para permitir isso”. Aprofundaram os tanques e logo nasceram os primeiros peixes-boizinhos made in Inpa.)

A tartaruga talvez seja, de todos os tabus gastronômicos da Amazônia, o que tenha a criação em cativeiro mais avançada. É lenda a história de que precisa de 200 anos para atingir a idade adulta. Ainda não há estudos que desmintam essa longevidade, mas o próprio Ibama autoriza a comercialização a partir dos três anos. Os criadores, porém, enfrentam resistência dos consumidores amazonenses, que preferem tartarugas maiores. Criatórios nos arredores de Manaus mostram claramente que, com boa alimentação, elas crescem e chegam ao ponto de abate (um palmo a palmo e meio de peito) entre cinco e dez anos, dependendo da alimentação.

O vitelo, que é uma das carnes mais apreciadas na Europa, é criado suspenso, sem tocar o chão, para não ter músculos. É abatido, no máximo, com dez meses de vida e, alguns, dias após o nascimento. A exasperação em torno deles arrefeceu quase completamente porque a indústria da gastronomia, aliada umbilical da enologia e do turismo, reagiu rápida e eficientemente.

A paca, um roedor alimentado na selva por castanhas da floresta, especialmente a do Brasil, com a aproximação das cidades consome restos deixados pelo homem. Criá-la em cativeiro, como ocorre no interior de São Paulo, Bahia e Pernambuco, é uma garantia de qualidade e sabor da carne e de saúde ao consumidor.

Note que a Amazônia tem elementos suficientes para fazer a roda da gastronomia rodar, impulsionando as atividades turísticas de que tanto o caboclo precisa. E o turismo é uma das maiores indústrias do mundo.

Tem tempo? Dá pra esperar?

Tente oferecer a um europeu um prato de tartaruga ou de peixe-boi. A reação é da mais absoluta aversão, mesmo quando confrontados com os métodos questionáveis de produção de alimentos como foie gras e vitelo. Mas até os amazonenses mais jovens, nascidos sob a égide do “politicamente correto”, recusam esses pratos tradicionais do caboclo.

Lembram da frase atribuída ao médico Dráuzio Varella? Em livre tradução, o mundo investe tanto em cirurgia plástica e estimulante sexual e tão pouco no combate às doenças degenerativas que corremos o risco de ter seios e pênis duros, mas não saber para que servem – por causa do Alzheimer.

O frei José de Carbajal, cronista do navegador Francisco Orellana, falava de criatórios de ovíparos, semelhantes à galinha, nos rios da Amazônia, quando a expedição pioneira passou por aqui. Os índios, donos originais destas terras, já se preocupavam com isso. Haverá, no futuro, avanço da ciência e da mentalidade empresarial para permitir criatórios desses animais com grande potencial gastronômico, como a tartaruga e o peixe-boi. A Embrapa, maior instituição científica de biotecnologia do planeta, e o Inpa estão aí mesmo para confirmar. Mas haverá mercado para tal? Não estaremos, como no paradoxo de Dráuzio Varella, a julgar pelo caminho que as coisas vão, sem saber o que fazer com eles?

A Europa promove gastronomia há séculos. A França aproveitou muito bem um casamento de monarca com italiana e absorveu lições que a fizeram destaque mundial nesse tema. O Piemonte, na Itália, onde as trufas imperam, é a região que apresenta mais novidades gastronômicas no mercado internacional, ao lado do Peru e de Hong-Kong.

A Amazônia vai penar para encontrar seu lugar ao sol na gastronomia. Terá que lutar bravamente para afastar quem não respeita a tradição regional e educar o povo no combate aos desperdícios.

É arregaçar as mangas. Tem matéria-prima. Dá pra fazer.

Veja mais notícias em Opinião

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.